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Quando a memória regressa a casa: Timor-Leste prepara-se para o regresso de Três prelados históricos

todayAgosto 21, 2026 82 5

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Díli, 21 de agosto de 2026 (RAFA) — Depois de décadas ligados à história de Timor-Leste por Portugal, três Prelados que marcaram profundamente o percurso religioso, social e humano do povo timorense estão prestes a regressar à terra que serviram: D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes.

A importância deste regresso foi realçada pelo Ministro do Planeamento e Investimentos Estratégicos, Gastão Sousa, que representou o Governo de Timor-Leste na Santa Missa de Ação de Graças e comemoração dos três Prelados, realizada na Catedral histórica de Évora, Portugal.

Para Gastão Sousa, a trasladação dos restos mortais das três figuras religiosas para Timor-Leste transcende a dimensão de uma cerimónia religiosa.

Segundo o governante, este é um ato de memória histórica, de gratidão institucional e de reconhecimento nacional daqueles que dedicaram uma parte significativa da sua vida aos timorenses.

“Regressarão, portanto, não como figuras estrangeiras homenageadas de longe, mas essencialmente como filhos que finalmente regressam à casa que sempre foi sua”, disse o ministro durante a celebração.

Três Prelados, três momentos na história

Na sua intervenção, Gastão Sousa destacou o percurso dos três homens e o papel que cada um desempenhou em diferentes momentos da história da Igreja em Timor-Leste.

Dom Jaime Garcia Goulart, o primeiro Bispo de Díli, assumiu a tarefa de organizar e estruturar a Diocese num território marcado pela dispersão populacional e pela diversidade linguística e cultural.

O seu trabalho esteve ligado não só à organização da Igreja, mas também à promoção da educação, à formação de um clero local e à criação de uma rede paroquial que se tornaria um dos pilares da vida comunitária timorense.

Segundo o ministro, foi sob o impulso de D. Jaime Garcia Goulart que a fé cristã encontrou uma estrutura eclesiástica própria, capaz de acompanhar mais de perto as populações das diferentes regiões de Timor.

Dom José Joaquim Ribeiro, o segundo bispo de Díli, foi o responsável por dar continuidade a este legado durante um período de profundas transformações sociais e políticas.

Durante o seu pastorado, reforçou-se a formação de sacerdotes e catequistas timorenses, contribuindo para a consolidação da estrutura da Igreja local.

Este investimento, salientou Gastão Sousa, viria a revelar-se particularmente importante após a invasão indonésia de 1975 e durante os longos anos de ocupação que se seguiram, quando as estruturas paroquiais e o clero constituíram, para muitos timorenses, espaços de proteção, identidade e resistência moral.

Foi neste contexto que D. Martinho da Costa Lopes, Administrador Apostólico de Díli, assumiu um papel que transcenderia a dimensão estritamente religiosa.

Durante os anos de maior sofrimento para o povo timorense, Monsenhor Martinho tornou-se a voz daqueles que não podiam ser ouvidos, denunciando a violência e apelando à comunidade internacional para que garantisse o respeito pela dignidade humana e pelo direito do povo timorense à sua própria história e identidade.

A sua postura levou à sua partida de Timor-Leste, mas, segundo Gastão Sousa, isso não apagou o lugar que ocupa na memória nacional.

“A sua memória permanece, para muitos timorenses, indissociável da própria ideia de dignidade nacional”, afirmou o ministro.

Memória que transcende a Igreja

Para o Governo timorense, o legado dos três Prelados está profundamente ligado à história recente do país.

Gastão Sousa enfatizou que, durante os períodos mais difíceis do percurso de Timor-Leste, as paróquias, as missões e os próprios pastores da Igreja Católica constituíram espaços onde a população encontrou refúgio, apoio e voz.

Por esta razão, a trasladação dos seus restos mortais é vista não só como uma homenagem religiosa, mas também como uma forma de preservar parte da memória coletiva da nação.

O ministro explicou que o apoio do Governo ao processo desenvolvido pela Conferência Episcopal Timorense assenta em três razões principais: o dever da memória histórica, a obrigação institucional de gratidão e a convicção de que os três Pastores pertencem à terra que serviram.

“Estes três Pastores pertencem, no seu sentido mais pleno, à terra que os acolheu”, disse Gastão Sousa, acrescentando que dedicaram “a parte mais importante das suas vidas” a Timor-Leste.

Um Regresso que Fortalece os Laços entre Timor-Leste e Portugal

O repatriamento assume também uma dimensão que transcende a esfera religiosa, sendo apresentado pelo Governo como uma expressão dos laços históricos entre Timor-Leste e Portugal.

Gastão Sousa sublinhou que a relação entre os dois países não se limita aos laços formais de Estado, mas está profundamente enraizada na história partilhada dos dois povos, na língua portuguesa, na fé e na solidariedade demonstrada pelo povo português durante os anos mais difíceis do percurso de Timor-Leste rumo à liberdade.

“Timor-Leste jamais esquecerá este gesto de solidariedade”, afirmou o ministro, associando esta memória à dos três Prelados que dedicaram as suas vidas e o seu ministério ao povo timorense.

Para Gastão Sousa, o processo representa, por isso, também uma oportunidade para renovar e aprofundar a amizade entre Timor-Leste e Portugal, entre as duas Igrejas e entre os dois povos.

“Não representa um ponto final”

Apesar de marcar o fim de um longo processo para o repatriamento dos restos mortais dos três Prelados, o governo considera que a transferência não deve ser vista como um ponto final.

“Esta transferência não representa um ponto final, mas sim o início de um compromisso renovado”, afirmou Gastão Sousa.

Este compromisso implica a preservação da memória histórica e religiosa dos três Prelados e a continuidade das relações de amizade e cooperação entre Timor-Leste e Portugal.

Na Catedral de Évora, o representante do Governo timorense manifestou ainda gratidão às autoridades portuguesas, ao Governo de Portugal, à Diocese de Angra, à Arquidiocese de Évora, à Arquidiocese de Lisboa e às demais entidades envolvidas no processo.

Agradeceu ainda às equipas do Ministério da Administração Estatal, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, da Conferência Episcopal Timorense, do Comité Organizador constituído pelo Governo e aos profissionais de comunicação envolvidos na preparação e divulgação deste momento.

No final da celebração, Gastão Sousa convidou o Governo e o povo de Timor-Leste a unirem-se em oração pela vida, ministério e testemunho de Dom Jaime Garcia Goulart, Dom José Joaquim Ribeiro e Dom Martinho da Costa Lopes.

O regresso dos três prelados representa, assim, não só a trasladação dos seus restos mortais de Portugal para Timor-Leste, mas também o reencontro de três figuras históricas com o povo a quem serviram.

Uma memória que permaneceu em Portugal durante décadas prepara-se agora para regressar a casa.

Jornalista: Miguel Caldas

 

Escrito por RafaFM

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