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Restos mortais de três antigos bispos de Díli chegam esta terça-feira a Timor-Leste

todayAgosto 31, 2026 111

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Díli, 31 de agosto de 2026 (RAFA) – Os restos mortais de três antigos prelados da Diocese de Díli chegam esta terça-feira, dia 1 de setembro, ao Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato, dando início a dez dias de cerimónias fúnebres que vão mobilizar a estrutura do Estado e da Igreja Católica timorense.

Trata-se dos restos mortais de Dom Jaime Garcia Goulart, primeiro bispo de Díli, Dom José Joaquim Ribeiro, segundo bispo de Díli, e Monsenhor Martinho da Costa Lopes, administrador apostólico de Díli entre 1977 e 1983.

Os três prelados juntar-se-ão, na Catedral de Díli, aos restos mortais de Dom Alberto Ricardo da Silva, bispo de Díli entre 2004 e 2015 e primeiro bispo timorense da diocese, atualmente sepultado no Cemitério de Maloa, em Díli.

Os restos mortais chegaram a Bali no fim de semana, onde foram recebidos por uma delegação timorense, incluindo o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, seguindo na terça-feira para Díli.

O processo teve início em Évora, onde os restos mortais dos três prelados foram acolhidos entre 18 e 19 de agosto na Igreja do Espírito Santo, em cerimónia presidida pelo núncio apostólico em Portugal, Dom Andrés Carrascosa.

O Governo aprovou em julho, em Conselho de Ministros, a atribuição do nome de Monsenhor Martinho da Costa Lopes à ponte de Manatuto, numa proposta apresentada pelo ministro da Administração Estatal, Tomás do Rosário Cabral, como “justa homenagem a uma das mais notáveis figuras da resistência timorense e do testemunho cristão em prol da justiça, da paz e da autodeterminação”.

A cerimónia de descerramento da placa comemorativa está marcada para 3 de setembro, em Manatuto, com discurso do Presidente da República.

O processo de trasladação, orçado em 600 mil dólares, é coordenado por uma comissão interministerial criada por despacho do primeiro-ministro Kay Rala Xanana Gusmão em março, presidida por Tomás do Rosário Cabral.

As cerimónias centrais decorrem entre 1 e 10 de setembro, com a receção dos restos mortais no aeroporto de Díli e transporte para a esplanada de Tasi-Tolu, onde se seguirá um período de homenagem geral.

As cerimónias encerram a 10 de setembro, também em Tasi-Tolu, com missa presidida pelo cardeal Dom Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo metropolitano de Díli e presidente da CET, seguida da trasladação final dos quatro prelados para a Sé Catedral de Díli, onde serão sepultados no Monumento e Jardim de Homenagem do recinto catedralício.

Segundo o programa detalhado divulgado pelo Secretariado da Conferência Episcopal Timorense, depois da chegada dos caixões a Díli, será assinado um termo de entrega dos restos mortais entre a Comissão Organizadora do Governo e a CET, seguida de uma saudação cultural tradicional Sergala executada pelo Grupo Cultura da Paróquia de Maubisse.

Os restos mortais seguem em procissão até à esplanada de Tasi-Tolu, onde às 17h00 terá início a missa de abertura, presidida por Dom Norberto do Amaral, bispo da Diocese de Maliana e pró-presidente da CET.

Nos dias seguintes, a esplanada recebe um extenso calendário de velórios e homenagens organizadas por categorias, começando pelas congregações religiosas masculinas e femininas presentes em Timor-Leste, entre elas jesuítas, salesianos de Dom Bosco, dominicanos, franciscanos nas suas várias ramificações, missionários da caridade e dezenas de outras ordens e institutos, num desfile que ocupa praticamente todo o dia.

Os restos mortais de Monsenhor Martinho da Costa Lopes seguem para Laleia e os de Dom Jaime Garcia Goulart para o Instituto Superior de Teologia e Filosofia (ISFIT).

O dia 3 de setembro é dedicado às congregações eclesiásticas femininas e a missas nas vigararias de Aileu e Ainaro, além da já anunciada cerimónia em Manatuto, onde a Ponte local passa a chamar-se “Ponte Mons. Martinho da Costa Lopes”, com discurso do Presidente da República.

A 4 de setembro é a vez dos movimentos eclesiais e categoriais da Arquidiocese de Díli – escuteiros, legião de Maria, apostolado da oração, carismáticos, entre outros – e das instituições de ensino superior, da Universidade Nacional Timor Lorosa’e a institutos politécnicos e católicos de formação de professores, com missas nas vigararias de Díli Leste e Díli Oeste.

No sábado, 5 de setembro, prestam homenagem as escolas católicas da capital, do Colégio Paulo VI a Santa Madalena de Canossa, e realiza-se ainda a trasladação dos restos mortais de Monsenhor Martinho da Costa Lopes para a residência de Lahane.

No domingo, 6 de setembro, é a vez das escolas públicas de Díli, seguidas pela Câmara de Comércio e Indústria, pela Polícia Nacional de Timor-Leste, pelas Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste, pelo Centro Nacional Chega e pelo Arquivo e Museu da Resistência Timorense, com missa dominical presidida por Dom Leandro Maria Alves, bispo da Diocese de Baucau e secretário-geral da CET.

