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Genebra, 23 de outubro de 2026 (RAFA) – O chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, comparou o El Niño em curso a uma “bola de demolição” que pode expor 50 milhões de pessoas a mais fome, anunciando um primeiro pacote de apoio de 50 milhões de dólares para vários países.
Fletcher disse que os dados mais recentes apontam a que o fenómeno seja de grande dimensão, atingindo a América Latina, a África oriental e austral, a Ásia e o Pacífico com “calor extremo, secas e inundações”.
“Isto é grave, e temos de levar isto a sério”, disse o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários e coordenador de Ajuda de Emergência.
O aviso do responsável da OCHA foi deixado numa conferência de imprensa conjunta, em Genebra, com a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo
O Banco Africano de Desenvolvimento estima que o El Niño custe aos países africanos entre 10 mil milhões e 20 mil milhões de dólares e reduza o produto interno bruto entre 1% e 2%, segundo Fletcher.
O fenómeno chega numa altura em que as regiões afetadas já enfrentam conflitos, deslocações, subida dos preços dos combustíveis, dos fertilizantes e dos alimentos, ou cortes profundos na ajuda.
“Os danos não ficarão nos países que estão no caminho imediato deste El Niño. Criarão choques económicos para a economia global e alimentarão mais conflitos, deslocações e migração”, afirmou.
O relatório mais recente, divulgado esta semana pela Organização Meteorológica Mundial (OMWW) prevê para o Sudeste Asiático e no Pacífico ocidental, temperaturas acima do normal no Continente Marítimo, que inclui o arquipélago indonésio e Timor-Leste, e para maior probabilidade de chuva abaixo do normal. O relatório não faz previsões por país.
O Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF) da ONU libertou, entretanto, mais de 50 milhões de dólares para 11 países na linha da frente, entre os quais Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul.
Fletcher instruiu os coordenadores humanitários a usarem os fundos comuns para se prepararem e ajustou o plano humanitário global à nova realidade.
Na prática, isso significa dar dinheiro às famílias antes do choque, ajudar agricultores e pastores a proteger colheitas e gado e deslocar material para zonas seguras antes de as estradas serem cortadas.
A ONU chama a esta abordagem “ação antecipada”. Fletcher apelou aos países, aos bancos de desenvolvimento e às instituições financeiras internacionais para que libertem o financiamento antes dos danos, “e não depois”.
“As próximas duas semanas são a janela crítica para agir antes de os danos acontecerem”, afirmou. Somália, Etiópia e Quénia precisam de dinheiro e de material antes das chuvas fortes. A África austral precisa de sementes e de proteção do gado antes de se fecharem as janelas de plantação, e a América Central precisa de apoio imediato aos meios de subsistência. Na Ásia e no Pacífico, os países devem preparar-se para secas, inundações e ciclones”, afirmou.
“Seria uma falha extraordinária ver esta crise a aproximar-se, ouvir as previsões dos especialistas e, ainda assim, desperdiçar a oportunidade de proteger as pessoas no seu caminho”, disse ainda.
O responsável alertou que “o sistema humanitário, não consegue sozinho fazer face a uma ameaça desta dimensão” e pediu uma mobilização mais ampla de governos, sociedade civil, meio académico e empresas.
E disse ter escrito aos países com capacidade de resposta a catástrofes para que a coloquem em prontidão imediata e colocou em alerta máximo a rede de preparação para desastres.
Ativou também uma célula para a comunidade científica partilhar dados, previsões e aconselhamento, e pediu ao setor privado, incluindo as empresas tecnológicas, apoio financeiro e prático. E apelou para que se reduza o “ruído desnecessário” dos ataques indiscriminados ao sistema internacional e à ONU e que se reforce a cooperação.
Questionado sobre a duração do impacto, Fletcher disse que “esse impacto de longo prazo sentir-se-á durante meses e, receio, potencialmente anos”, porque se sobrepõe a outras crises. Citou o aumento dos custos de combustíveis, alimentos e fertilizantes associado aos pontos de estrangulamento marítimos de Bab el-Mandeb, do estreito de Ormuz e do mar Negro, que o El Niño deverá agravar.
