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La Guaira, Venezuela, 01 de julho de 2026 (RAFA.TL) – Organizações de ajuda humanitária alertaram que o já frágil sistema de saúde da Venezuela está a ser levado ao limite, quase uma semana depois de dois sismos de grande magnitude terem atingido o país, com hospitais danificados e com falta de pessoal.
As unidades de saúde das zonas mais afetadas estão a ficar sobrecarregados por feridos e pelo surgimento de doenças infeciosas na zona do desastre.
O governo venezuelano situa atualmente o número de mortos em 1.943, com 10.571 feridos, segundo o balanço diário apresentado por Jorge Rodríguez, irmão da Presidente interina Delcy Rodríguez.
Especialistas alertam, no entanto, que este número poderá estar significativamente subestimado, à medida que mais corpos continuam a ser retirados dos escombros e as morgues enfrentam dificuldades para gerir o afluxo.
Entretanto, o número de resgates oficiais caiu de forma acentuada nos últimos três dias, segundo o governo, tendo passado de 5.380 pessoas salvas nos dois primeiros dias após os sismos para apenas quatro encontradas com vida na segunda-feira.
A janela habitual para encontrar sobreviventes situa-se entre as 48 e as 72 horas após um desastre, embora seja possível sobreviver por mais tempo, dependendo de fatores como a temperatura ou o acesso a água e alimentos.
O único sobrevivente resgatado na terça-feira foi uma criança que esteve seis dias soterrada sob um edifício, segundo Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional.
Estes números não incluem os resgates realizados em todo o país por grupos de voluntários que, frustrados com a lentidão da resposta governamental, se mobilizaram para salvar familiares soterrados, ainda antes da chegada das equipas internacionais especializadas.
Mais de 46.600 pessoas dadas como desaparecidas, um número que a ONU coloca acima das 50 mil.
Peritos internacionais em gestão de catástrofes, citados pelo New York Times, consideram que o balanço divulgado pelas autoridades poderá constituir “uma subestimação substancial” da real dimensão da tragédia.
Entre as vítimas mortais contam-se também cidadãos estrangeiros.
Portugal confirmou que entre os mortos há pelo menos 68 cidadãos portugueses, ou pessoas com ascendência portuguesa, e outras 85 permanecem desaparecidas.
A Colômbia contabilizou, por seu lado, 24 cidadãos colombianos mortos na Venezuela, enquanto Espanha reportou 17 óbitos confirmados entre os seus nacionais e cerca de 150 pessoas por localizar.
Foram identificados entre os mortos oito cidadãos chineses, dois brasileiros, um dominicano, três chilenos, um cubano e um uruguaio.
O impacto material do desastre é igualmente severo: as Nações Unidas estimam que os sismos geraram 1,2 milhões de toneladas de escombros de edifícios e bens destruídos, e os danos económicos totais são calculados entre 4,7 e 8,7 mil milhões de dólares – entre quatro a oito por cento do Produto Interno Bruto da Venezuela -, podendo o custo real ser até três vezes superior.
Junto dos sobreviventes desenrola-se também uma crise humanitária. As Nações Unidas manifestaram preocupação com os efeitos na saúde de milhares de deslocados que dormem há dias ao relento ou em abrigos superlotados e sem condições sanitárias.
Sem acesso a casas de banho, duches ou sabão, os deslocados venezuelanos tornaram-se ainda mais vulneráveis a surtos de doenças evitáveis, como o sarampo, dada a baixa taxa de vacinação da população, alertou Lindmeier, acrescentando que as condições são também propícias à propagação de doenças transmitidas pela água, como dengue, febre amarela e malária.
Segundo o governo, os sismos da semana passada danificaram ou comprometeram 38 hospitais em todo o país.
A OMS avaliou até ao momento 21 dessas unidades, três das quais já não estão operacionais; outras seis sofreram danos e as restantes enfrentam dificuldades perante o afluxo de doentes. Muitos médicos especialistas, incluindo responsáveis pela área da maternidade em La Guaira, estão desaparecidos sob os escombros, agravando os desafios num país de onde já emigraram cerca de oito milhões de pessoas nos últimos anos, entre as quais muitos médicos e enfermeiros.
Nas ruas de La Guaira e localidades vizinhas, é já visível uma presença crescente de organizações não-governamentais, com tendas da Cruz Vermelha, do Programa Alimentar Mundial e de outras entidades montadas em passeios, marginais e instalações desportivas, onde a população faz fila, sob sol intenso, para receber produtos de higiene, alimentos, medicamentos e máscaras gratuitos.
Com o governo pouco transparente quanto ao número de vítimas e sem um balanço oficial de desaparecidos, os venezuelanos comuns têm recorrido a grupos de WhatsApp e a bases de dados digitais não-governamentais para reportar familiares desaparecidos. Um desses registos contabiliza pelo menos 43.220 pessoas como desaparecidas.
A agência espacial norte-americana NASA estima que cerca de 59 mil edifícios ficaram danificados ou destruídos pelos sismos, um número que elevaria a centenas de milhares o total de pessoas afetadas.
Já a agência das Nações Unidas para a infância, UNICEF, indicou esta terça-feira que 680 mil crianças necessitam de assistência humanitária em todo o país.
FIM
Escrito por RafaFM
Sistema de saúde venezuelano ao limite e balanço de mortos sobe para quase 2000 uma semana após sismos
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