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Preços dos combustíveis no Sudeste Asiático mantêm-se elevados apesar da recente descida do crude

todayJulho 8, 2026 42

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Díli, 8 de julho de 2026 (RAFA.TL) – Apesar da queda do petróleo Brent para valores pré-guerra contra o Irão, os preços dos combustíveis mantêm-se elevados na Indonésia, na Tailândia e no Vietname, penalizados por fundos de subsídios ainda deficitários e margens de refinação elevadas, segundo analistas.

O preço do petróleo Brent, que chegou a ultrapassar os 100 dólares por barril durante os meses mais críticos do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, recuou para uma média de 85 dólares em junho e caiu ainda mais, descendo abaixo dos 70 dólares a 1 de julho, um valor próximo do registado no início do conflito.

A agência norte-americana de informação energética (EIA) prevê que o Brent continue a descer, de uma média de 103 dólares no segundo trimestre para 70 dólares no quarto trimestre deste ano, à medida que o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz vai recuperando.

Contudo, a transmissão dessa descida aos preços na bomba tem sido lenta e desigual em toda a região.

O fenómeno é conhecido entre analistas de mercado energético como “rockets and feathers” – os preços sobem a pique quando o crude encarece, mas descem devagar, “como uma pena”, quando o crude barateia.

Parte da explicação está nas margens de refinação, o chamado “crack spread”, a diferença entre o preço do crude e o preço dos produtos refinados como a gasolina e o gasóleo.

A própria EIA reconhece este efeito, prevendo que a descida dos preços da gasolina fique parcialmente compensada pelo aumento das margens grossistas e retalhistas, uma vez que as reservas reduzidas de gasolina mantêm elevadas as margens de refinação.

Este mecanismo replica-se, de forma ainda mais acentuada, nas economias do Sudeste Asiático, mais dependentes de importações de combustível já refinado.

Segundo a organização de investigação energética IEEFA, os subsídios explícitos aos combustíveis absorveram parte substancial do choque de preços durante o conflito e precisam agora de tempo para recuperar as perdas antes de poderem repassar descidas aos consumidores.

Na Tailândia, o Fundo do Petróleo (Oil Fuel Fund), mecanismo estatal que cobra taxas em períodos de preços baixos e absorve custos extra em períodos de pico, registava um excedente de 2,5 mil milhões de baht a 1 de março, mas transitou para um défice de 786 milhões de baht já a 8 de março.

Face a esta pressão, o Ministério da Energia tailandês chegou a equacionar um empréstimo de 150 mil milhões de baht, garantido pelo Ministério das Finanças, à semelhança de medidas tomadas durante a anterior crise petrolífera.

No Vietname, o Fundo de Estabilização de Preços dos Combustíveis dispunha de um excedente de cerca de 5,6 biliões de dongues (220 milhões de dólares) a 13 de março, suficiente para cerca de 15 dias de desembolsos ao ritmo anterior para gasolina, querosene, fuelóleo e gasóleo.

O Governo vietnamita já injetou um adiantamento de 8 biliões de dongues (303 milhões de dólares) do orçamento de Estado para sustentar o fundo, enquanto eliminou tarifas de importação e impostos ambientais sobre combustíveis, uma medida que deverá reduzir a receita do Estado em cerca de 7,2 biliões de dongues (295 milhões de dólares) por mês.

Na Indonésia, maior economia do Sudeste Asiático, o orçamento de subsídios aos combustíveis para 2026 foi fixado em 381 biliões de rupias (22,4 mil milhões de dólares), com base num pressuposto de crude a 70 dólares por barril – um valor largamente ultrapassado durante os meses mais críticos do conflito. Jacarta introduziu ainda limites de compra para conter o consumo: um teto de 50 litros diários de gasolina para veículos de quatro rodas e de 50 a 80 litros diários de gasóleo, consoante o tipo de veículo, enquanto a Malásia reduziu temporariamente o limite de compra da gasolina RON95 de 300 para 200 litros por mês.

Analistas têm vindo a sublinhar a fragilidade da região perante este tipo de choques.

Segundo Alloysius Joko Purwanto, economista do Instituto de Investigação Económica para a ASEAN e o Ásia Oriental (ERIA), com sede em Jacarta, Filipinas, Tailândia, Malásia e Brunei estão entre as economias mais expostas a disrupções no fornecimento de crude, dependendo de importações para entre 60% e 95% do respetivo abastecimento, ao passo que mesmo a Indonésia, produtora de petróleo, importa mais de um terço do crude que consome.

Sam Reynolds, investigador do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA), alertou em declarações à Al Jazeera que os planos vietnamitas para adquirir cerca de quatro milhões de barris de crude fora do Médio Oriente equivaliam a apenas seis dias de consumo do país, considerando que, face a reservas oficiais para cerca de 20 dias, o Vietname enfrentava um “elevado risco de escassez de combustível sem mais entradas de crude”.

Já Alex Hodes, diretor de estratégia de mercado da StoneX, especializado em fluxos globais de petróleo, notou que a procura de combustível na Ásia começou a recuar de forma visível nos setores de transporte, com companhias aéreas em Singapura, na Indonésia e no Vietname a cancelarem voos perante o encarecimento do combustível de aviação, um sinal precoce de destruição de procura que se veio a confirmar nos meses seguintes.

Chen Chien-Ming, professor associado de gestão de operações na Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU), em Singapura, e Pushan Dutt, professor de economia e ciência política na escola de gestão INSEAD, alertaram ainda para o risco de contágio às contas externas das economias mais frágeis da região.

Segundo Chen, citado pela Fortune, “não há exceção, ao longo da história económica, a que uma disrupção petrolífera seja seguida de recessão”, num ciclo que encarece bens, reduz o consumo, agrava a dívida pública e alimenta a inflação. Dutt, por seu turno, apontou o risco de desvalorização, ou mesmo colapso cambial, em mercados de fronteira como a Tailândia, o Vietname e as Filipinas – uma dinâmica que, ao encarecer as importações de combustível faturadas em dólares, tem contrariado parte do efeito da descida do crude nos mercados internacionais.

A Agência Internacional de Energia (AIE), no seu relatório “Southeast Asia Energy Outlook 2026”, recorda que, antes da crise, cerca de 60% das importações de crude da região e um terço das importações de gás provinham do Médio Oriente, sublinhando que as medidas de contenção da procura, alívio fiscal, subsídios e tetos de preços adotadas pelos governos acrescentam pressão orçamental sem resolver a exposição estrutural subjacente.

A este conjunto de fatores acresce a incerteza gerada em torno ao cessar-fogo no Irão, como ataques a navios de carga no Estreito de Ormuz, prolongando assim o desfasamento entre o mercado internacional e os preços praticados na região.

FIM

 

 

Escrito por RafaFM

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