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Timor-Leste deve gerir turismo de mergulho sem ganância e como marca de luxo para evitar destino de lugares sobrecarregados, defende responsável da OceanX

todayAgosto 28, 2026 8

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Díli, 28 de agosto de 2026 (RAFA) – Timor-Leste deve gerir o seu turismo de mergulho como uma marca de luxo, e não como um destino de massas, para evitar o destino de outros lugares já muito sobrecarregados disse em entrevista à RAFA o responsável da OceanX, Vincent Pieribone.

“Trabalhem com cuidado, porque aí tornam-se mais parecidos com a marca Louis Vuitton, não com a marca Kmart. A marca Louis Vuitton pode cobrar o que quiser, e pode manter-se delicada e discreta”, afirmou Pieribone, ao descrever o potencial do país para um turismo de mergulho de nicho e elevado valor.

Vincent Pieribone falava à margem de um simpósio sobre a missão da Ocean X, em 2025, que a RAFA está a transmitir em direto, com uma ampla cobertura noticiosa.

Segundo o responsável, controlos fortes sobre a atividade de mergulho cumprem duas funções: protegem os recifes e permitem limitar o número de embarcações, cobrando mais por isso.

“Se alguém disser: ‘desculpe, não quer pagar?’, a resposta é: ‘não venha’. Este vai ser um dos lugares que as pessoas vão querer visitar no mundo”, disse.

Mas Pieribone alertou, porém, para os riscos da ganância.

“Outros lugares, como Raja Ampat e destinos semelhantes, nem sempre são bem tratados. Ficam sobrelotados, e é aí que entra a ganância. As pessoas dizem: ‘bem, temos dez barcos e as coisas estão bem, vamos ter vinte e teremos o dobro da receita.’ Mas não vão ter o dobro da receita durante muito tempo. Vão ter mais receita por um período mais curto”, alertou.

O responsável da OceanX deu o exemplo do Egito, país onde, segundo disse, existiu durante anos um bom controlo e moderação da atividade turística, até a ganância se instalar.

“Cada vez mais barcos, cada vez mais stress, cada vez mais incidentes. Os recifes já não têm o aspeto que costumavam ter. Acabaram por reconhecer isso e recuar.”

Em contraste, apontou o exemplo da costa saudita, onde a OceanX tem passado bastante tempo: “os recifes estão imaculados e bonitos. É a mesma massa de água, mas não existe o mesmo nível de stress – menos barcos, menos âncoras, menos pressão.”

Questionado sobre se é possível conciliar o desenvolvimento de uma economia azul com a proteção destes recursos, Pieribone foi categórico: “não é apenas possível, é necessário.”

“Esta ideia de uma divisão entre proteção e exploração está errada. Foi criada por quem explora, não por quem conserva. O termo ‘sustentável’, que todos usamos constantemente, tem significado. Sustentável significa uso, mas uso sustentado. Se se quer extrair valor económico sustentado deste ecossistema, é preciso tratá-lo bem”, afirmou.

Para ilustrar a ideia, recorreu ao exemplo de um automóvel de luxo: “Não se compra um Porsche e simplesmente se conduz, sem o reparar, sem o consertar, sem lhe fazer manutenção e sem cuidar dele. Se se quer que algo tão preciso, bonito, elaborado e diverso como este ecossistema sobreviva enquanto os seres humanos nele intervêm, isso tem de ser feito com ponderação.”

O responsável defendeu que essa abordagem já foi testada com sucesso noutros locais, dando como exemplo a fiscalização das pescas no Alasca.

“O nível de precisão com que os cientistas trabalham com os pescadores para gerir esses recursos pesqueiros é extraordinário. Dizem-lhes: ‘podem pescar durante os próximos vinte minutos’, e eles estão prontos para ir. Recolhem o peixe, depois param, porque sabem que, se continuarem mais tempo, a população de peixe vai ficar esgotada. Têm feito isso há trinta anos, e o peixe continua lá. Continuam a pescar, e continua a existir um negócio próspero.”

Segundo Pieribone, isto “não tem nada a ver com o tamanho da frota, sejam barcos grandes ou tradicionais. Tem tudo a ver com as políticas em vigor.”

Pieribone alertou ainda que as alterações climáticas vão continuar a afetar a distribuição das populações de peixe, obrigando a uma visão de longo prazo na definição de políticas de pesca, incluindo a proteção de fêmeas em época de reprodução.

“Não capturem essas fêmeas. É essa a altura de parar e deixar o sistema respirar. Deixá-las dar à luz. Deixar as larvas sair. Depois, mais tarde, capturem os peixes maiores, não os pequenos – os que tiveram tempo de crescer.”

Segundo o cientista, “estes são os tipos de políticas que, repetidamente, se mostrou que mantêm as populações de peixe saudáveis. É apenas uma forma inteligente de gerir recursos.”

Questionado sobre a dimensão da biodiversidade encontrada durante a missão de novembro de 2025, Pieribone disse que os próprios especialistas mundiais em biodiversidade de águas profundas ficaram surpreendidos com o que encontraram em Timor-Leste.

“Pessoas como o Gustav (Paulay) e a Francesca (Benzoni), são especialistas mundiais em biodiversidade de águas profundas. Viajaram pelo mundo inteiro a fazer isto. Quando lhes disse que tínhamos a oportunidade de vir a Timor, ficaram extasiados, porque tinham ouvido falar do país, mas não sabiam muito sobre ele”, contou.

