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Reformas nas redes elétricas são decisivas para o crescimento verde da ASEAN, alerta relatório

todayMaio 18, 2026 1

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Díli, 18 de maio de 2026 (RAFA.TL) – O Sudeste Asiático arrisca perder milhares de milhões de dólares em investimento verde porque as suas redes elétricas subfinanciadas não acompanham o ritmo da procura energética crescente, segundo um relatório divulgado hoje.

O relatório, divulgado pela Bain & Company, em parceria com a GenZero, a Google, o Standard Chartered e a Temasek. analisa três soluções estruturais consideradas essenciais para a descarbonização regional.

São elas o desenvolvimento de uma rede elétrica de nova geração, o ecossistema de veículos elétricos e a bioeconomia sustentável.

Os autores identificam um ponto de rutura na região, notando que os investidores estão dispostos a financiar centros de dados, energia renovável, parques industriais verdes e produção de veículos elétricos.

A maioria das redes elétricas do Sudeste Asiático dispõe de poucas interligações regionais e não se está a adaptar com rapidez suficiente para responder à rápida eletrificação das economias.

O investimento anual em transmissão e distribuição de energia caiu 3 por cento entre 2015 e 2025 na ASEAN, enquanto cresceu 10 por cento ao ano na União Europeia e 8 por cento nos Estados Unidos.

A região deveria estar a investir 29 mil milhões de dólares por ano em infraestrutura de rede, mas investe apenas 11 mil milhões – um défice anual de 18 mil milhões de dólares.

Para fazer face ao crescimento das renováveis, o investimento em redes terá de quase duplicar para 30 mil milhões de dólares até 2035, segundo a Agência Internacional de Energia.

O relatório sublinha que as redes da ASEAN foram concebidas para centrais termoelétricas convencionais e não estão equipadas para integrar energias renováveis de forma eficiente.

As perdas de transmissão e distribuição na região representam 6,7 por cento da eletricidade gerada nas seis principais economias (SEA-6) – muito acima dos cerca de 4 por cento registados na China, no Japão e na Coreia do Sul.

No Vietname, por exemplo, os constrangimentos de transmissão forçaram a redução da produção renovável em 1,3 mil milhões de quilowatt-hora.

O impacto já é visível: entre 2021 e 2025, entre 50 e 60 por cento dos projetos de energia renovável no Vietname, na Tailândia e na Indonésia foram cancelados devido a constrangimentos do sistema, incluindo estruturas pouco claras de contratos de compra de energia, obstáculos ao licenciamento e regras de ligação à rede.

Nos próximos três a quatro anos, a região deverá enfrentar mais de 100 terawatt-hora de nova procura energética proveniente de centros de dados, veículos elétricos e parques industriais verdes, representando mais de 200 mil milhões de dólares em investimento comprometido.

O problema estrutural é claro: estes equipamentos constroem-se em um a três anos, mas a rede elétrica necessária para os servir demora pelo menos cinco anos a construir.

Uma sondagem da Bain a operadores regionais e globais de centros de dados concluiu que 90 por cento apontaram os atrasos na ligação à rede como o principal constrangimento, e 70 por cento citaram os limites de capacidade de transmissão.

A economia verde da região cresce entre 8 e 9 por cento ao ano e vale atualmente 290 mil milhões de dólares, com projeções para atingir 430 mil milhões até 2030.

Porém, o relatório sublinha um fosso significativo entre anúncios e execução: dos cerca de 540 mil milhões de dólares em despesa de capital verde anunciados para as cadeias de valor da energia e dos veículos elétricos até 2030, apenas 315 mil milhões seguem uma trajetória credível de concretização nas condições atuais.

“O capital flui para onde a procura comercial, a segurança energética e as políticas que geram infraestrutura convergem, e estagna onde qualquer um dos três elementos está em falta”, afirmou Dale Hardcastle, sócio da Bain & Company e coautor do relatório.

O relatório estima que a modernização das redes poderia gerar 25 mil milhões de dólares de contribuição anual para o PIB regional em 2030, criar 200 mil empregos e reduzir as emissões em cerca de 50 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

Considerando as três soluções estruturais no conjunto, o impacto poderia atingir 120 mil milhões de dólares anuais adicionais no PIB das seis principais economias, 900 mil empregos verdes e 50 por cento de redução do défice climático face às metas de 2030.

Uma cooperação regional mais aprofundada na rede elétrica poderia ainda reduzir os custos de descarbonização em cerca de 800 mil milhões de dólares até 2050 face a uma abordagem exclusivamente nacional, e permitir que cada país instale 600 gigawatts a menos de capacidade solar, reduza em 13 por cento a área necessária e necessite de 1,2 terawatt-hora a menos de armazenamento eléctrico.

O relatório aponta os clusters industriais verdes – zonas económicas especiais alimentadas por energia renovável – como uma solução de elevado impacto a curto prazo para atrair investimento privado.

Tailândia, Vietname, Malásia, Filipinas, Indonésia e Singapura estão já a desenvolver tais zonas: a Malásia lançou o Corredor de Energias Renováveis de Sarawak (SCORE), com o objetivo de criar 1,5 milhões de empregos até 2030; a Indonésia desenvolve uma das maiores zonas industriais verdes do mundo em Kalimantan; o Vietname recebe apoio estatal para cobrir até 30 por cento dos custos de infra-estrutura de clusters industriais.

O relatório propõe medidas imediatas incluindo a implantação rápida de energia solar e armazenamento em baterias, interligações de via rápida para grandes cargas e abertura da transmissão e distribuição à participação privada, à semelhança do modelo indiano onde as reformas de mercado permitiram que o sector privado representasse 97 por cento da capacidade renovável instalada.

A longo prazo defende a criação de mercados regionais de energia e o reforço das interligações no âmbito da iniciativa da Rede Elétrica da ASEAN. O desbloqueio destes constrangimentos poderia gerar 70 mil milhões de dólares adicionais em investimento em energia limpa.

O relatório alerta para as consequências do atraso: cada contrato de longo prazo para fornecimento de gás ou energia térmica (carvão) torna mais difícil a substituição por energia verde no futuro.

Muitos operadores de centros de dados estão já a aceitar fornecimento interino de gás ou energia térmica em vez de aguardarem pela energia limpa.

“Cada gigawatt contratado em combustíveis fósseis hoje estreita a janela para que a energia verde o substitua, especialmente quando se trata de contratos de longo prazo que se estendem bem para a década de 2030”, afirmam os autores.

O alerta surge num momento em que o Sudeste Asiático enfrenta custos energéticos crescentes devido à dependência de combustíveis fósseis.

O choque de oferta provocado pela guerra do Irão e pelo bloqueio de Teerão ao Estreito de Ormuz reforçou o valor estratégico das energias renováveis e a urgência de reduzir a dependência de combustíveis importados.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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