O dia 7 de setembro é reservado às instituições do Estado, com homenagens sucessivas da Presidência da República, do Parlamento Nacional, do primeiro-ministro e membros do IX Governo, do Tribunal de Recurso e de praticamente todos os ministérios, vice-ministros e secretários de Estado, além de antigos titulares da República, com missa em Ermera.

O dia 8 de setembro está reservado às representações diplomáticas acreditadas em Díli e às bancadas parlamentares, com a Diocese de Baucau a assinalar o dia com missas em Baucau, Manatuto, Lautém e Viqueque.

A 9 de setembro é a vez da Diocese de Maliana, com homenagens das paróquias de Atabae, Balibo, Bobonaro, Lolotoe, Liquiça, Suai, Oecusse e respetivas estações missionárias.

As cerimónias encerram a 10 de setembro com missa solene em Tasi-Tolu, entre as 17h00 e as 18h45, presidida pelo cardeal Dom Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo metropolitano de Díli e presidente da CET, seguida da leitura do despacho de agradecimento da CET pelo secretário-executivo, padre Carlos M.P. Roben, de intervenções de Dom Norberto do Amaral e do Presidente da República, José Ramos-Horta.

Após a bênção final, os restos mortais dos quatro prelados serão transferidos para a Sé Catedral de Díli, onde a urna será recebida com saudação tradicional Dadolin e o rito de lançamento de pétalas Kari Aifunan, executado por crianças e pela comunidade local, antes do cortejo até ao local de sepultamento, cerimónia que será presidida por Dom Leandro Maria Alves.

Dom Jaime Garcia Goulart, açoriano natural da Candelária, na ilha do Pico, onde nasceu a 10 de janeiro de 1908, foi o primeiro bispo da Diocese de Díli, cargo que exerceu entre 1945 e 1967. Entrou na diocese a 9 de dezembro de 1945, encontrando-a devastada e com a maior parte das estruturas pastorais em ruínas devido à ocupação japonesa.

Durante o seu mandato, o número de católicos em Timor passou de cerca de 30 mil para mais de 150 mil, e o número de alunos das escolas missionárias subiu de 1.500 para 8.000. Resignou em 1967 por motivos de saúde, regressou aos Açores e faleceu a 15 de abril de 1997, tendo sido sepultado no cemitério de São Joaquim, em Ponta Delgada.

Dom José Joaquim Ribeiro, nascido em Campo Maior a 4 de fevereiro de 1918, sucedeu a Dom Jaime como bispo de Díli e governou a diocese entre 1967 e 1977.

Profundamente perturbado pelas mortes em massa de timorenses durante a invasão indonésia de dezembro de 1975, entrou em colapso nervoso e pediu a resignação ao Papa Paulo VI em maio de 1977, pedido que lhe foi concedido em outubro desse ano.

Regressou a Portugal, onde viveu até falecer em Évora, a 27 de julho de 2002.

Monsenhor Martinho da Costa Lopes, administrador apostólico de Díli entre 1977 e 1983, é a figura mais politicamente marcante do trio e aquela cuja homenagem ganha maior destaque nas cerimónias de setembro, com a atribuição do seu nome à ponte de Manatuto.

O seu período à frente da diocese ficou associado a uma reorientação histórica da Igreja timorense para a cultura local, com um crescimento do número de fiéis nunca antes visto em séculos de atividade missionária portuguesa.

Face à ocupação indonésia, tornou-se um dos mais corajosos defensores dos direitos humanos do povo timorense, denunciando o recrutamento forçado de 50 mil homens e rapazes para formar uma cadeia humana destinada a esmagar a resistência da Fretilin, e condenando publicamente o exército indonésio pelo massacre de 500 mulheres e crianças no Santuário de Santo António, em Lacluta, em setembro de 1981.

Pressionado pelas autoridades indonésias, abandonou Timor em junho de 1983 e instalou-se em Portugal, onde viria a falecer.

Já Dom Alberto Ricardo da Silva, o único dos quatro prelados nascido em solo timorense – em Aileu, a 24 de abril de 1943 -, foi o primeiro bispo timorense da diocese, nomeado pelo Papa João Paulo II a 27 de fevereiro de 2004 e sagrado a 2 de maio desse ano, com o lema episcopal “Servus Verbi Domini”. Ordenado sacerdote em Portugal em 1972, exerceu funções de vigário-geral de Díli entre 1980 e 1992 e foi reitor do Seminário Maior de São Pedro e São Paulo, em Díli, antes de ser nomeado bispo. Em 1991, enquanto pároco, deu refúgio na sua igreja a estudantes ativistas ameaçados pelo exército indonésio pelo apoio à independência de Timor-Leste; foi um deles, Sebastião Gomes, que acabou morto pelas forças indonésias, num episódio que precedeu o massacre de Santa Cruz. Nas semanas seguintes, Dom Alberto foi sujeito a interrogatórios duros pelas autoridades militares, que o acusaram de ser o “mentor” das manifestações, acabando por ser enviado para Roma pelos seus superiores eclesiásticos até a situação se acalmar. Morreu em Díli a 2 de abril de 2015, vítima de doença prolongada, num funeral que reuniu milhares de timorenses numa longa procissão até ao Cemitério de Maloa e que contou com a presença do então Presidente da República, Taur Matan Ruak, e do então primeiro-ministro Xanana Gusmão. Foi condecorado a título póstumo com a Ordem de Nicolau Lobato.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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