Segundo o responsável, “obviamente, a Indonésia e a Austrália têm sido muito estudadas, mas esta área é, por alguma razão particular, simplesmente rica, viva e extremamente biodiversa.”

“Para mim, isso faz parte da riqueza deste país. Isto é uma das coisas que este país possui. A maior parte da sua paisagem está debaixo de água”, afirmou Pieribone, considerando que proteger esse património e desenvolvê-lo da forma correta “seria uma prioridade máxima” se estivesse no lugar das autoridades timorenses.

“Não se quer que governos estrangeiros, intervenção externa ou danos locais afetem isto, porque se quer que se mantenha intacto”, acrescentou.

O diretor científico da OceanX recordou ainda, de forma pessoal, o colapso dos recifes da sua terra natal, na Florida, como advertência para Timor-Leste.

“Cresci na Flórida. Vi os meus recifes passarem de terem este aspeto para parecerem uma zona de guerra debaixo de água. Está tudo morto. Há doença”, contou, recordando ter mergulhado nesses recifes ao fim de vinte anos sem o fazer.

“Fui lá para baixo com o nosso navio. Não mergulhava naqueles recifes há vinte anos, e chorei debaixo de água. Não estou a exagerar – chorei. Ia levar o meu filho até lá, e disse-lhe: ‘não venhas. Não quero que vejas o aspeto que aquilo tem agora’, porque me lembro de como era, tal como vocês ainda têm aqui.”

Segundo Pieribone, “a poluição e a sobrepesca causaram danos enormes”, deixando as Florida Keys, outrora com a maior concentração de operadores de mergulho do mundo”, fora da lista de desejos de qualquer mergulhador.

“Mas vocês estão nessa lista de desejos. Diria: fiquem nessa lista. Essa é a vossa herança. É o legado que vai ser entregue à próxima geração deste país. Não lhes deem um ecossistema destruído. Vão arrepender-se disso”, insistiu.

“Não deixem chegar a esse ponto. São um país pequeno, e isso também significa que ainda têm uma oportunidade”, afirmou Pieribone, acrescentando acreditar que o Governo timorense “está interessado nisto e que se preocupa com o povo”.

Segundo o cientista, “quando se aplica pressão, reflexão e consciência pública – quando se mostra a todos a beleza deste lugar – as pessoas começam a sentir que isto faz parte do seu país. É isto que faz de Timor, Timor, aos olhos do resto do mundo.”

Questionado sobre a importância de transmitir a mensagem de que a missão da OceanX é apenas um primeiro passo, e não um ponto final, Pieribone confirmou.

“O nosso objetivo aqui é estabelecer uma tendência e encorajar as pessoas. É por isso que adoramos a divulgação e por isso que gostamos de falar com jornalistas. Queremos que o povo, os estudantes e os jovens deste país recebam de nós esse testemunho.”

“Neste momento, temos de trazer cientistas estrangeiros que percebem de zoologia, e essa competência é necessária aqui. Queremos que ela exista aqui. Queremos ajudar a trazê-la para cá. Queremos ajudar a formar, ensinar e desenvolver essa capacidade”, disse.

“Sim, esta foi uma pequena expedição de treze dias, e estamos a fazer disso um grande acontecimento – mas é um grande acontecimento. Todos nos juntámos para ver estas coisas com equipamento caro e grande apoio logístico. Mas o que isto realmente faz é inspirar as pessoas a pensar sobre o assunto”, afirmou, adiantando esperar que o navio da OceanX regresse a Timor-Leste ainda este ano, desta vez com mais participação timorense a bordo, incluindo jornalistas. “Não devíamos ter sempre de trazer especialistas de fora do país. Deviam existir aqui especialistas em peixes e em invertebrados, a dar continuidade a este trabalho. E temos todo o gosto em trazer o navio e apoiar isso, sempre”, disse.

Pieribone insistiu que a OceanX não impõe uma agenda própria às autoridades timorenses. “Queremos que o Governo e o povo nos digam o que fazer. Nunca chegamos e dizemos: ‘vamos fazer isto, vamos fazer aquilo.’ Não temos uma agenda. Em todos os lugares onde vamos, os países dizem-nos do que precisam. Nós só queremos servir esses países”, afirmou.

“Não é o nosso trabalho dizer às pessoas o que fazer. É o teu trabalho fornecer-lhes recursos, ajudá-las nessa jornada e depois recuar e deixar a magia acontecer. E penso que é isso que Timor representa”, considerou ainda.

“Sinto que Timor, de entre todos os lugares, tem a oportunidade de conseguir isto. Pela sua dimensão, pelo espírito e pela emoção do seu povo – pode não ser um país rico, mas é um país que tem todos os ingredientes certos para lá chegar”, afirmou.

“Gostaria mais do que tudo de voltar aqui com os meus filhos, daqui a uns anos, e dizer: ‘olhem para este lugar. Manteve a sua biodiversidade. Manteve a beleza que aqui existe.’ E vai tornar-se incrivelmente valioso à medida que outros lugares ficarem sobrelotados”, concluiu Vincent Pieribone.

Jornalista: António Sampaio

 

Escrito por RafaFM

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