Destaque

Prémio Nobel de Medicina aponta caminhos para Timor-Leste transformar a investigação em soluções de saúde

todayAgosto 25, 2026 49 5

Fundo
share close

Díli, 25 de agosto de 2026 (RAFA) – Transformar as descobertas científicas em soluções concretas para os pacientes e construir gradualmente uma capacidade nacional para a investigação em saúde são questões fundamentais segundo um Nobel da Medicina.

Estes foram alguns dos principais pontos defendidos pelo imunologista norte-americano Frederick Ramsdell, vencedor do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2025, que falava num Workshop, intitulado “Tradução da Investigação em Saúde”, realizado no âmbito da Cimeira Ciência para o Desenvolvimento 2026, em Díli.

Moderado pelo João Martins, o workshop procurou discutir como o conhecimento produzido pela investigação científica pode ir além do laboratório e chegar à prática, contribuindo para a melhoria da saúde e para o enfrentamento dos problemas concretos das populações.

Ramsdell partilhou a sua própria experiência para mostrar que transformar uma descoberta científica numa aplicação médica pode levar décadas.

Segundo o cientista, uma descoberta fundamental feita pela sua equipa em 1998 só começou a encontrar as condições tecnológicas para ser transformada numa possível terapia cerca de duas décadas depois.

“Basicamente, foram necessários 25 anos para traduzir este conhecimento fundamental em algo que esperamos que possa tratar os pacientes”.

Para Ramsdell, o processo de tradução científica é necessariamente longo, complexo e sujeito a incertezas.

A investigação pode começar com uma questão fundamental sobre o funcionamento do organismo e só muitos anos depois resultar numa aplicação terapêutica.

“A tradução é muito importante para mim, mas é um processo muito longo e difícil. Muitas coisas não se traduzem, pelo menos não de imediato.”

Quando questionado sobre o caminho que Timor-Leste poderia seguir, considerando a dimensão do país e a falta de uma grande indústria farmacêutica ou de uma infraestrutura de investigação biomédica comparável à dos principais centros internacionais, Ramsdell reconheceu que a construção desta capacidade exige tempo, conhecimento e infraestruturas.

O Prémio Nobel considerou, no entanto, que Timor-Leste tem uma importante vantagem: a possibilidade de estabelecer ligações com instituições e investigadores de outras partes do mundo sem ter de desenvolver de imediato toda a infraestrutura científica dentro do país.

“O mundo está a ficar menor. É mais fácil do que nunca colaborar, discutir e trabalhar com pessoas do outro lado do planeta.”

No seu entender, a internet e outras ferramentas de comunicação permitem aos investigadores timorenses estabelecer relações de trabalho com centros científicos internacionais, criando oportunidades de investigação e formação que seriam mais difíceis de alcançar isoladamente.

Ramsdell destacou particularmente a região da Ásia-Pacífico, mencionando a Austrália, Singapura, Japão, China e Taiwan como áreas onde já existe capacidade científica e tecnológica que poderá servir de base para futuras parcerias.

Uma das possibilidades identificadas pelo Prémio Nobel prende-se com a existência de um sistema de saúde estatal e, potencialmente, com o acesso a grandes conjuntos de dados populacionais.

Ramsdell considerou que estes dados poderiam representar uma oportunidade para a investigação em saúde, desde que a privacidade e a proteção da informação individual sejam estritamente respeitadas.

“Não queremos conhecer os dados de uma só pessoa. Queremos conhecer os dados da população.”

A utilização responsável de dados populacionais poderá permitir aos investigadores compreender melhor os problemas de saúde existentes no país e produzir evidência capaz de apoiar as políticas e decisões públicas no sector da saúde.

Apesar das oportunidades que a investigação biomédica pode oferecer, Ramsdell alertou que as prioridades sanitárias de Timor-Leste devem orientar as escolhas científicas.

Esta questão ganhou particular relevância após uma discussão realizada no dia anterior sobre a insegurança alimentar, na qual foi referido que uma parte significativa da população enfrenta dificuldades em aceder a nutrientes adequados.

“Se a insegurança alimentar é um problema, precisamos de o resolver primeiro.”

Esta observação reforça a necessidade de alinhar a investigação científica com as prioridades nacionais.

Para um país como Timor-Leste, isto significa que o desenvolvimento da ciência biomédica deve caminhar lado a lado com as respostas aos problemas básicos de saúde, nutrição e bem-estar da população.

Ramsdell explicou que a sua própria trajetória demonstra a distância que pode existir entre uma descoberta e uma aplicação médica.

A investigação que conduziu ao trabalho laureado com o Prémio Nobel permitiu uma melhor compreensão dos mecanismos relacionados com o funcionamento do sistema imunitário, mas transformar este conhecimento numa possível terapia exigiu avanços tecnológicos noutras áreas e novos investimentos.

O cientista realçou ainda que o desenvolvimento de novos medicamentos deve ser lento e rigoroso para garantir a segurança dos doentes.

“Ao desenvolver um novo medicamento, a primeira coisa é não prejudicar ninguém.”

Segundo Ramsdell, antes de um tratamento ser administrado a pessoas, são necessários estudos prolongados para demonstrar a sua segurança.

Embora este processo possa ser frustrante para os investigadores, considerou a lentidão necessária para proteger os doentes.

A experiência mostra também que a ciência não depende apenas de boas ideias. Transformar uma descoberta num tratamento requer investigação contínua, financiamento, empresas, infraestruturas, regulamentação e colaboração entre diferentes instituições.

A intervenção de Ramsdell deixou, por isso, uma mensagem particularmente relevante para o desenvolvimento da capacidade científica de Timor-Leste: o país não tem de esperar até ter grandes centros de investigação para começar a participar na ciência internacional.

O caminho a seguir pode passar pela formação de investigadores, pela utilização responsável de dados de saúde, pela criação de parcerias com instituições regionais, pela identificação de áreas prioritárias e pelo desenvolvimento de capacidades específicas que possam ser integradas em redes internacionais de investigação.

Ao mesmo tempo, a investigação deve manter-se ligada às necessidades da população, desde a insegurança alimentar e a nutrição até às doenças que afetam diretamente o povo timorense.

A experiência apresentada pelo laureado com o Prémio Nobel demonstra que a ciência pode levar décadas a produzir resultados, mas também que uma descoberta aparentemente distante da aplicação prática pode, com investimento e colaboração, tornar-se uma ferramenta para melhorar a vida dos doentes.

Para Timor-Leste, o desafio apresentado durante o workshop é precisamente construir esta ponte: passar da produção de conhecimento à sua aplicação, sem tentar fazer tudo sozinho e utilizando as parcerias internacionais como forma de acelerar a construção da capacidade científica nacional.

Jornalista: Miguel Caldas

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!