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Katmandu, 31 de agosto de 2026 (RAFA) – As autoridades nepalesas alertaram no domingo para o risco de novas cheias, com o balanço das inundações de quarta-feira a subir para mais de 800 mortos e 2.502 desaparecidos, enquanto a gestão dos corpos recolhidos gera polémica no distrito de Chitwan.
As autoridades enviaram avisos de inundação para os telemóveis da população logo pela manhã de domingo, enquanto equipas de resgate trabalhavam para desobstruir uma estrada principal que liga Katmandu a uma das zonas mais atingidas pelas cheias catastróficas de quarta-feira.
As cheias causaram pelo menos 16 mortos e 546 desaparecidos do lado chinês da fronteira.
Os avisos mais recentes surgiram depois de as autoridades chinesas terem informado as congéneres nepalesas de um aumento do caudal a montante do rio Bhotekoshi, segundo Dharam Raj Uprety, diretor-executivo da Autoridade Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres do Nepal.
A agência noticiosa estatal chinesa Xinhua, citando o ministério dos Recursos Hídricos do país, afirmou que um novo lago formado nas montanhas após as cheias de quarta-feira já esvaziou grande parte da sua água, mas alertou que uma cratera situada a 5,6 quilómetros a montante, com cerca de 1,4 milhões de metros cúbicos de água, continua a representar risco e exige monitorização próxima.
Entre os desaparecidos contam-se centenas de pessoas de mais de uma dezena de países que se encontravam na região a trabalhar, a visitar as montanhas ou em peregrinação a um pico sagrado. Segundo a imprensa estatal chinesa, 261 estrangeiros estão desaparecidos no Tibete, incluindo mais de uma centena de nepaleses e cidadãos de vários outros países.
No distrito de Chitwan, no centro-sul do Nepal, a escala da catástrofe tornou-se visível com cerca de 250 corpos por identificar, arrastados centenas de quilómetros pelo rio Bhotekoshi desde o epicentro das cheias.
Perante a incapacidade das equipas forenses de dar resposta ao volume de vítimas, as autoridades começaram a enterrar os corpos em valas temporárias antes da identificação, o que gerou acusações de desrespeito pelas tradições fúnebres hindus.
Cerca de 100 vítimas foram enterradas temporariamente no sábado, com escavadoras a abrir uma vala larga em terreno florestal sob observação de responsáveis e da imprensa.
Segundo o inspetor da polícia Anil Thapa, que coordena o processo, outros 50 corpos aguardavam recolha de amostras de ADN antes de um provável enterro no domingo.
As autoridades preservam amostras de ADN, fotografam traços faciais distintivos e registam outros elementos identificativos, atribuindo a cada corpo um número de referência para que as famílias os possam reclamar mais tarde.
Muitos corpos permaneceram submersos cerca de quatro dias antes de serem recuperados, já em decomposição – processo acelerado pela humidade elevada e pelo calor intenso, o que levou especialistas de saúde a alertar para o risco de doenças associado à exposição dos cadáveres.
Novos deslizamentos de terra na zona encerraram no domingo a principal autoestrada entre Katmandu e Chitwan, um dia depois de ter reaberto parcialmente, dificultando o transporte de corpos e de ajuda humanitária.
A questão é particularmente sensível no Nepal, país maioritariamente hindu onde os mortos são tradicionalmente cremados.
Ruby Chaudhary, que tem dois familiares desaparecidos, defendeu que os enterros não deveriam avançar sem o consentimento das famílias.
“Os mortos merecem ser tratados com dignidade. A nossa tradição é cremá-los à beira-rio, rodeados pela família mais próxima.”
O antigo primeiro-ministro Baburam Bhattarai também criticou a decisão de enterrar corpos não identificados antes de concluídas as operações de busca e salvamento e sem consulta mais alargada às famílias dos desaparecidos, sugerindo em publicação nas redes sociais que as autoridades deveriam ter mobilizado recursos de emergência para criar morgues temporárias ou câmaras frigoríficas.
Responsáveis nepaleses defendem que a medida é temporária e motivada por razões de saúde pública e falta de capacidade.
“As pessoas temem que isto seja um enterro definitivo, mas é apenas uma gestão temporária. Se alguém conseguir verificar a identidade mais tarde através da informação disponível, pode reclamar o corpo e realizar os rituais fúnebres adequados”, disse Thapa.
O secretário dos Negócios Estrangeiros do Nepal, Amrit Bahadur Rai, garantiu numa conferência de imprensa em Katmandu que o enterro temporário de corpos não identificados segue protocolos internacionalmente aceites de gestão de catástrofes, incluindo os do Comité Internacional da Cruz Vermelha, acrescentando que “as famílias poderão cruzar registos mais tarde e será permitida a exumação dos restos mortais para os rituais necessários”.
Em Dhading, uma das regiões mais atingidas, alguns residentes começaram a regressar às casas em ruínas para tentar salvar o que restou. Sharmila Tamang, moradora local, descreveu a devastação.
“Está tudo acabado. Não sobrou nada, nem a nossa casa.” Junto ao rio, casas, veículos e tratores agrícolas emergem de uma espessa camada de sedimento castanho-acinzentado que cobriu aldeias inteiras, e parte dos socalcos de arroz à beira-rio caíram para dentro do curso de água após deslizamentos de terra.
Uma central elétrica que serve mais de 20 mil pessoas em quatro distritos sofreu danos graves, e as equipas técnicas começaram no domingo a inspecionar as instalações.
Casas e negócios que escaparam às cheias continuam sem eletricidade, com postes e cabos elétricos torcidos e presos na lama. Pontes de betão e suspensas foram destruídas, isolando comunidades de ambos os lados do rio.
Segundo a organização não-governamental Save the Children, pelo menos 69 escolas nos distritos afetados pelas cheias ficaram destruídas ou danificadas, colocando em risco a educação de cerca de 19 mil crianças – número que deverá subir à medida que as equipas de resgate alcancem novas áreas.
O governo ordenou o encerramento de escolas e universidades por três dias e suspendeu exames universitários, sem que haja ainda data para a retoma das aulas.
As cheias de quarta-feira tiveram origem no colapso de um glaciar a grande altitude nos Himalaias: cientistas que analisaram imagens de satélite concluíram que o colapso da rocha subjacente ao glaciar foi tão violento que registou magnitude 5,2 na escala sísmica. As rochas e a água do degelo inundaram os rios dos vales a jusante, arrastando edifícios, pontes e terra ao longo do território nepalês e tibetano.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Nepal, Shisir Khanal, apelou a uma resposta global às alterações climáticas.
“Apesar de contribuir com apenas 0,1% para as emissões globais, o povo do Nepal tornou-se uma das principais vítimas das alterações climáticas”, afirmou no sábado.
Cientistas admitem ser ainda cedo para estabelecer uma ligação direta entre o aquecimento global e a catástrofe, mas alertam que o aumento da temperatura terrestre tende a agravar o risco deste tipo de eventos, sobretudo nos Himalaias, que aquecem mais depressa do que a maioria das outras regiões do mundo.
A Malásia anunciou o envio de uma equipa de busca e salvamento para apoiar os esforços de socorro e ajudar na evacuação de cidadãos malaios afetados, segundo o primeiro-ministro, Anwar Ibrahim, que anunciou também uma ajuda financeira de um milhão de dólares ao Nepal.
FIM
Escrito por RafaFM
Nepal alerta para novas inundações enquanto balanço de mortos a ultrapassar os 800
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