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Díli, 19 de maio de 2026 (RAFA.TL) – Trabalhadores timorenses contratados por uma empresa australiana para trabalhar em quintas denunciaram ter ficado sem a maioria do seu salário e vivido em condições inadequadas, segundo uma investigação do canal australiano SBS.
A reportagem conta a história de Deonizio Martin Soares que partiu de Timor-Leste em setembro do ano passado à procura de melhores rendimentos para enviar para a família.
Regressou em fevereiro com apenas 1.500 dólares australianos em poupanças, após cinco meses a trabalhar seis dias por semana numa empresa que a SBS descreve como um dos maiores fornecedores de mão-de-obra agrícola do país.
Soares, 29 anos viajou até Corindi, uma pequena localidade costeira perto de Coffs Harbour, no estado de Nova Gales do Sul, onde ficaria a trabalhar numa exploração de mirtilos ao abrigo do esquema PALM (Pacific Australia Labour Mobility).
O visto era de nove meses e o contrato prometia rendimentos brutos de 1.047 dólares por semana.
O que o contrato não deixava claro, e Soares não compreendeu de imediato, era que a empresa contratante, a Madec Australia, pretendia empregá-lo apenas por metade do período previsto no visto, e que uma parte significativa do salário seria retida para cobrir despesas de viagem, alojamento e outros custos.
“Pensei que ia para a Austrália trabalhar para ganhar o dinheiro de que a minha família precisava. Em vez disso, só acabei por fazer dinheiro para a empresa”, disse Soares à SBS Austrália. “A minha família vai ficar muito desapontada. Parece que nos mentiram e que tudo isto foi em vão. Perdi tempo com a família, e para quê?”
Ao longo das 23 semanas que trabalhou para a Madec – primeiro em Corindi e depois em Devonport, na Tasmânia – foram deduzidos do salário de Soares 9.711 dólares, excluindo impostos.
O rendimento bruto total, calculado com base em 30 horas semanais ao valor de 30,35 dólares por hora, foi de 20.941 dólares. Após deduções e imposto, ficou com 10.712 dólares – cerca de 466 dólares por semana.
Os descontos incluíram: 1.950 dólares de passagens aéreas; 700 dólares de transporte interno; 358,39 dólares de visto; 170 dólares por semana de alojamento; 160 dólares de roupa de cama; 150 dólares de telemóvel; 100 dólares de equipamento de proteção; e 20,95 dólares por semana de seguro de saúde.
Acrescia ainda uma renda semanal de 65 dólares por uma carrinha velha da Madec, que servia exclusivamente para ir ao trabalho, às compras e à igreja – com saídas proibidas depois das 21 horas.
“Quando se junta combustível, comida, lavandaria e tudo o mais, e sem poder sequer sair com amigos, fiquei com apenas 1.500 dólares para levar para casa à minha família, após cinco meses”, afirmou.
A SBS Austrália revelou ainda que a Madec cobrava a Soares 20,95 dólares semanais por um seguro de saúde junto da NIB International, quando o custo real do produto contratado é entre 14 e 17 dólares por semana – uma diferença de cerca de quatro dólares.
Com aproximadamente 3.000 trabalhadores PALM na sua carteira, a empresa poderia estar a arrecadar até 12.000 dólares adicionais por semana com esta prática. A Madec Australia não respondeu às questões colocadas pela SBS.
As condições de alojamento descritas pelos trabalhadores são igualmente preocupantes.
Em Corindi, Soares partilhava um quarto com outros sete homens, numa casa onde viviam 48 pessoas no total – cada uma a pagar 179 dólares semanais.
A casa representava para os seus proprietários um rendimento de quase 35 mil dólares mensais.
Duas colegas timorenses, também contratadas pela Madec, viviam em divisões com oito pessoas, sem nunca terem recebido mais do que o valor mínimo da tabela horária.
“Às vezes os homens ajudavam-nos para conseguirmos acompanhar o ritmo e não nos metermos em problemas por sermos mais lentas”, contou uma das trabalhadoras à SBS.
“Pensámos que tínhamos muita sorte. As nossas famílias ficaram tão contentes quando nos deram os contratos para assinar. Mas não sabíamos com o que estávamos a concordar.”
Em Devonport, os três foram alojados em caravanas individuais com duas beliches cada – quatro pessoas por espaço -, sem wifi apesar de este estar previsto no contrato.
“Não nos deixavam sair depois das 21 horas, nem receber amigos. Era como uma prisão”, descreveu Soares.
O Presidente da República, José Ramos-Horta, que já havia criticado o esquema PALM num discurso no National Press Club australiano em 2024, reagiu à investigação da SBS com palavras contundentes.
“Embora mantenha confiança no quadro regulatório do governo australiano, uma regulação sem penalização é um convite à exploração. O cumprimento tem de ser obrigatório e as consequências têm de ser absolutas para garantir que os nossos trabalhadores são protegidos, e não meramente processados como uma mercadoria”, afirmou o Presidente.
“Se uma empresa se esconde por detrás da bandeira da ‘caridade’ enquanto lucra com este nível de exploração sistémica, não é um ato de benevolência – é uma traição aos valores de Timor-Leste e da Austrália. Não mandamos os nossos filhos e as nossas filhas para construir a prosperidade de outra nação à custa da sua própria dignidade.”
A Madec Australia, sediada em Mildura e com uma faturação anual de cerca de 150 milhões de dólares, opera como instituição de beneficência registada, o que lhe confere isenções fiscais significativas e estatuto de Instituição Pública de Beneficência (PBI) – a classificação mais elevada da comissão reguladora australiana de organizações sem fins lucrativos.
Em 2024-25, a empresa recebeu 11,5 milhões de dólares em receitas do governo e subsídios, e pagou remunerações a 10 gestores no total de 779.742 dólares.
Joe McGirr, presidente do Comité Moderno da Escravidão do parlamento de Nova Gales do Sul – que investiga o trabalho por contratação como parte de um inquérito sobre escravatura moderna -, anunciou que irá recomendar uma revisão do estatuto de caridade da empresa.
“Se uma grande empresa de mão-de-obra explora trabalhadores com deduções injustas e alojamento precário, deve ser responsabilizada”, declarou à SBS. “A escravatura moderna não deve acontecer no âmbito do esquema PALM, independentemente da dimensão ou rentabilidade do negócio.”
A advogada Dana Levitt, que representa trabalhadores sazonais em processos contra a Madec, descreveu um padrão de cobranças por itens que a empresa é legalmente obrigada a fornecer gratuitamente.
“Um trabalhador que contraiu COVID na Austrália foi cobrado por desinfectante e máscaras. A empresa também não forneceu testes de antigénio nem alojamento para isolamento”, revelou.
O solicitador Giles Fryer, da Legal Aid NSW, alertou para a dificuldade em contestar despedimentos: quando um trabalhador PALM é despedido, o visto torna-se inválido imediatamente, e o empregador habitualmente compra-lhe a passagem de avião para o dia seguinte. Contestar a decisão implica permanecer na Austrália em situação irregular.
“É um verdadeiro labirinto”, disse Fryer ao comité parlamentar.
A Madec Australia não respondeu a nenhum dos pedidos de comentário da SBS Austrália.
FIM
Escrito por RafaFM
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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