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Peritos destacam vantagens e desafios da Inteligência Computacional e Engenharia para o Ensino Superior de Timor-Leste

todayAgosto 25, 2026 54 5

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Díli, 25 de agosto de 2026 (RAFA) – Três laureados com o Prémio Turing defenderam, na Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento, que Timor-Leste precisa de formar cientistas de computação em todos os níveis de ensino e apostar em investigação de longo prazo para não ficar à margem da revolução tecnológica em curso.

Richard Sutton, pioneiro da aprendizagem por reforço, Whitfield Diffie, Prémio Turing 2015, e Gilles Brassard, Prémio Turing 2023, participaram na sessão “Intelligent Computing and Engineering in Higher Institutions of Timor-Leste”, dirigida a estudantes e docentes do Díli Institute of Technology (DIT), sobre os desafios e oportunidades da inteligência computacional para o ensino superior timorense.

Sutton começou por distinguir o estado atual da inteligência artificial das expectativas futuras, notando que as redes neuronais de hoje são excecionais a lidar com linguagem – traduzindo, resumindo documentos extensos e respondendo a perguntas -, mas ainda não são capazes de agir no mundo, aprender com a experiência ou resolver problemas de forma geral.

“Esse dia está a chegar. Não é hoje. Mas podemos vê-lo a aproximar-se. A melhor estimativa honesta é que será entre 5 e 25 anos. Se não acontecer em 25 anos, então provavelmente teremos outros problemas maiores”, afirmou.

O investigador recordou que a Lei de Moore continua válida, com o poder computacional a duplicar a cada ano e meio, algo que considera ter impacto direto em todas as áreas científicas.

Dirigindo-se diretamente ao caso timorense, foi direto: “Um país pequeno não pode estratificar.

Precisa manter todos os níveis: educação básica forte, cursos de graduação em ciência da computação e pós-graduação avançada aqui dentro. Talvez seja preciso ir para fora para fazer doutoramento, mas o objetivo do governo e das instituições deve ser tornar o país um lugar para onde as pessoas queiram voltar com conhecimento avançado em inteligência artificial.” Sutton encerrou a intervenção com um alerta contra o receio da tecnologia. “Há muitas coisas erradas no mundo. Mas inteligência a mais não é uma delas. Precisamos de inteligência, de pessoas que pensam longe. Não tenham preconceito contra a inteligência artificial”, disse.

Whitfield Diffie centrou a intervenção na importância da investigação movida pela curiosidade, alertando que, se os países só financiarem projetos com aplicação imediata, o “pipeline” de inovação seca em poucos anos. “Einstein desenvolveu a relatividade sem pensar em GPS.

Bohr, Heisenberg e Schrödinger criaram a mecânica quântica sem imaginar o smartphone.

Hoje, quase tudo o que usamos depende disso. A investigação fundamental é onde tudo começa”, explicou.

Ao abordar a questão da formação, citou o seu orientador de doutoramento, John Hopcroft, Prémio Turing 1986: “Só se tem uma vida para viver. Não a desperdicem” – defendendo a escolha de temas de investigação profundos e arriscados, mesmo quando o percurso não é imediatamente reconhecido.

Diffie recordou a história da criptografia quântica para ilustrar esse ponto: Stephen Wiesner teve a ideia em 1968, submeteu-a a um periódico e viu-a rejeitada, guardando o artigo na gaveta durante anos, até que uma conversa com Charles Bennett a fez ressurgir e dar origem a todo um campo científico.

“Se tiverem uma ideia realmente nova e ela for rejeitada, não desistam. É assim que o progresso acontece”, afirmou, recomendando que os estudantes timorenses saiam dos caminhos batidos.

“A única forma de ter impacto real, talvez um Prémio Nobel ou Turing, é fazer algo que ninguém pensou antes”, disse.

Gilles Brassard focou-se no acesso ao conhecimento, defendendo que a tecnologia já resolveu o maior obstáculo enfrentado por países distantes dos grandes centros científicos. “Antes, para encontrar um artigo, levava-se semanas numa biblioteca de um milhão de volumes. Hoje, com o telefone, encontra-se em segundos. Essa barreira caiu”, afirmou.

Para Brassard, o novo desafio é cultural: as universidades continuam a vender um “produto” chamado diploma, mas falta despertar a vontade de aprender e de compreender o mundo.

Sobre as ferramentas de inteligência artificial já disponíveis, foi pragmático: “O ChatGPT é estúpido nalguns pontos. Não pensa com clareza. Mas, se souberem fazer boas perguntas, é tremendamente útil.”

O investigador defendeu que Timor-Leste use a globalização a seu favor. “A distância para Stanford, o MIT ou Paris já não existe. Toda a aprendizagem hoje é mundial. Precisamos de trazer estudantes e professores de fora para cá, e mandar os daqui para fora. Usar a rede de todas as universidades do mundo”, disse.

Da sessão ficaram três mensagens principais: formar em todos os níveis de ensino, do básico ao avançado, com ênfase na computação; investir em ciência fundamental, sem receio de temas arriscados e de longo prazo; e ligar o país ao mundo, através da internet, da inteligência artificial e de programas de intercâmbio.

“Estamos num momento em que o público está a decidir o que pensa sobre inteligência artificial. Vai tirar empregos ou vai melhorar a vida? Vai melhorar em muitos aspetos. Mas precisamos de nos preparar desde já”, concluiu Sutton.

A Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento prossegue até terça-feira, com diversos temas e oradores de vários países.

A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.

Jornalista: Mateus Romário

Escrito por RafaFM

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