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Díli, 28 de agosto 2026 (RAFA) – Timor-Leste é um “lugar especialmente interessante” para estudar o oceano em três dimensões, por ter recifes rasos muito próximos de encostas íngremes e habitats de profundidade, incluindo a rota de passagem de baleias pelo Estreito de Wetar, disse hoje o diretor científico da OceanX, Vincent Pieribone.
Pieribone falava num simpósio dedicado à missão do ano passado da Ocean X em Timor-Leste, em que analisou a importância do oceano profundo, globalmente e para Timor-Leste.
O encontro, que decorre ao longo do dia de hoje no Centro de Convenções de Díli, representa a primeira apresentação pública alargada dos resultados da missão científica que a organização realizou no país entre 6 e 24 de novembro de 2025.
“Foi uma grande experiência para todos nós, para os cientistas, para a tripulação, para todos nós da Ocean X. A equipa ficou deslumbrada pelo que encontraram aqui em Timor-Leste, incluindo nas profundidades”, disse.
“As vossas águas são particularmente bonitas e essa beleza continua ao longo de toda a coluna marinha, nas águas mais profundas. Normalmente vermos o oceano quase à superfície, mas 90% do volume do oceano é considerado oceano profundo”, explicou.
Segundo o responsável, junto a Ataúro e à costa norte, a transição entre o recife raso e o oceano profundo ocorre numa distância relativamente curta, o que significa que o recife raso, os habitats mais profundos e a coluna de água acima deles não devem ser pensados como sistemas separados. As águas timorenses são ainda utilizadas por espécies altamente móveis, incluindo as baleias-azuis-pigmeias que atravessam o Estreito de Wetar.
Este facto, disse Pieribone, é relevante porque os governos têm de tomar decisões sobre o espaço marítimo – onde proteger, onde permitir diferentes usos, o que monitorizar e onde ainda é preciso mais informação – decisões que são normalmente representadas num mapa bidimensional, quando o próprio ecossistema é tridimensional, da superfície até ao fundo do mar.
“Não se trata de estudar um ambiente remoto, longe das pessoas. Trata-se de construir uma imagem mais completa do sistema oceânico que Timor-Leste já está a usar, a gerir e a procurar proteger”, afirmou.
Foi por essa razão, segundo o diretor científico da OceanX, que a missão de 2025 foi concebida para olhar para todo o sistema, dos recifes rasos ao fundo do mar profundo e aos animais que se deslocam nas águas acima deste.
A missão em Timor-Leste foi orientada, segundo Pieribone, por quatro objetivos centrais, incluindo mapear a forma física e a estrutura do fundo do mar, criando a base para identificar áreas de interesse.
Visou ainda documentar a biodiversidade em habitats rasos, mesofóticos e profundos, uma área que tinha recebido, até então, muito pouca atenção científica moderna na região.
Foi ainda possível recolher informação ecológica e ambiental sobre a relação entre habitats e comunidades biológicas e utilizar a migração da baleia-azul-pigmeia pelo Estreito de Wetar para estudar o comportamento, a alimentação e o estado de saúde destes animais através de métodos não invasivos, entre os quais a recolha de material biológico por drone através da técnica SnotBot.
O diretor científico da OceanX revelou os principais números da missão: em 13 dias de exploração, foram mapeados mais de cinco mil cento e cinquenta e três quilómetros quadrados de fundo do mar, dos quais cerca de 70% nunca tinham sido mapeados com este nível de detalhe.
Os veículos operados remotamente (ROV) e os submersíveis tripulados passaram mais de cem horas em observação direta de habitats marinhos, e foram recolhidos cerca de quatro mil e quatrocentos lotes de espécimes para análise taxonómica e genética adicional, que estão a ser estudados em conjunto com imagens e amostras de tecido.
Segundo Pieribone, o trabalho combinou mapeamento, ROV e submersíveis tripulados com mergulho científico em águas mais rasas, além de barcos, helicópteros e drones para localizar e observar as baleias-azuis-pigmeias.
Segundo Pieribone, cópias digitais completas dos dados da expedição foram já entregues a instituições timorenses, incluindo o Gabinete de Fronteiras Terrestres e Marítimas, o Ministério da Agricultura, Pescas, Pecuária e Florestas, e a Universidade Nacional Timor Lorosa’e.
Os dados de mapeamento continuam sujeitos a revisão do Gabinete de Fronteiras Terrestres e Marítimas antes de uma divulgação pública mais alargada.
As coleções biológicas seguem um modelo de investigação distribuída, com espécimes colocados junto de instituições com competência taxonómica relevante, enquanto as imagens e registos associados estão a ser disponibilizados online, permitindo que especialistas a nível internacional estudem o material mantendo a ligação entre espécimes, imagens e informação genética.
Este trabalho está já a apoiar a identificação de espécies, a codificação de barras de ADN (DNA barcoding) e a análise genómica, recursos que, com o tempo, podem também reforçar futura monitorização por ADN ambiental (eDNA) e servir de material de referência para investigação da biodiversidade em Timor-Leste.
O responsável da OceanX sublinhou que grande parte do valor científico da expedição só se vai revelar ao longo de meses e anos, à medida que os espécimes forem identificados, os dados analisados e novos estudos construídos sobre esta base de referência.
Apesar disso adiantou que algumas dessas análises já estão a produzir “observações interessantes”, que outros investigadores presentes no simpósio – como Arthur Anker e Mark Meekan – iriam detalhar ao longo do dia.
Quanto aos próximos passos, Pieribone disse que a missão fornece agora uma base de referência que pode continuar a crescer à medida que os espécimes forem identificados, as sequências genéticas completadas e novos estudos vierem juntar informação adicional.
Segundo o responsável, a oportunidade atual passa por determinar que resultados são úteis, que perguntas continuam por responder e como a investigação futura pode ser cada vez mais definida e conduzida em conjunto com cientistas e instituições timorenses – um objetivo que descreveu como o verdadeiro propósito do simpósio.
“O que temos desta missão é uma base. O próximo capítulo é aquilo que Timor-Leste e os seus parceiros científicos vão decidir construir a partir dela”, concluiu Pieribone.
Na sua intervenção, Pieribone contextualizou a importância da exploração do oceano profundo a nível global, recordando que cerca de 90% do volume do oceano é considerado oceano profundo e que o fundo do mar a essa profundidade cobre cerca de dois terços da superfície do planeta, um sistema que regula o clima, armazena e faz circular carbono e sustenta uma enorme diversidade biológica e processos ecológicos ainda pouco compreendidos.
Ainda assim, disse, esta escala é acompanhada por uma lacuna de conhecimento significativa: um estudo de 2025 publicado na revista Science Advances, que compilou mais de 43 mil atividades de observação em águas profundas, estimou que apenas entre 0,0006% e 0,001% do fundo do oceano profundo foi diretamente observado até hoje.
O mesmo estudo concluiu que 97% dos mergulhos registados foram liderados por operadores de apenas cinco países, o que significa que grande parte do oceano global permanece pouco representada no registo científico – uma lacuna com impacto direto nas decisões de conservação e ordenamento do espaço marítimo, que dependem de informação de base ainda a ser estabelecida em muitos ambientes de águas profundas.
FIM
Escrito por RafaFM
diz diretor científico da OceanX Timor-Leste é "especialmente interessante" para estudar o oceano em três dimensões
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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