Destaque

UNICEF: uma em cada cinco crianças foi vítima de abuso sexual facilitado pela tecnologia

todaySetembro 4, 2026 16 6

Fundo
share close

Nova Iorque, 4 de setembro de 2026  (RAFA) – Cerca de 20 milhões de crianças entre os 12 e os 17 anos – quase uma em cada cinco – foram vítimas de pelo menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia num único ano, em 21 países, segundo um novo relatório divulgado esta quinta-feira pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O relatório “Through Children’s Eyes: How Digital Technologies Enable Child Sexual Abuse” (“Pelos olhos das crianças: como as tecnologias digitais permitem o abuso sexual infantil”) combina testemunhos de crianças com um dos maiores conjuntos de dados de inquérito já reunidos sobre o tema.

Alerta para o que diz ser uma tendência generalizada de abuso e exploração sexual infantil – tanto online como presencial – facilitada pela tecnologia.

O estudo baseia-se em inquéritos representativos a nível nacional junto de cerca de 21 mil crianças utilizadoras de internet, entre os 12 e os 17 anos, em 21 países, complementados por entrevistas aprofundadas a 100 jovens que sofreram abusos na infância.

Segundo as estimativas, mais de 15 milhões de crianças foram expostas a conteúdo sexual indesejado, nove milhões foram convidadas a participar em conversas sexuais ou a partilhar imagens sexuais contra a sua vontade, e quatro milhões tiveram imagens sexuais suas partilhadas sem consentimento.

A verdadeira dimensão do problema é provavelmente muito superior, devido à sub-notificação por parte das crianças.

“O relatório revela uma realidade dolorosa. Mais de 20 milhões de crianças nos países estudados foram sujeitas a conteúdo sexual explícito indesejado ou a exploração online, muitas vezes nos mesmos espaços digitais onde aprendem, brincam e se relacionam com amigos”, afirmou a diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell.

“Estas experiências causam sofrimento emocional e mental profundo. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber a quem recorrer. Não podemos desviar o olhar”, vincou.

Segundo as conclusões, quase 60% dos casos ocorreram em plataformas de redes sociais como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp, e 14% em jogos online, com as funcionalidades e o design das plataformas a serem explorados para abusar da confiança das vítimas.

A proporção varia significativamente entre países: no Montenegro, mais de 80% dos casos denunciados envolveram redes sociais, enquanto na Colômbia essa associação abrangeu mais de metade dos casos.

Em 57% dos casos, o agressor já era conhecido da criança – incluindo colegas, parceiros românticos, amigos e familiares -, contrariando a ideia de que o abuso online é sobretudo praticado por desconhecidos.

Ainda assim, em 38% dos casos a criança conheceu o agressor pela primeira vez online, com evidências de que o abuso é facilitado através de contas falsas e de funcionalidades de mensagens privadas.

O estudo integra o projeto Disrupting Harm, uma iniciativa conjunta da UNICEF, da ECPAT International e da INTERPOL, que combina dados de duas rondas de recolha, entre 2020 e 2025.

A primeira ronda, sobretudo entre 2020 e 2021, abrangeu 12 países, incluindo seis do Sudeste Asiático – Camboja, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietname -, além de Etiópia, Quénia, Moçambique, Namíbia, Tanzânia e Uganda.

A segunda ronda, em 2024-2025, alargou a investigação à Arménia, ao Brasil, à Colômbia, à República Dominicana, ao México, ao Montenegro, à Macedónia do Norte, ao Paquistão e à Sérvia. Timor-Leste não integra o estudo.

Segundo dados anteriores do mesmo projeto, a proporção de crianças sujeitas a abuso sexual facilitado por tecnologia no ano anterior variou entre 1% no Vietname e 20% nas Filipinas.

Crianças vítimas de exploração facilitada por tecnologia tiveram quatro vezes mais probabilidade de relatar pensamentos ou comportamentos suicidas e automutilação, além de níveis significativamente mais elevados de ansiedade.

No México e na Macedónia do Norte, por exemplo, o risco de pensamentos ou comportamentos suicidas foi mais de oito vezes superior entre as crianças que sofreram abuso, enquanto no Paquistão o risco de automutilação foi mais de sete vezes superior.

Mais de 40% dos casos de abuso facilitado por tecnologia nunca foram partilhados com ninguém, e menos de 1% foram denunciados a autoridades como a polícia, assistentes sociais ou linhas de apoio.

A nível global, a razão mais comum para o silêncio das crianças foi não saberem a quem recorrer ou a quem contar – uma tendência ainda mais acentuada em alguns países, como a Arménia, onde mais de metade dos casos nunca foi partilhada com ninguém.

Perante estes resultados, a UNICEF apela a uma ação urgente por parte de governos, empresas tecnológicas e outros intervenientes, com recomendações que incluem tornar as plataformas digitais mais seguras por design, reforçar leis e mecanismos de responsabilização – incluindo face a formas emergentes de abuso, como a extorsão sexual e o material de abuso sexual gerado por inteligência artificial,

Defende ainda criar sistemas de denúncia e apoio em que as crianças confiem, e retirar das próprias crianças o peso da proteção, responsabilizando famílias, escolas e comunidades por reagir com apoio às revelações de abuso.

“Todos nós, incluindo governos e empresas tecnológicas, temos de fazer mais para proteger as crianças online”, concluiu Russell.

FIM

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!