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Venezuela luta contra o tempo para identificar corpos após terramotos que já mataram mais pelo menos 3.000 pessoas

todayJulho 6, 2026 24

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La Guaira, 6 de julho de 2026 (RAFA.TL) – Rosa López recorda, em voz baixa, como teve de contornar filas de corpos estendidos sob um sol inclemente enquanto ajudava a filha a procurar o marido desaparecido, uma das possíveis vítimas mortais dos sismos na Venezuela.

Nem os seus anos de trabalho como enfermeira a prepararam para a visão de dezenas de mortos envoltos em lençóis ou cobertores.

“Vimos muitos corpos que ainda não tinham sido identificados”, contou López.

A corrida contra o tempo prossegue em toda a La Guaira, o estado do litoral norte da Venezuela mais atingido pelos dois poderosos terramotos consecutivos de 24 de junho, para identificar as vítimas antes que seja tarde de mais.

Com pelo menos 3.000 mortos, a Venezuela está sobrecarregada de cadáveres que as autoridades têm dificuldade em recolher, identificar e preservar para que as famílias os possam reclamar. Milhares de pessoas continuam desaparecidas.

Um processo complexo porque, em alguns casos, podem ter morrido todos os elementos da família.

José Antonio Toledo, genro de López, de 25 anos, foi encontrado sob o edifício onde trabalhava como segurança quando ocorreram os sismos.

As equipas transportaram o corpo para um hospital local, mas o pessoal recusou-o por falta de espaço.

O corpo foi então enviado para outra instalação e, mais tarde, transferido para um parque de estacionamento ao ar livre.

Um médico legista ajudou a família a encontrá-lo dias depois, no sábado.

Mas, uma vez identificado o corpo, não sabiam o que fazer, pois não tinham como pagar os 450 dólares cobrados por uma agência funerária.

Quase à meia-noite de sábado, López foi informada de que a câmara municipal oferecia um espaço gratuito num cemitério local, mas teriam de se apressar para não perder o lugar. Uma hora depois, López e a filha subiram a colina até ao cemitério e enterraram Toledo.

“Era uma pessoa exemplar, um rapaz que gostava de ajudar os outros”, disse López.

Assim, salvaram-no de uma vala comum que muitos temem vir a ser necessária à medida que prossegue a busca pelos corpos das vítimas.

O técnico forense Joel Mirabal trabalha sem parar há sete dias, desde que os terramotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o país.

O especialista, de 45 anos, estima que em 60% a 70% dos casos há um familiar ou vizinho disponível para identificar um corpo no momento da recolha.

Ainda assim, garante que é uma tarefa difícil, já que muitos recorrem a tatuagens, cicatrizes ou peças de roupa reconhecíveis.

“Não se parecem nem 10% com o que eram na vida real”, afirmou, referindo-se às vítimas.

Quando não é possível identificar um corpo, este é encaminhado para especialistas forenses que trabalham no porto marítimo de La Guaira.

Empresas privadas doaram grandes contentores de refrigeração para ajudar a preservar os cadáveres, mas o número de mortos continua a aumentar.

“Obviamente, será necessário criar valas comuns”, afirmou Mirabal. “O colapso é massivo e os corpos estão soterrados sob várias camadas de escombros.”

Mirabal disse esperar que ele e os restantes técnicos forenses continuem a recolher corpos durante até três meses.

As equipas percorrem diariamente as zonas afectadas, orientadas por equipas de resgate e por civis que encontraram ou avistaram corpos.

“Muitos dos resgates são feitos pela própria população”, disse, referindo-se aos milhares de venezuelanos comuns que se têm juntado ao esforço de recuperação.

Treinador de cães de profissão – tendo já colaborado com o governo na localização de droga e de pessoas desaparecidas -, Mirabal encontra consolo nos 12 cães que o esperam em casa, sem contar com as crias.

Um dos seus preferidos é Mila, uma jovem pastora-holandesa preta que na quinta-feira permaneceu ao seu lado enquanto descansava.

“Não é nada fácil testemunhar o sofrimento e a tragédia dos nossos semelhantes”, afirmou.

Durante o fim de semana, as equipas transportaram dezenas de corpos recuperados de edifícios destruídos para uma unidade de saúde pública na cidade de La Guaira.

Os corpos ficaram num parque de estacionamento sob calor sufocante até serem identificados pelas famílias, com trabalhadores de agências funerárias a estimar que, em determinado momento, ali se encontravam mais de 200 cadáveres.

Na quinta-feira, quem perdeu entes queridos aguardava junto ao porto marítimo de La Guaira para identificar corpos que as autoridades continuam a recolher por todo o estado costeiro. Automóveis, incluindo camiões e carrinhas de agências funerárias, formaram uma fila junto a uma morgue improvisada.

Entre os que esperavam estava Robert Rodríguez. Sentado num bloco de cimento, abatido, com as pernas penduradas, aguardava que a filha identificasse o corpo do genro. Rafael Alvarado morreu preso dentro de uma mercearia onde trabalhava no balcão de charcutaria.

“Era o melhor amigo dela”, disse Rodríguez, referindo-se ao casal, enquanto as lágrimas lhe encharcavam a máscara azul.

Rodríguez contou que a família encontrou Alvarado nos escombros na quarta-feira, tendo o corpo sido libertado e transportado para o porto na quinta-feira.

“Vi os sapatos dele e soube que era ele”, disse Rodríguez, acrescentando que avisou a filha: “Disse-lhe: ‘prepara-te’.”

A família prevê cremar Alvarado e espalhar as cinzas na Isla de Margarita, a ilha venezuelana que era a sua terra natal.

FIM

Escrito por RafaFM

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