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Nível do mar sobe 5,5 milímetros por ano em Timor-Leste, alerta primeira revisão climática nacional

todayJulho 17, 2026 98

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Díli, 17 de julho de 2026 (RAFA.TL) – O nível do mar em Timor-Leste tem subido 5,5 milímetros por ano desde 1993, ameaçando aquíferos de água doce e infraestruturas em zonas costeiras de baixa altitude, revela a primeira síntese sistemática sobre clima no país.

De acordo com os investigadores, cerca de 25% da população timorense vive em zonas costeiras vulneráveis à subida do mar, um fenómeno que se soma a um aumento da temperatura média de 0,16°C por década desde 1950 e a um crescimento da precipitação média anual de 6,4 mm por década entre 1901 e 2009.

A subida da temperatura da superfície do mar, entre 0,15°C e 0,20°C por ano, está também a intensificar o branqueamento de corais no chamado Triângulo de Coral.

O estudo é assinado por Julião da Costa Belo e Mário Gonzalez Pereira, do Centro de Investigação e Tecnologia Agroambiental e Biológica (CITAB) e da Inov4Agro, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, e por Tomás Calheiros, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) e do instituto CHANGE, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O estudo resulta da análise de 87 documentos – 79 artigos revistos por pares e oito relatórios de organizações internacionais como o IPCC, o PNUD, o Banco Mundial e a FAO – e constitui a primeira revisão abrangente da literatura climática sobre Timor-Leste.

O processo de seleção partiu de mais de 6.600 registos identificados nas bases de dados Web of Science e Scopus, reduzidos após triagem e avaliação de elegibilidade.

O relatório destaca ainda a perda de 23,2% da cobertura florestal do país entre 1990 e 2020, com uma taxa de desflorestação anual de 1,9% entre 2016 e 2021, impulsionada sobretudo pela agricultura itinerante e pela queima de biomassa.

O sector do uso do solo e florestas (LULUCF) é responsável por mais de 50% das emissões nacionais, seguido da agricultura (25% a 30%) e da energia (10% a 15%), sendo que 75% a 85% da população continua dependente de biomassa tradicional para consumo energético doméstico.

No plano da saúde pública, o estudo associa as alterações climáticas ao aumento de doenças transmitidas por vetores, como a dengue e a malária, e a crises hídricas: dados de 2019 atribuem cerca de 7% das mortes de crianças timorenses com menos de cinco anos a doenças diarreicas ligadas a cheias e falhas no saneamento.

O documento identifica ainda uma lacuna crítica na investigação nacional: apenas 4% dos estudos analisados incidem sobre políticas de planeamento climático, contra 32% dedicados a impactos e 21% a adaptação.

Do total de 79 estudos avaliados quanto à qualidade metodológica, 73% foram classificados como de elevada qualidade e 27% como de qualidade moderada, não havendo estudos classificados como de baixa qualidade.

Os autores descrevem a assimetria temática como uma “geospatial blindness” (“cegueira geoespacial”), resultante da quase total ausência de projeções climáticas de alta resolução ajustadas à topografia complexa de Timor-Leste.

Esta lacuna dificulta, segundo o estudo, a capacidade do país de avaliar riscos em cascata, incluindo a relação entre precipitação intensa, deslizamentos de terras e instabilidade socioeconómica, comprometendo o Plano Nacional de Adaptação (PNA).

O documento nota também que o chamado “efeito de aperto costeiro” (coastal squeeze) limita a migração natural dos mangais face à subida do mar, devido à reduzida disponibilidade de espaço no interior do território.

Os autores recomendam o reforço das redes de observação climática, o desenvolvimento de modelos de downscaling nacional, a modelação integrada de cenários climáticos, hidrológicos e socioeconómicos, e a atualização regular da revisão sistemática segundo as diretrizes PRISMA, incluindo eventual registo prospetivo junto do PROSPERO, para sustentar políticas públicas baseadas em evidência.

Jornalista Antonio Sampaio

Escrito por RafaFM

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