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Papa Leão XIV apela à dignidade dos migrantes em visita ao antigo “cais da vergonha” nas Canárias

todayJunho 12, 2026 19

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Arguineguín, Espanha, 12 de junho de 2026 (RAFA.TL) – O Papa Leão XIV visitou na quinta-feira o porto de Arguineguín, nas ilhas Canárias, antigo epicentro do debate migratório europeu, apelando ao respeito pelos direitos dos migrantes e criticando os líderes, incluindo cristãos, que os rejeitam com indiferença.

Junto ao porto, com navios de salvamento ancorados ao fundo e uma cruz de madeira feita a partir dos destroços de uma embarcação de migrantes, Leão XIV afirmou que “a dignidade humana não tem passaporte e não perde o seu valor ao atravessar uma fronteira”.

O Papa está a passar os últimos dois dias da sua viagem de uma semana a Espanha nas ilhas Canárias, arquipélago espanhol mais próximo de África do que da Península Ibérica e ponto de entrada fundamental para migrantes que fazem a travessia perigosa do Atlântico desde a África Ocidental.

Com esta visita, Leão XIV cumpre um desejo do Papa Francisco, que pretendia visitar as ilhas em memória das milhares de vidas perdidas no mar.

Acompanhado por dois migrantes, o Papa lançou um ramo de flores ao mar, num gesto que recordou o realizado por Francisco em 2013, no início do seu pontificado, durante a visita a Lampedusa, na Sicília, onde denunciou a “globalização da indiferença” face aos migrantes.

As ilhas Canárias têm sido, há muito, um ponto de passagem para migrantes que tentam alcançar a Europa a partir da África Ocidental e de Marrocos, numa rota atlântica que vários especialistas consideram ainda mais mortífera do que a rota do Mediterrâneo central, entre a Líbia, a Tunísia e a Itália.

As chegadas de migrantes às Canárias atingiram um pico de quase 47 mil pessoas em 2024, mas caíram de forma acentuada após pressões e acordos entre a União Europeia, Espanha e vários países da África Ocidental, totalizando pouco mais de três mil chegadas nos primeiros cinco meses de 2026.

Em Arguineguín, em 2020, o número de chegadas levou a que migrantes fossem obrigados a dormir ao ar livre, em acampamentos improvisados no cais, durante semanas, sem acesso a duches e, em muitos casos, sem apoio jurídico adequado.

Algumas pessoas permaneceram retidas durante muito mais tempo do que os três dias previstos por lei, situação que levou o provedor de justiça a obrigar o Governo a encerrar o acampamento e a realojar os migrantes em hotéis esvaziados durante a pandemia de covid-19.

Durante a visita de quinta-feira, o Papa ouviu testemunhos de equipas de salvamento, trabalhadores humanitários e o relato pessoal de uma vítima nigeriana de tráfico humano. Junto ao local, uma faixa rebatizou o antigo “cais da vergonha” como “cais da esperança”.

“Caros migrantes, antes de dizer qualquer outra coisa, quero inclinar-me perante a vossa dignidade”, afirmou Leão XIV, dirigindo-se aos presentes com um ligeiro gesto de vénia. Dirigindo-se à mulher nigeriana e a outras vítimas de tráfico forçadas à prostituição, o Papa assegurou: “Se outros puseram um preço sobre o vosso corpo, sabei que Deus nunca deixou de reconhecer o vosso valor incalculável”.

O Papa apelou aos países de origem para que criem condições de segurança e económicas que evitem a fuga forçada das populações, e aos países de trânsito para que protejam os migrantes da acção de traficantes. Dirigiu ainda um apelo à “consciência da Europa, que não pode reivindicar a defesa da dignidade humana ao mesmo tempo que se habitua a que o Mediterrâneo e o Atlântico se tornem campas sem identificação”.

Num dos discursos mais marcantes do seu pontificado, dedicado exclusivamente à questão migratória, Leão XIV enumerou os direitos dos migrantes a partir ou permanecer, sem mencionar – como já fizera anteriormente – o direito dos Estados a controlar as suas fronteiras ou limitar os pedidos de asilo.

O Papa sublinhou ainda que, para quem é cristão, não é possível ignorar a situação dos migrantes. “Que a história não nos acuse de transformar a dor de quem sofre num espetáculo comum ao longo das nossas costas.

Hoje, aqui junto ao mar, cada pessoa que chega pergunta-nos o que resta da nossa humanidade. Tarde ou cedo, saber-se-á se protegemos a vida ou se cedemos à indiferença”, afirmou.

Entre os migrantes que esperavam pelo Papa estava Mame Amandou Neang, de 56 anos, natural do Senegal, que chegou ao porto de Arguineguín no início deste ano. “É uma grande honra. Esperamos que, ao vê-lo, todos os nossos problemas fiquem para trás, que esqueçamos os nossos problemas, porque temos muita coisa para esquecer neste momento”, afirmou.

Segundo o Projeto de Migrantes Desaparecidos da Organização Internacional para as Migrações, foram registadas cerca de 6.600 mortes na rota atlântica desde a África Ocidental desde que começou o registo, em 2014, embora a organização reconheça que o número real seja muito superior, devido à falta de informação sobre a rota e ao fenómeno dos “naufrágios invisíveis”.

A organização espanhola de defesa dos direitos dos migrantes Walking Borders estima que, desde 2020, mais de 25 mil pessoas tenham morrido ou desaparecido na tentativa de chegar às ilhas Canárias.

À semelhança de Francisco, que fez da causa dos refugiados uma marca do seu pontificado, Leão XIV tem insistido na dignidade dos migrantes, incluindo no seu país de origem, os Estados Unidos, em meio às medidas de repressão e ao programa de deportações em massa da administração Trump.

No próximo mês, a 4 de Julho, data da independência norte-americana, o Papa norte-americano vai passar o dia na ilha de Lampedusa, onde Francisco, em 2013, denunciou pela primeira vez a “globalização da indiferença” face aos migrantes.

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Escrito por RafaFM

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