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Londres, 8 de setembro de 2026 (RAFA) – O Reino Unido, a França e o Canadá anunciaram a proibição de importação de bens produzidos em colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada, medida que Israel classificou de “desprezível” e à qual respondeu de imediato com o encerramento do consulado britânico em Jerusalém Oriental.
O secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, anunciou no parlamento que o Reino Unido vai proibir a importação de todos os bens provenientes dos colonatos e impedir empresas de prestar serviços a estes, incluindo financiamento, construção, infraestruturas, imobiliário e publicidade.
“Não creio que o povo britânico queira que apoiemos a ocupação ao aceitar nas nossas lojas e supermercados produtos vindos de colonatos”, afirmou.
Segundo Miliband, “o Governo britânico concorda que há uma limpeza étnica de palestinianos em áreas da Cisjordânia, perpetrada por colonos terroristas”, referindo casas destruídas a buldózer, estradas e infraestruturas públicas arrasadas e famílias expulsas das suas casas.
O governante disse ainda sentir “uma profunda vergonha pelo que se tem passado na Palestina perante os olhos da comunidade internacional” e garantiu: “Não vamos aceitar a destruição da solução de dois Estados.”
A proibição de comércio entrará em vigor num prazo de seis a nove meses, segundo Miliband.
Além do Reino Unido, França e Canadá, outros nove países europeus – Dinamarca, Finlândia, Islândia, Polónia, Portugal e Suécia, entre outros – comprometeram-se a “apoiar novas ações” no futuro, enquanto Países Baixos, Irlanda, Bélgica, Espanha e Noruega já proibiram ou estão em processo de proibir bens de colonatos.
Miliband anunciou ainda um reforço do embargo britânico à venda de armas a Israel para uso em Gaza, alargando-o a armamento que “contribua materialmente para a ocupação” de território palestiniano.
Estima-se que vivam cerca de 700 mil israelitas em colonatos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, considerados ilegais à luz do direito internacional, ainda que Israel conteste essa qualificação.
Numa alteração da posição britânica, Miliband disse ainda considerar ilegal não só os colonatos, mas a própria ocupação israelita da Cisjordânia.
Cerca de duas horas depois do anúncio britânico, o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Gideon Sa’ar, anunciou que o país vai fechar o consulado britânico em Jerusalém Oriental, que servia de representação do Reino Unido junto da Palestina ocupada – a embaixada britânica em Telavive não é afetada.
Sa’ar disse ainda que Israel vai retirar os seus representantes de um centro conjunto de monitorização do cessar-fogo em Gaza e terminar o treino britânico às forças de segurança da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia.
Vai ainda proibir a entrada no país a uma dúzia de deputados e outros cidadãos britânicos acusados de estarem “envolvidos em atividade antissemita e anti-israelita”.
O Presidente israelita, Isaac Herzog, classificou a proibição como “um grave erro de cálculo, uma decisão que ficará do lado errado da História”, considerando tratar-se de “uma grosseira interferência nas eleições democráticas de uma nação soberana”.
O ministro da Segurança Pública israelita, Itamar Ben-Gvir, líder de colonos linha-dura, apelou a Netanyahu para que reconhecesse a reivindicação da Argentina sobre as Ilhas Falkland, território ultramarino britânico no Atlântico Sul, ainda antes do anúncio de Miliband.
Já o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, pediu a expulsão do embaixador britânico.
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, apoiante de longa data dos colonatos, criticou a medida como “discriminação contra o povo judeu” e avisou que o Reino Unido pode enfrentar “repercussões ou retaliações” por parte de Washington.
A construção de colonatos na Cisjordânia – território ocupado por Israel na guerra de 1967 – tem-se intensificado sob o governo ultranacionalista do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que considera o território o “lar bíblico e histórico” do povo judeu e se opõe à criação de um Estado palestiniano.
Reino Unido e outros países têm manifestado particular preocupação com o projeto de colonato E1, aprovado por Israel, que poderia dividir efetivamente o território em dois e, segundo palestinianos e organizações de direitos humanos, inviabilizar a criação de um futuro Estado palestiniano.
O Reino Unido tinha reconhecido a estatuto de Estado palestiniano no ano passado, numa tentativa de reanimar os esforços, cada vez mais escassos, para alcançar uma solução de dois Estados.
Segundo o gabinete do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, este falou na segunda-feira com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem expôs “o compromisso do Reino Unido com o trabalho pela paz e segurança na região” e com a solução de dois Estados, sem que tenha sido divulgada a reação de Trump.
O impacto económico da medida deverá ser limitado, já que os colonatos produzem sobretudo um volume reduzido de exportações agrícolas, mas analistas consideram o gesto simbolicamente relevante.
Julie Norman, investigadora do think tank britânico Chatham House, disse que, embora a proibição isolada de cada país tenha pouco peso financeiro direto, “coletivamente, com outros, vai ter” impacto, acrescentando que a medida poderá no futuro alargar-se a empresas do setor tecnológico, o que atingiria mais gravemente a economia israelita.
A Austrália não se associou ao anúncio de terça-feira: a ministra dos Negócios Estrangeiros australiana, Penny Wong, disse no parlamento que o Governo “não está, para já, a avançar” com uma proibição geral de importação de bens de colonatos, ainda que vá analisar “medidas específicas” para “dissuadir colonatos ilegais e violência de colonos”.
A medida gerou também reações divididas no Reino Unido: se por um lado é bem vista por deputados e eleitores trabalhistas que pediam sanções mais duras contra Israel, outros manifestaram receio de que as sanções reforcem o apoio a Netanyahu – que enfrenta eleições difíceis em outubro – ou alimentem ataques contra judeus britânicos.
O porta-voz de Negócios Estrangeiros do Partido Conservador, na oposição, Tom Tugendhat, alertou que “transformar Israel num pária arrisca criar divisão sectária no nosso próprio país e um novo aumento da violência antissemita nas nossas ruas”.
Miliband, cujos pais chegaram ao Reino Unido como refugiados do nazismo, disse falar “como um orgulhoso judeu britânico” e apoiante de Israel.
“O nosso argumento não é com o povo de Israel, com quem o Reino Unido tem laços inquebráveis. O nosso argumento é com a conduta do seu Governo”, afirmou.
FIM
Escrito por RafaFM
França e Canadá proíbem importação de bens de colonatos israelitas na Cisjordânia; Israel fecha consulado britânico em resposta Reino Unido
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