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Nairóbi, 5 de agosto de 2026 (RAFA.TL) – Um mosquito invasor resistente a todos os inseticidas usados em África espalhou-se pelas cidades do continente mais depressa do que os cientistas temiam, dizem especialistas, arriscando décadas de combate à malária.
O Anopheles stephensi preocupa os especialistas por, ao contrário das espécies que historicamente transmitiram malária no continente africano, prosperar tanto em áreas urbanas como rurais, sem ser travado pelas estações secas.
Uma nova análise genómica ao mosquito, com base em espécimes recolhidos em dez países, revelou que os exemplares encontrados em África apresentam resistência genética a todos os químicos atualmente usados em campanhas de pulverização e noutros esforços de controlo de mosquitos, o que significa que esses inseticidas deixaram de os conseguir matar.
Segundo um estudo publicado na revista Science, a análise de 645 genomas completos recolhidos em África, no Médio Oriente e na Ásia sustenta um cenário de invasão em que uma introdução inicial proveniente do Sul da Ásia estabeleceu uma população no Djibuti, que depois deu origem a três frentes de expansão distintas: uma para o Sudão, outra para a Etiópia e o Quénia, e uma terceira para o Iémen.
A resistência a inseticidas é sobretudo conferida por genes de destoxificação metabólica, com variantes de resistência introduzidas a partir do Sul da Ásia.
O mosquito foi detetado pela primeira vez na cidade do Djibuti em 2012, país que estava então perto de eliminar a malária, com apenas 27 casos registados nesse ano.
O território sofreu depois surtos sucessivos, e o número de casos anuais chegou a ultrapassar os 73 mil.
Desde então, o Anopheles stephensi foi identificado no Sudão, na Etiópia, na Somália, no Quénia, na Nigéria, no Gana e no Iémen, com relatos esporádicos também na África Ocidental.
Segundo modelação citada pelo estudo publicado na Science, a continuação da expansão descontrolada do mosquito coloca em risco acrescido de malária cerca de 126 milhões de pessoas que vivem em cidades africanas.
Um estudo anterior, conduzido por uma entomologista da Universidade de Oxford, identificou 44 cidades como locais “altamente propícios” à instalação da espécie, sobretudo em regiões equatoriais de elevada densidade urbana.
Ao contrário dos mosquitos africanos, que tendem a picar durante a noite, quando as temperaturas descem, o Anopheles stephensi pode alimentar-se ao início da noite, quando ainda está mais quente, o que reduz a eficácia dos mosquiteiros tradicionalmente usados na prevenção da doença.
O mosquito já foi associado a surtos inesperados de malária urbana, como o registado entre janeiro e maio de 2022 em Dire Dawa, na Etiópia, cidade que costumava registar cerca de 200 casos anuais e que, nesse período, contabilizou mais de 2.400.
Segundo especialistas citados em reportagens anteriores sobre o tema, ainda não há consenso científico total sobre a dimensão real da ameaça representada pelo mosquito, já que nem todas as zonas onde foi detetado registaram um aumento imediato de casos de malária.
A malária mata anualmente cerca de 620 mil pessoas em todo o mundo, a maioria em África, atingindo sobretudo crianças pequenas.
Segundo os autores do estudo genómico, os métodos de controlo desenvolvidos para os mosquitos africanos nativos parecem pouco adequados para travar o Anopheles stephensi, o que reforça a necessidade de estratégias alternativas de controlo vetorial e de reforço da vigilância genómica da espécie.
FIM
Escrito por RafaFM
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