Ouvir RAFA Ritmo, Voz e Coração de Timor
Díli, 23 de setembro de 2026 (RAFA) – Timor-Leste está entre os pequenos Estados insulares com maior exposição a ameaças climáticas e vulnerabilidade infantil, segundo a UNICEF, que lançou hoje um novo índice e plataforma digital para mapear o risco por município.
O Índice de Risco Climático para a Criança (CCRI-DRM) cruza dados de exposição a ameaças climáticas e não climáticas com indicadores de vulnerabilidade infantil em cada um dos municípios do país.
A iniciativa foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL) e pela UNICEF, com apoio técnico do Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT) e do Instituto das Nações Unidas para Formação e Investigação (UNITAR) e apresentado hoje em Díli.
“O portal dá-nos uma visão essencial sobre onde os riscos são mais elevados, quais as crianças mais vulneráveis e onde a ação e o investimento são mais urgentemente necessários”, afirmou Patrizia DiGiovanni, representante da UNICEF em Timor-Leste, no lançamento.
O Relatório de Risco Climático para a Criança 2026 da UNICEF identifica Timor-Leste como um dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento (SIDS) que enfrenta simultaneamente elevada exposição a ameaças relacionadas com o clima e elevados níveis de vulnerabilidade infantil.
“Uma crise climática é uma crise dos direitos da criança”, afirmou DiGiovanni.
O documento recorda que as cheias associadas ao ciclone tropical Seroja, em abril de 2021, afetaram os 13 municípios do país, mataram 44 pessoas e afetaram mais de 30 mil famílias, com prejuízos estimados em mais de 307 milhões de dólares norte-americanos em habitação, redes de transporte, agricultura, escolas e infraestruturas de saúde.
DiGiovanni alertou que as crianças timorenses enfrentam exposição crescente à seca, cheias, calor extremo e tempestades tropicais, o que significa que um evento climático grave pode afetar várias partes do país em simultâneo.
“Para um Estado insular jovem em desenvolvimento como Timor-Leste, estes riscos não são distantes. Já afetam a água a que as famílias têm acesso, os alimentos que conseguem produzir e comprar, as escolas que as crianças podem frequentar e os serviços de saúde e nutrição de que precisam”, afirmou.
A responsável alertou ainda que 45% das crianças timorenses com menos de cinco anos sofrem de atraso no crescimento (stunting), um problema que a redução da chuva, a perda de colheitas, a subida dos preços dos alimentos e a menor qualidade da água podem agravar.
“Uma escassez de água pode significar que uma família fica sem água segura para os filhos, e que as raparigas passam mais tempo a recolher água e menos tempo a aprender”, exemplificou.
Segundo DiGiovanni, projeções atuais indicam que condições do El Niño podem reduzir a precipitação sazonal entre novembro de 2026 e abril de 2027.
Durante o episódio de El Niño de 2023, a precipitação ficou mais de 30% abaixo do normal em grande parte do país.
“Mas um alerta precoce não pode tornar-se uma previsão de sofrimento. Ainda temos tempo para agir”, declarou, sublinhando que a ação preparatória e antecipatória é “mais eficaz e também mais económica” do que responder depois de uma crise atingir o pico.
“Um portal, por mais avançado que seja, não pode proteger uma criança sozinho. O seu valor vai ser medido pelas decisões que informa e pelas ações que se seguem”, afirmou DiGiovanni.
Por isso a responsável da UNICEF apelou às instituições do país para que usem os dados para decidir onde reforçar sistemas de água, aumentar a vigilância em saúde e nutrição, tornar as escolas mais resilientes ao clima, direcionar proteção social de emergência e priorizar mensagens de preparação junto das comunidades.
O presidente do INETL, Elias Ferreira, sublinhou o papel do instituto na produção e validação dos dados nacionais que sustentam o modelo.
Segundo o relatório, o processo de transição concluído em junho já identificou a confirmação do papel do INETL como responsável institucional de longo prazo pela hospedagem e manutenção da plataforma como um dos próximos passos.
O modelo baseia-se no quadro concetual do Índice de Risco Climático para a Criança da UNICEF de 2021 e na metodologia do Índice de Risco INFORM, adaptados ao contexto nacional e subnacional timorense.
O índice combina dois pilares – exposição infantil a choques e ameaças, e vulnerabilidade infantil – construídos a partir de 51 indicadores, e classifica os 13 municípios em cinco categorias de vulnerabilidade, de “muito baixa” a “muito alta”.
O Pilar 1 mede a exposição das crianças a oito tipos de ameaças – inundações fluviais, ciclones tropicais, deslizamentos de terras, subsidência do solo, calor extremo, ondas de calor, dengue e diarreia -, enquanto o Pilar 2 avalia sete componentes de vulnerabilidade: falta de capacidade de resposta, saúde infantil, nutrição infantil, educação, água, saneamento e higiene (WASH), proteção da criança, e meios de subsistência e proteção social.
Entre os indicadores que compõem o modelo consta a percentagem de crianças entre os 5 e os 17 anos envolvidas em trabalho infantil – emprego ou produção para uso ou subsistência próprios -, que se fixa em 20,3% a nível nacional, segundo dados de 2021 citados no relatório.
O modelo foi desenvolvido ao longo deste ano, com um primeiro workshop nacional realizado em Díli a 22 de abril, que reuniu representantes governamentais e técnicos para validar a seleção inicial de indicadores.
Realizou-se ainda uma missão de validação técnica entre 22 e 25 de junho, que incluiu formação dedicada a funcionários do INETL e de outras instituições nacionais.
A plataforma digital interativa, criada no âmbito do projeto, permite às autoridades e a outras entidades visualizar a pontuação geral do índice, explorar pilares, componentes e indicadores individuais, comparar municípios e gerar automaticamente relatórios-resumo por município.
Ao selecionar um município, o painel mostra a pontuação e classificação CCRI-DRM geral, os resultados dos dois pilares, o número e a percentagem estimados de crianças expostas a cada ameaça, e os principais fatores que contribuem para a vulnerabilidade local.
Segundo o relatório, o índice deve ser usado como instrumento de priorização relativa e não como medida absoluta de risco de desastre, previsão de impacto futuro ou substituto de avaliações de risco local detalhadas, uma vez que trabalha à escala municipal e pode ocultar diferenças entre sucos e comunidades.
Entre as recomendações, o documento defende a criação de um mecanismo formal de governação e atualização de dados, com responsabilidades institucionais claras, e recomenda manter o índice como uma “plataforma viva”, atualizada em articulação com censos, inquéritos e outras fontes de dados administrativos.
“A crise climática pode ser global, mas as soluções mais eficazes têm de estar enraizadas nas realidades de cada município, de cada comunidade e de cada criança”, concluiu DiGiovanni.
Jornalistas: Remígia Locatelli e António Sampaio
Escrito por RafaFM
revela novo índice da UNICEF Timor-Leste entre países insulares com maior risco climático e vulnerabilidade infantil
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
Copyright Rafa.tl - Desenvolvido por Justweb.pt