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Díli, 24 de setembro de 2026 (RAFA)- O futuro do jornalismo em Timor-Leste exige profissionais capazes de acompanhar a transformação tecnológica sem perder o pensamento crítico, a ética, o domínio linguístico e a capacidade de compreender a realidade social.
Esta questão esteve no centro da mesa-redonda realizada esta quinta-feira em Díli, no âmbito das comemorações do 10.º aniversário do Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ).
A Diretora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL), Professora Constância de Jesus, destacou a necessidade de os jornalistas dominarem as novas ferramentas digitais, mas sim de as utilizarem de forma responsável e com qualidade.
“A IA ajuda muito, mas não devemos depender a 100% da inteligência artificial”, afirmou Constância de Jesus, defendendo que a tecnologia deve continuar a ser acompanhada pela capacidade analítica humana.
Segundo a docente, os jornalistas precisam de desenvolver o pensamento crítico para questionar a informação produzida ou processada através de novas ferramentas.
“Temos de dar importância à inteligência humana. Isto significa que um jornalista também precisa de ter pensamento crítico e a capacidade de analisar: esta informação está correta?”, questionou.
A ética, a conduta profissional e a responsabilidade foram também destacadas como competências indispensáveis.
“A ética, a conduta profissional e a responsabilidade são também competências muito importantes para um jornalista ou futuro profissional dos media”, afirmou.
Constância de Jesus acrescentou que a inteligência artificial pode facilitar várias tarefas jornalísticas, incluindo a análise de grandes volumes de documentos, mas alertou que a velocidade proporcionada pela tecnologia não deve substituir a qualidade do trabalho.
“A velocidade não substitui a qualidade”, enfatizou.
O diretor de informação do GMN, Delfim Oliveira, defendeu que a formação deve preparar jornalistas capazes de compreender a realidade para além do acontecimento imediato.
“Queremos jornalistas com esta capacidade. Jornalistas que não só reportem, mas que tenham a capacidade de analisar e ver as consequências de uma ação para a comunidade”, afirmou.
Delfim Oliveira destacou ainda a competência linguística como uma das necessidades dos jornalistas, particularmente num contexto de produção de conteúdos em português e tétum.
“Como é que um jornalista que não domina o português pode escrever uma notícia em tétum e escolher palavras apropriadas para o seu texto?”, questionou.
Antigo chefe da Secção de Língua Portuguesa da RTTL, Xisto Ximenes, enfatizou ainda a importância da competência linguística, das competências analíticas e da compreensão da realidade social.
Para Xisto Ximenes, o jornalismo exige um estudo contínuo e não deve ser encarado apenas como uma carreira profissional.
“Muitos jornalistas veem o jornalismo como um projeto ou apenas uma carreira, mas, não considera o jornalismo como uma profissão”, afirmou.
Defendeu que os jornalistas devem esforçar-se por compreender o que preocupa a população e o que o público espera do trabalho dos media.
“Temos de ser estudiosos, porque precisamos de saber estudar o que nos interessa, o que as pessoas querem, o que o público espera do nosso trabalho”, afirmou
Segundo Xisto Ximenes, a produção jornalística não se deve limitar à transmissão de informação, mas sim manter uma ligação com a realidade das pessoas.
“Por vezes, apenas informamos, mas não estamos do lado do povo”, declarou.
O antigo chefe alertou ainda para a necessidade de os jornalistas se manterem atentos à sua responsabilidade profissional e evitarem que o seu trabalho jornalístico seja influenciado pela proximidade a determinadas figuras ou interesses.
“Por vezes, somos a favor de um líder político, mas esquecemo-nos da nossa profissão”, afirmou.
Para ultrapassar esta dificuldade, defendeu que os jornalistas devem estudar a realidade e compreender o que a população realmente necessita.
A discussão inseriu-se numa reflexão sobre os próximos anos do CLJ numa altura em que as redações enfrentam mudanças provocadas pela transformação digital e pelo desenvolvimento da inteligência artificial.
Apesar das diferentes perspetivas, os participantes convergiram para a importância de competências como o pensamento crítico, a capacidade analítica, o domínio da língua, a ética, a conduta profissional e a responsabilidade profissional.
Para Constância de Jesus, o uso da inteligência artificial deve ser acompanhado pela capacidade humana de questionar e verificar a informação.
Para Delfim Oliveira, o jornalista deve compreender as consequências dos acontecimentos para as comunidades.
Xisto Ximenes destacou a necessidade de estudo contínuo, domínio da língua e ligação com as preocupações da população.
A mesa-redonda reforçou, assim, uma das questões levantadas durante a comemoração do décimo aniversário da CLJ: face à transformação tecnológica e à crescente utilização da inteligência artificial, o jornalista do futuro precisará não só de saber utilizar as novas ferramentas, mas também de saber analisar, questionar, verificar e compreender a realidade sobre a qual reporta.
Jornalista: Miguel Caldas
Escrito por RafaFM
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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