Destaque

Timor-Leste acelera a transformação digital, mas alerta para os riscos da Inteligência Artificial e da dependência tecnológica

todayAgosto 24, 2026 56

Fundo
share close

Díli, 24 de agosto de 2026 (RAFA) – A transformação digital, a inteligência artificial (IA), a educação e a preparação dos jovens para as novas tecnologias foram temas destacados na Cimeira Ciência para o Desenvolvimento 2026.

Representantes do Governo, da UNICEF e estudantes defenderam que Timor-Leste deve acompanhar a evolução tecnológica sem perder de vista o pensamento crítico, a proteção infantil e o desenvolvimento dos recursos humanos.

O Vice-Primeiro-Ministro, Ministro Coordenador dos Assuntos Sociais e Ministro do Desenvolvimento Rural e Habitação Comunitária, Mariano Sabino, afirmou que Timor-Leste já não pode optar por ficar à margem da transformação tecnológica global.

Segundo Mariano Sabino, a digitalização, a tecnologia e a inovação estão a avançar rapidamente e exigem que o país se adapte, sobretudo através da preparação dos jovens para participarem ativamente no desenvolvimento nacional.

“Timor-Leste não tem escolha. A digitalização, a tecnologia e a inovação estão a avançar, e o nosso país precisa de se adaptar à conjuntura global.”

Mariano Sabino destacou a presença de especialistas internacionais e laureados com o Prémio Nobel na Cimeira como uma oportunidade para os estudantes, professores e académicos timorenses aprenderem sobre novas ideias, partilharem experiências e fortalecerem a investigação científica.

Do ponto de vista do representante do governo, esta preparação deve começar pela valorização dos recursos humanos existentes no país.

Timor-Leste dispõe de profissionais altamente qualificados, incluindo nas áreas da informática e da inovação, e, por isso, defendeu uma maior mobilização destas capacidades para responder às necessidades nacionais e acelerar o desenvolvimento.

Esta necessidade torna-se ainda mais relevante com a entrada de Timor-Leste na ASEAN, um contexto no qual, segundo Mariano Sabino, o país necessita de aumentar a sua competitividade.

Para tal, considerou essencial incentivar os jovens a investir em áreas como a tecnologia, a inteligência artificial e a inovação, que terão um impacto transversal nos diferentes setores da sociedade.

“Precisamos de ser competitivos. Os nossos jovens, quando forem para a escola, devem investir em áreas importantes para o futuro.” A inteligência artificial deve ser uma ferramenta, não um substituto do pensamento humano.

Mas, embora a transformação tecnológica abra novas oportunidades, também traz novos desafios. Foi neste ponto que o Vice Primeiro-Ministro chamou a atenção para os riscos associados à inteligência artificial, especialmente a possibilidade de manipulação da informação e a excessiva dependência de ferramentas tecnológicas.

Na sua visão, a tecnologia deve servir para expandir as capacidades humanas, mas não pode substituir a capacidade de pensar, analisar e tomar decisões.

“As pessoas devem usar a tecnologia e não permitir que esta substitua a capacidade de pensar.”

Por esse motivo, defendeu o reforço do pensamento crítico e a utilização de mecanismos para verificar a informação produzida ou disseminada através das novas tecnologias.

Relacionou ainda esta questão com o desenvolvimento cognitivo infantil, defendendo que o combate à malnutrição infantil deve continuar a ser uma prioridade, uma vez que o desenvolvimento físico e nutricional está diretamente ligado à capacidade de aprendizagem e à formação cognitiva.

Esta preocupação com os riscos da tecnologia teve repercussões na intervenção da UNICEF, que deu especial atenção à proteção das crianças no meio digital.

UNICEF apela a uma maior proteção das crianças no ambiente Digital

A Representante da UNICEF, Patrizia DiGiovanni, reconheceu que as novas tecnologias podem trazer benefícios significativos, mas também criar riscos, especialmente para as crianças.

DiGiovanni defendeu a criação de mecanismos robustos de proteção da criança no ambiente digital, para garantir que as novas tecnologias contribuem para a melhoria da vida social, em vez de aumentar as vulnerabilidades existentes.

