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Díli, 15 de junho de 2026 (RAFA.TL) – Cabo Verde escreve terça-feira um dos capítulos mais emocionantes da sua história.
Os Tubarões Azuis estreiam-se no Campeonato do Mundo FIFA 2026, enfrentando a Espanha em Atlanta, no Grupo H, numa data que os 500 mil residentes do arquipélago atlântico e mais de um milhão e meio de emigrantes espalhados pelo mundo aguardavam há décadas.
Do Mindelo à Praia, de Lisboa a Roterdão, de Boston a Paris – e também em Díli – hoje é dia de Cabo Verde.
Na véspera do jogo histórico, o selecionador Bubista falou em conferência de imprensa em Atlanta com uma clareza que surpreendeu quem esperava o discurso habitual de um estreante intimidado.
“Não viemos só para participar, viemos para competir, e isso está claro para a nossa equipa”, afirmou. “A nossa equipa está preparada para jogar de forma ofensiva se necessário, e queremos mostrar isso. Ao longo de todo este tempo a nossa equipa deu provas de maturidade, e espero que isso continue.”
Para Bubista, a participação no Mundial tem uma dimensão que vai muito além do retângulo verde.
“Já discutimos muito a forma como queremos desfrutar do jogo e do Mundial. Já dissemos que a nossa qualificação significa mais do que apenas futebol. É uma conquista cultural, musical. Queremos mostrar o nosso país, por isso é uma oportunidade incrível de nos dar a conhecer ao mundo. Estamos muito felizes por defrontar a Espanha na nossa estreia. É um sonho a tornar-se realidade”, declarou.
O selecionador foi ainda mais longe ao definir o que entende por identidade cabo-verdiana no campo.
“Quando falamos da nossa identidade, estamos a falar de quem somos como povo. Gostamos de desafios e de dificuldades porque gostamos de as superar. A nossa bandeira vai estar hasteada – essa é a coisa principal – entre as bandeiras das equipas mais fortes do mundo.”
O próprio selecionador espanhol Luis de la Fuente reconheceu, na sua conferência de imprensa de domingo, que Cabo Verde pode ser uma das equipas capazes de causar surpresas no torneio.
A qualificação foi confirmada a 13 de outubro de 2025, com uma vitória por 3-0 sobre o Essuatini no Estádio Nacional da Praia.
Dailon Livramento, Willy Semedo e Stopira foram os autores dos golos que fizeram “rebentar pelas costuras” um estádio com tolerância de ponto concedida pelo Governo.
Os Tubarões Azuis terminaram a qualificação africana com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota – um resultado doloroso de 4-1 frente aos Camarões – vencendo o Grupo D e superando os recordistas africanos de presenças em Mundiais.
A classificação chegou nos 50 anos da independência de Cabo Verde e após 40 anos como membro da FIFA, e quase sucessos nas tentativas de qualificação de 2014 e 2022.
“Era algo que a seleção e o país já andavam à procura há muito tempo, e consegui-lo nos 50 anos da independência de Cabo Verde é motivo de muita satisfação e orgulho. Foi uma felicidade enorme ver a alegria do povo”, afirmou o guarda-redes Vozinha, do Chaves.
Por detrás da qualificação está um trabalho estruturado de longa data.
Existe no país uma infraestrutura de desenvolvimento altamente organizada, com três centros de treino construídos com recursos do Fundo Forward da FIFA.
A federação utilizou igualmente esse fundo para cobrir os custos elevados de deslocação durante a campanha de qualificação.
Desde a primeira participação na Taça das Nações Africanas em 2013, a seleção foi construindo um processo sistemático de captação de jogadores com ascendência cabo-verdiana em todo o mundo, potenciando progressivamente o seu elenco.
O selecionador Bubista, que jogou 16 anos pela seleção nacional como defesa entre 1989 e 2005 sem nunca chegar a um grande torneio, voltou ao cargo de treinador em 2011. Durante a preparação para o Mundial, realizou um intercâmbio de dez dias com o Cruzeiro de Leonardo Jardim para aprender sobre métodos de preparação e dinâmica de calendário.
