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Richard Sutton alerta jovens timorenses: “Estamos todos a ser enganados sobre a IA”

todayAgosto 25, 2026 95

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Díli, 25 de agosto de 2026 (RAFA) – O Prémio Turing Richard Sutton alertou hoje que a atual inteligência artificial ainda não é verdadeira inteligência, acusando as grandes empresas tecnológicas de “hype” e “marketing” ao afirmarem já ter sistemas com nível de doutoramento.

“Peço-vos que pensem e estudem. Estamos todos a ser enganados sobre a inteligência artificial. Temos de pensar melhor e deixar de acreditar em tudo o que nos é dito”, afirmou Sutton na Cimeira Ciência para o Desenvolvimento, dirigindo-se sobretudo aos jovens presentes na sala.

Segundo o investigador, ainda não existem ” sistemas inteligentes, sistemas que têm objetivos, que conseguem distinguir o verdadeiro do falso”.

“O que temos não são sistemas inteligentes, não temos inteligência artificial. A verdadeira inteligência artificial vai chegar, e o que nos está a ser prometido vai chegar. Mas isso ainda vai demorar algum tempo.”

Sutton foi taxativo quanto ao horizonte temporal desse avanço: “Os maiores impactos estão para vir, mas ainda não chegaram.”

O especialista reconheceu que já foram feitos “grandes avanços” no uso de linguagem por máquinas, mas considerou que isso representa “apenas uma fração” do que é a inteligência artificial.

“Parte do pretexto é que todos os que fazem coisas computacionalmente inteligentes querem chamar-lhe inteligência artificial, porque é cool usar essa expressão. Mas é apenas grande computação”, disse, notando que o poder de computação por dólar tem duplicado a cada 18 meses.

“Estamos numa era em que mais computação se torna disponível e por isso muitas maravilhas ocorrem. Mas não são inteligentes. Não é a verdadeira e completa conquista da segunda revolução industrial. Tudo isso virá. Está a começar”, afirmou.

Visando diretamente as grandes empresas tecnológicas norte-americanas, Sutton foi direto: “Se ouvirmos as grandes empresas americanas, dizem que têm inteligência ao nível de doutoramento. Isto é falso, é hype, é marketing. Essa malta está a vender o seu produto, e se nos convencerem de que vale mais, vale muito mais dinheiro. Mas não devemos acreditar nelas.”

Antes de Sutton, Torsten Hoefler, distinguido com o ACM Prize in Computing, dirigiu-se também diretamente aos jovens timorenses, comparando o momento atual da inteligência artificial à Revolução Industrial.

“Quero falar para as pessoas que são as mais importantes, os jovens deste país”, começou por dizer, apresentando-se como um dos criadores destes sistemas de inteligência artificial e modelos de linguagem, e apelando a que os jovens “abracem estes modelos como oportunidade”.

Hoefler recorreu a uma analogia histórica para situar o momento atual. “Quem aqui já usou alguma forma de transporte, carro ou mota? Estes aparelhos foram desenvolvidos na Revolução Industrial – os nossos antepassados desenvolveram estes equipamentos que hoje usamos de forma normal, facilitando-nos a vida. O que aconteceu na Revolução Industrial foi que desenvolvemos um instrumento que tornou a força física irrelevante”, afirmou.

“O que está a acontecer agora é que temos algo ainda mais poderoso em mudança, com a inteligência artificial. Este é o maior desenvolvimento humano. Em termos de impacto, já é superior à Revolução Industrial.”

Hoefler apelou aos estudantes para abraçarem estas ferramentas como uma oportunidade.

“Nós construímos os alicerces, mas cabe a vocês levar isto para o futuro. É bom que aprendam a usar estes instrumentos o melhor possível e os consolidem. Os organizadores acertaram ao convidar os jovens”, disse.

“Estudem, estudem, estudem. Estudem com sabedoria, usem a inteligência artificial para estudar e para vos ajudar a avançar. Cada um de vocês tem acesso a toda a informação do planeta. E isso nunca aconteceu antes. Cada um de vocês pode ser o melhor do mundo – disciplina, foco no vosso estudo”, afirmou. “Eu ajudei a construir as infraestruturas para estes sistemas. Cabe a vocês usá-los.”

Jack Dongarra, Prémio Turing 2021, centrou a intervenção nos aspetos mais técnicos da computação de alto desempenho.

“Hoje temos supercomputadores usados para funções científicas, que têm capacidade de fazer computações da ordem de um bilião de biliões de operações por segundo. São números imensos”, afirmou, sublinhando a necessidade de desenvolver “software e algoritmos que usem estas máquinas”, que podem ter dezenas de milhares de processadores.

“Como desenhar aplicações científicas que usam estes supercomputadores” é, segundo Dongarra, um dos grandes desafios da área.

O investigador destacou ainda o papel central da álgebra linear em muitas aplicações de inteligência artificial.

“A inteligência artificial depende de álgebra linear para fazer muitas coisas. Uma das coisas que desenhamos é algoritmos e software para álgebra linear”, explicou.

Os três especialistas deixaram ainda um conjunto de conselhos práticos dirigidos a Timor-Leste sobre como desenvolver capacidade própria em inteligência artificial, sem depender de grandes potências tecnológicas.

“Querem torná-la vossa, querem torná-la IA timorense”, afirmou um dos oradores, defendendo que o país deve começar por soluções modestas, sem arrancar logo com modelos de grande dimensão.

Os especialistas sublinharam a importância de formar um ecossistema completo de competências, do básico ao avançado.

“É importante ter um espetro completo: investigadores de inteligência artificial, utilizadores básicos e avançados, entre outros. Deve haver incentivo às pessoas e oportunidades de emprego para que quem sai para aprender possa regressar”, afirmaram.

Quanto ao modelo tecnológico a seguir, o conselho foi claro: privilegiar software aberto em vez de depender de grandes empresas.

“Procurem métodos de código aberto. Não sejam compradores de grandes empresas, sejam participantes”, disse Sutton.

Sobre onde investir os recursos disponíveis, a recomendação dos especialistas recaiu sobre as pessoas, e não sobre equipamento.

“Eu não investiria em hardware, investiria em pessoas. O hardware é um mau investimento. As pessoas valorizam-se ao longo do tempo. Tornam-se mais valiosas”, afirmou Hoefler, desaconselhando também Timor-Leste de construir infraestrutura própria de treino de modelos.

Os especialistas insistiram ainda na importância da cooperação internacional em vez do isolamento tecnológico. “Não é possível ter uma ilha isolada de computação em Timor-Leste – os recursos têm de ser partilhados. Partilhem esses recursos, ciclos computacionais e competência técnica para manter esses recursos ao longo do tempo”, concluíram.

A Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026 decorre até terça-feira no Centro de Convenções de Díli (CCD), onde está também patente a SciTech Expo 2026.

A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.

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Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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