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Ramos-Horta defende mulher latino-americana para suceder a Guterres na ONU

todaySetembro 23, 2026 25

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Nova Iorque, 23 de setembro de 2026 (RAFA) – O Presidente José Ramos-Horta defendeu hoje que o próximo secretário-geral das Nações Unidas deve ser uma mulher latino-americana com “integridade inquestionável”, após mais de 80 anos de liderança masculina.

“E depois de mais de 80 anos de homens à frente da nossa organização, nem é preciso dizer que devíamos ter sabedoria suficiente para eleger uma mulher com integridade inquestionável, um registo imaculado na defesa dos direitos humanos, forte defesa da igualdade de género e da inclusão, do Estado de direito, da democracia, e sólida experiência em gestão de topo em instituições nacionais e multilaterais”, afirmou o chefe de Estado timorense, no seu discurso na 81ª sessão da Assembleia-Geral, em Nova Iorque.

Ramos-Horta recordou o princípio da rotatividade regional na escolha do líder da ONU, sublinhando que deve ser respeitado.

“O precedente da rotação regional tem de ser preservado”, declarou, recordando que África teve “três mandatos contínuos sem precedentes” – com Boutros Boutros-Ghali, entre 1992 e 1996, e Kofi Annan, entre 1997 e 2006.

“Agora, o Conselho de Segurança vai eleger um latino-americano como o nosso novo secretário-geral para 2027-2032”, afirmou.

O Presidente timorense associou esta defesa a uma reflexão mais ampla sobre liderança internacional, que apresentou como critério para a escolha do próximo secretário-geral da ONU.

“A liderança não é apenas descobrir o instinto mais colérico do eleitorado e amplificá-lo. Liderança é, por vezes, dizer aos nossos próprios apoiantes que estão errados. É explicar a complexidade quando um slogan seria mais fácil. É pedir às pessoas que pensem no amanhã quando estão zangadas com o hoje”, afirmou, acrescentando que a “capacidade de Estado” exige “paciência, persuasão, coragem para o compromisso” e a compreensão de que “o poder traz responsabilidade, não isenção”.

O apelo de Ramos-Horta surge numa fase decisiva do processo de sucessão de António Guterres, cujo mandato termina a 31 de dezembro.

O processo de seleção abriu formalmente a 25 de novembro de 2025, e o Conselho de Segurança já realizou três rondas de votações informais – as chamadas “straw polls” -, sem que nenhum candidato tenha ainda reunido consenso suficiente para evitar o veto de qualquer um dos cinco membros permanentes.

Segundo a Carta das Nações Unidas, o secretário-geral é nomeado pela Assembleia-Geral, sob recomendação do Conselho de Segurança – o que, na prática, exige o acordo dos cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), já que qualquer um pode vetar um candidato nas consultas informais e reservadas do Conselho.

Seis candidatos continuavam formalmente na corrida à data do discurso de Ramos-Horta, depois de a antiga Presidente do Chile Michelle Bachelet ter confirmado a sua desistência no fim de semana anterior.

Restam em corrida quatro mulheres latino-americanas – a costarriquenha Rebeca Grynspan, a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett, e as equatorianas María Fernanda Espinosa e Ivonne A-Baki -, além do argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, e dos candidatos africanos Macky Sall, antigo Presidente do Senegal, e Olara Otunnu, do Uganda.

Segundo os resultados mais recentes das votações informais do Conselho de Segurança, Grynspan e Rodrigues-Birkett lideram a corrida, mas nenhuma das duas garantiu ainda um caminho livre do veto de qualquer membro permanente, à espera de uma quarta ronda de votação. Caso seja eleita uma mulher, será a primeira vez, em 80 anos de existência da ONU, que uma mulher assume a liderança da organização.

O chefe de Estado timorense reiterou também a sua defesa da necessidade urgente de uma reforma abrangente do Conselho de Segurança e o fim do direito de veto, que classificou como “inconsistente com a igualdade soberana” entre Estados-membros.

“Timor-Leste apela a uma reforma abrangente, com o alargamento tanto da categoria de membros permanentes como não permanentes, para que os países em desenvolvimento e as regiões historicamente sub-representadas tenham uma voz mais forte nas decisões relativas à paz e segurança internacionais”, afirmou.

“O veto é inconsistente com a igualdade soberana dos Estados-membros”, declarou, apelando ainda à devida atenção ao que já está previsto na Carta das Nações Unidas, nomeadamente o artigo 27º, parágrafo 3, que obriga uma parte num litígio a abster-se de votar em decisões ao abrigo do Capítulo VI e nas circunstâncias previstas no artigo 52º.

Ramos-Horta defendeu ainda que, para os países em desenvolvimento – em particular os pequenos Estados insulares e os países menos desenvolvidos -, os ganhos de eficiência na ONU “têm de se traduzir em melhor execução no terreno, e não em menos apoio essencial”.

O chefe de Estado alargou o apelo a reformas a outras áreas da governação global.

Sobre alterações climáticas, reafirmou os princípios da justiça climática e das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas e capacidades respetivas”, defendendo que uma maior ambição climática “tem de ser acompanhada por financiamento acessível e previsível, apoio à adaptação, transferência de tecnologia e reforço de capacidades”.

Sublinhou ainda que, para os pequenos Estados insulares e os países menos desenvolvidos, “a vulnerabilidade não pode ser medida apenas pelo rendimento”, pesando também “a geografia, a exposição climática, a capacidade produtiva reduzida, os choques externos e o acesso limitado a financiamento acessível”.

Sobre inteligência artificial e outras tecnologias emergentes, Ramos-Horta defendeu que os países em desenvolvimento “têm de participar ativamente na sua governação e desenvolvimento – e não apenas receber tecnologias concebidas noutros lugares”.

Jornalista: António Sampaio

 

 

Escrito por RafaFM

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