A convocatória inclui 26 jogadores oriundos dos quatro cantos do mundo: o guarda-redes Vozinha joga no Chaves (Portugal), o defesa Logan Costa no Villarreal (Espanha), Steven Moreira no Columbus Crew (EUA), Wagner Pina no Trabzonspor (Turquia), Jamiro Monteiro no Zwolle (Holanda) e Sidny Cabral, de 23 anos, defende o Benfica.
No total, sete jogadores atuam em Portugal, onde a ligação histórica e linguística tornou as academias lusas a principal porta de entrada para o futebol europeu.
Ryan Mendes, símbolo histórico da seleção com 94 internacionalizações e 22 golos – maior marcador de sempre dos Tubarões Azuis – chega ao Mundial ao atingir o pico máximo de uma carreira inteira ao serviço de Cabo Verde.
A diáspora cabo-verdiana é estimada em mais de 1,5 milhões de pessoas espalhadas por mais de 42 países – três vezes mais do que a população residente no arquipélago. Portugal, Holanda, Luxemburgo, França e os Estados Unidos albergam as maiores comunidades.
O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva resumiu esta realidade.
“Nós somos mais de 500 mil e temos uma amplitude e representatividade em países europeus, africanos e nos Estados Unidos. Conjugando-os com talentos que jogam aqui, criámos uma força enorme que ultrapassa as fronteiras de Cabo Verde.”
O Presidente da República cabo-verdiano, José Maria Neves, declarou que “Cabo Verde é um Estado transnacional”.
“Temos cabo-verdianas e cabo-verdianos espalhados por todo o mundo, aliás somos migrantes antes de sermos cabo-verdianos”, disse Neves, que viajou aos Estados Unidos para acompanhar a estreia, visitando a comunidade em Massachusetts antes de se deslocar a Atlanta para o jogo de hoje.
O seleccionador Bubista antecipou um Grupo H “bastante difícil”, mas mostrou-se satisfeito por enfrentar dois campeões do mundo. “A Arábia Saudita também é um adversário difícil, tem feito um investimento grande no futebol e ganharam à Argentina no último Mundial. Nós temos fé, fazemos o nosso trabalho, com união”, afirmou. Para chegar à fase a eliminar, os Tubarões Azuis terão de ser um dos dois primeiros classificados do grupo, ou um dos oito melhores terceiros nesta edição alargada a 48 selecções.
O entusiasmo em torno à participação de Cabo Verde chegou até ao outro extremo do mundo lusófono.
O Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, declarou publicamente o seu apoio à seleção cabo-verdiana numa publicação na sua página pessoal do Facebook que surpreendeu os timorenses – maioritariamente fervorosos adeptos de Portugal.
“Hoje anuncio publicamente e sei que isso pode custar-me as próximas eleições, apoio a seleção nacional cabo verdiana. Vejam lá, não é para celebrarmos, para emocionarmos, quando Cabo Verde, esse pequeno país arquipélago irmão perdido no meio do Atlântico, é qualificada para a COPA DO MUNDO FIFA 2026? Tem toda a nossa admiração. Nós, Timor-Leste… Temos que aprender, inspirarmo-nos no prodígio Cabo Verdiano”, escreveu o chefe de Estado timorense.
Ramos-Horta revelou que tentou comprar uma bandeira de Cabo Verde aos vendedores de rua de Díli sem sucesso, e que encomendou uma ao seu alfaiate de confiança para colocar no carro. Declarou ainda que continuará a apoiar o Brasil e Portugal, mas deixou claro onde está o seu coração neste Mundial: “Vou rezar por Cabo Verde.”
A comparação entre os dois países é inevitável e intencional.
Os jogos do Grupo H de Cabo Verde no Mundial 2026, em horários de Timor-Leste:
A NTV/ETO Telco detém os direitos de transmissão do Mundial 2026 para Timor-Leste.
FIM
Escrito por RafaFM
com apoio de uma nação espalhada pelo mundo - e de Timor-Leste Os Tubarões Azuis estreiam-se hoje no Mundial
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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