A ONU deveria já chegar a mais de 250 milhões de pessoas, e o balanço global de necessidades humanitárias para 2027, que está a ser finalizado, deverá refletir um aumento. Fletcher disse também estar concentrado em chegar a 11 milhões de pessoas em 10 conflitos que atualmente não consegue alcançar, e que o El Niño tornará esse trabalho mais difícil e mais urgente.
“Não podemos evitar o El Niño, mas podemos levar a sério os desafios que temos pela frente”, afirmou. “Podemos esperar pelo desastre ou investir na resiliência.”
Saulo afirmou que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical podem subir até 3,8 graus Celsius acima da média entre novembro e janeiro.
Os episódios anteriores, com anomalias de cerca de 3 graus, tiveram impactos muito substanciais em todo o mundo, mas “estamos além desse limite”, disse. A responsável acrescentou que o El Niño atingirá o pico no final de 2026, mas que os seus efeitos se farão sentir muito depois.
“Estamos a caminhar para um El Niño que está, literalmente, fora dos gráficos”, refere a OMM no comunicado que acompanha a Atualização Climática Sazonal Global.
O documento, preparado a 20 de outubro, é elaborado pelas comissões de Infraestruturas (INFCOM) e de Serviços (SERCOM) da OMM, com o Centro Líder para a Previsão Sazonal por Conjunto Multimodelo, gerido pela Administração Meteorológica da Coreia e pelos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos.
Combina as previsões de 15 centros de produção global de previsões sazonais, entre os quais ECMWF, UK Met Office, Bureau of Meteorology da Austrália, Agência Meteorológica do Japão, Météo-France e Administração Meteorológica da China.
A análise cobre o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027 e apresenta probabilidades de a temperatura e a chuva ficarem acima, perto ou abaixo do normal, em comparação com o período de referência 1993-2009.
Destina-se a centros climáticos regionais e serviços meteorológicos nacionais, não substitui as previsões oficiais de cada país e a OMM nota que a fiabilidade das previsões sazonais é menor do que a das previsões do tempo.
Em setembro, o índice Niño 3.4, que mede a temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial central, atingiu +2,8 graus Celsius acima da média, depois de +2,0 em julho. Para o trimestre novembro-janeiro, o conjunto de modelos prevê uma anomalia média de cerca de +3,8 graus, com pico por volta de dezembro e dispersão reduzida entre os modelos, o que, segundo o relatório, reflete elevada confiança.
Nas regiões tropicais, o relatório aponta aumento significativo da probabilidade de temperaturas acima do normal na África equatorial, na América do Sul equatorial e no Continente Marítimo. No Pacífico equatorial, a leste da linha internacional de data, a probabilidade ultrapassa 80%.
Na chuva, o relatório indica forte reforço da probabilidade de valores abaixo do normal no Pacífico ocidental, num padrão em ferradura que se estende pelos dois hemisférios a partir de cerca dos 120 graus de longitude este. Nas zonas costeiras da Ásia Oriental e entre a Península Arábica e a Ásia Central, a probabilidade de chuva acima do normal aumenta. Na Austrália, a probabilidade de temperaturas acima do normal é moderada.
Um índice que mede o aquecimento do oceano Índico, o Dipolo do Índico, deverá descer para +0,3 graus em média no trimestre.
Segundo a OMM, o fenómeno poderá agravar necessidades humanitárias, sobretudo entre refugiados, comunidades afetadas por conflitos, deslocados e outras populações vulneráveis. A OMM e o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) apelam a ação antecipada para salvar vidas e meios de subsistência, em especial nas comunidades mais frágeis.
Jornalista: António Sampaio
Escrito por RafaFM
ONU compara El Niño a "bola de demolição" que pode agravar a fome de 50 milhões de pessoas
todayOutubro 23, 2026 4 2
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