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Nova Iorque, 23 de setembro de 2026 (RAFA) – O Presidente José Ramos-Horta considerou hoje, na Assembleia-Geral da ONU, que o mundo está a habituar-se a tratar a catástrofe em Gaza como algo com que pode conviver, defendendo que “o silêncio não é segurança”.
“Estou preocupado. Preocupado que tenhamos começado a tratar uma catástrofe como algo com que simplesmente podemos coexistir”, afirmou o chefe de Estado timorense, no seu discurso na 81ª sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.
Ramos-Horta questionou a indiferença coletiva perante as imagens de guerra que chegam diariamente aos telemóveis de milhões de pessoas.
“Como é que conseguimos scroll pelo fim do mundo antes de terminar o café? Como é que uma criança a puxar pedaços da sua família dos escombros se tornou uma notícia que rapidamente ignoramos, uma notificação que silenciamos, uma terça-feira qualquer?”, questionou.
O Presidente timorense recusou reduzir as vítimas a números.
“Atrás de cada morto não está uma estatística – é uma mãe que vai passar o resto da vida à procura de um rosto numa multidão que nunca vai aparecer. É um rapaz escondido em silêncio, a aprender antes de saber ler que o mundo lá fora o quer morto. É uma rapariga, grávida dos homens que vieram destruir a sua casa, a carregar dentro de si tanto a violência que lhe foi feita como uma vida que nunca escolheu”, afirmou.
Ramos-Horta defendeu que a indiferença não decorre da falta de informação.
“Não é falta de informação. Estamos a afogar-nos em informação. Podemos transmitir tudo em direto à medida que acontece. Isto é falta de sentimento – uma dormência que deixámos instalar-se sobre nós como pó”, disse.
O chefe de Estado criticou ainda o que descreveu como justificações diplomáticas para ataques a infraestruturas civis.
“Testemunhamos acrobacias diplomáticas para desvalorizar o bombardeamento de uma escola ou de um hospital, dizendo que isso não viola realmente o direito internacional porque poderão estar terroristas escondidos na cave do edifício”, afirmou.
Ramos-Horta reafirmou o apoio de Timor-Leste à solução de dois Estados como “a única solução viável” para israelitas e palestinianos, e alertou que “os riscos são demasiado elevados para continuar um status quo instável”. “A escolha é entre uma ordem internacional a cair aos pedaços ou a erguer-se para a paz”, declarou.
O Presidente timorense pediu ainda atenção a outras crises humanitárias que considerou esquecidas pela comunidade internacional.
“Peço que dediquem algum tempo a olhar para a situação no Sudão, a pior crise humanitária do mundo atual; olhem para as situações no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, no Afeganistão, em Myanmar, no Iémen”, afirmou, sublinhando que as vítimas destes conflitos “não são abstrações”, mas sim “mulheres e crianças, jovens no melhor da sua vida, pais, avós”.
Sobre Cuba, o Presidente timorense descreveu a situação humanitária na ilha como “de partir o coração”.
“Compreendemos que os Estados Unidos disponibilizaram 100 milhões de dólares em ajuda humanitária de emergência ao povo cubano através da Caritas. Em linha com a tradição humanitária norte-americana, e no sentido de criar um ambiente propício a relações normais e de longo prazo entre Cuba e os Estados Unidos, as relações comerciais entre Cuba, os Estados Unidos e o resto do mundo poderiam ser melhoradas”, afirmou Ramos-Horta.
Sobre o Saara Ocidental, Ramos-Horta saudou a proposta marroquina e a recente resolução do Conselho de Segurança como uma oportunidade de diálogo. “Como em qualquer situação desta natureza, o povo mais diretamente interessado tem de ser consultado sobre o seu estatuto futuro. Esperamos que se alcance um acordo justo e abrangente entre as autoridades marroquinas e a Frente Polisário”, declarou.
Já perto do final do discurso, e falando em português, Ramos-Horta recordou a Declaração Global da Compaixão, assinada à margem da Assembleia-Geral do ano passado.
“No ano passado, à margem da AGNU, muitos de nós, incluindo chefes de Estado e laureados com o Prémio Nobel da Paz, reunimo-nos para lançar a Declaração Global de Compaixão. O primeiro-ministro do Butão e eu estivemos entre os primeiros signatários da declaração, que apela à partilha da responsabilidade moral e a uma maior responsabilização na governação mundial”, afirmou. Citando o também Nobel da Paz Kailash Satyarthi, o Presidente timorense acrescentou: “Como afirma o meu amigo e também laureado com o Prémio Nobel da Paz, Kailash Satyarthi, globalizámos os mercados e a tecnologia. Chegou agora o momento de globalizarmos a compaixão. Não como uma emoção passiva, mas como uma força poderosa para alcançar justiça e paz para todos.”
Jornalista: António Sampaio
Escrito por RafaFM
Ramos-Horta alerta que mundo trata Gaza como catástrofe "com que se pode coexistir"
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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