Esta considerou que Timor-Leste deveria dar especial atenção a esta área, dado que existem grupos populacionais que já enfrentam diferentes formas de vulnerabilidade e que, por isso, podem necessitar de proteção adicional contra os riscos associados ao ambiente digital.

Ao mesmo tempo, DiGiovanni defendeu que a inteligência artificial pode e deve ser integrada no currículo escolar, de forma a preparar as crianças timorenses para um futuro cada vez mais marcado pela tecnologia.

Segundo a representante da UNICEF, os jovens timorenses têm capacidade de aprendizagem rápida e devem estar preparados para acompanhar esta transformação.

A questão da preparação das novas gerações conduz diretamente ao papel do sistema educativo, considerado um dos principais alicerces para que o país aproveite as oportunidades da transformação digital.

A Ministra da Educação, Dulce Soares, afirmou que Timor-Leste já está a avançar no processo de digitalização do sistema educativo e deverá continuar a atualizar-se, sobretudo no âmbito da sua integração na ASEAN.

Questionada sobre a possibilidade de integrar a inteligência artificial no currículo, a ministra explicou que a digitalização já está presente em diferentes áreas do sistema educativo, incluindo a formação de professores e o trabalho dos inspetores escolares.

Dulce Soares salientou, no entanto, que a utilização da tecnologia deve ser acompanhada de políticas claras e formação adequada, garantindo que professores e alunos compreendem tanto as oportunidades como os riscos associados às ferramentas digitais.

Em relação ao acesso à internet nas zonas rurais, a ministra explicou que o Governo já instalou serviços em mais de 60 escolas, através da cooperação com o Ministério dos Transportes e Comunicações. O acesso deverá continuar a ser alargado através do Orçamento Geral do Estado para 2027.

“Não podemos ignorar a digitalização. Devemos atualizar-nos agora que aderimos à ASEAN.”

A expansão do acesso à internet deverá continuar gradualmente, permitindo que mais escolas tenham condições para utilizar ferramentas digitais no processo de ensino e aprendizagem e reduzindo progressivamente as diferenças de acesso entre as zonas urbanas e rurais.

Angelino Pereira, estudante da Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL), considerou importante a oportunidade de participar na discussão sobre os avanços tecnológicos e a inteligência artificial.

O aluno reconheceu que as novas tecnologias oferecem ferramentas capazes de ajudar os jovens a desenvolver conhecimentos, competências e novas capacidades.

No entanto, alertou para os riscos do uso inadequado e para a possibilidade de dependência excessiva da tecnologia.

Para Angelino, as ferramentas digitais devem facilitar o desenvolvimento do conhecimento humano, mas não substituir a capacidade individual de pensar e aprender.

A tecnologia deve ser vista como um meio para expandir as capacidades existentes, e não como uma alternativa ao esforço intelectual.

A sua preocupação estendia-se também ao uso de plataformas digitais para comportamentos nocivos.

O estudante defendeu que o Governo deveria reforçar o controlo e a regulamentação da utilização da tecnologia, particularmente nas situações em que esta é utilizada para insultar pessoas, violar a privacidade ou atacar figuras públicas e líderes.

As diferentes intervenções convergiram para uma preocupação comum: Timor-Leste não pode permanecer alheio à transformação tecnológica, mas também não deve adoptar a inovação de forma acrítica.

A posição de Mariano Sabino centra-se na preparação dos jovens, na valorização dos recursos humanos e na necessidade de tornar o país mais competitivo.

A UNICEF acrescenta a necessidade de proteger as crianças no ambiente digital, enquanto o Ministério da Educação aponta para a expansão gradual da digitalização e da conectividade nas escolas.

Os estudantes, por sua vez, chamam a atenção para a necessidade de utilizar a tecnologia sem perder a capacidade de pensar de forma autónoma.

Assim, a discussão sobre a inteligência artificial deixou de ser meramente uma questão tecnológica e passou a abranger a educação, o desenvolvimento humano, a proteção da infância, a segurança digital e a competitividade nacional.

As entrevistas deixaram, por isso, uma mensagem clara: a transformação digital de Timor-Leste é inevitável, mas o seu sucesso dependerá da capacidade do país para combinar a inovação tecnológica com a educação, o pensamento crítico, a proteção digital, o desenvolvimento cognitivo e o reforço das capacidades humanas.

Jornalista: Miguel Caldas

 

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!