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Memória, à Língua e à Resistência no pavilhão de Timor-Leste na Bienal de Veneza com

todayMaio 5, 2026 56 11

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VENEZA, 5 de maio de 2026 (RAFA.TL) – Timor-Leste marca presença pela segunda vez na história na Bienal de Arte de Veneza com um pavilhão que convoca a memória do massacre de Santa Cruz, a resistência cultural e a polifonia linguística do país como fios condutores de uma narrativa identitária plural.

O projeto, intitulado “Across Words”, integra a 61.ª Exposição Internacional de Arte, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 sob o tema geral “In Minor Keys”, e responde a esse mote com uma proposta centrada na recuperação das vozes silenciadas e na preservação das tradições.

O pavilhão está sediado no Arsenale e reúne três artistas de gerações distintas: Verónica Pereira Maia, Etson Caminha e Juventino Madeira.

A curadoria é da italiana Loredana Pazzini Paracciani, especialista em arte do Sudeste Asiático, com mais de 25 anos de investigação na região, e o comissário é Jorge Soares Cristovão, Secretário de Estado das Artes e da Cultura de Timor-Leste.

O conceito curatorial parte de uma reinterpretação contemporânea do Verahana, ritual tradicional executado antes de cerimónias para invocar a força, a proteção e a guia dos antepassados. “Across Words” transforma esse ritual numa trama contemporânea e estratificada de som e luz, que atravessa o pavilhão de ponta a ponta.

No centro da proposta encontra-se uma obra de memória e resistência: “Tais Don”, criada pela tecelã e ativista Verónica Pereira Maia, com mais de 90 anos, para comemorar as 271 vítimas do massacre de Santa Cruz, perpetrado em Díli a 12 de novembro de 1991 durante a ocupação indonésia.

Verónica Pereira Maia inscreveu os nomes das vítimas em cinco painéis de tais – o tecido tradicional timorense – através de uma aproximação ao alfabeto, traduzindo o saber oral e a memória coletiva em forma material.

A obra, que funde artesanato, testemunho e arquivo, é apresentada pela primeira vez na Europa.

Em diálogo com “Tais Don”, as instalações audiovisuais “CUALE (Flow)”, de Etson Caminha, e “Fraze ne’ebé seidauk hotu (An Unfinished Sentence)”, de Juventino Madeira, foram especialmente comissionadas para o pavilhão e exploram a identidade cultural timorense através de um percurso sonoro e visual pela polifonia de línguas e formas comunicativas do país.

A curadora sublinha a singularidade do ecossistema linguístico timorense como fundamento do projeto.

“Uma sociedade fundada na descendência que, desde os tempos ancestrais, fez da parentela e da territorialidade os pilares fundamentais da sua organização social. Neste contexto, a multiplicidade linguística não é um simples subproduto cultural, mas um traço identitário distintivo”, declarou Pazzini Paracciani.

A curadora acrescentou que o pavilhão visa “decolonizar o olhar do observador”, posicionando Timor-Leste não como entidade estática, mas como uma sociedade em permanente evolução.

Durante séculos, o património imaterial timorense foi transmitido verbalmente em mais de trinta línguas locais distintas, sendo apenas no último decénio que o tétum praça passou de idioma exclusivamente oral a língua oficial para usos governamentais, educativos e literários.

A participação de 2026 chega na sequência de uma estreia histórica.

Na 60.ª Bienal, em 2024, Timor-Leste fez a sua primeira aparição no certame veneziano com o projeto “Kiss and Don’t Tell” da artista Maria Madeira, apresentado no Spazio Ravà, no bairro de San Polo, junto ao Canal Grande.

A participação inaugural inseriu-se no tema geral “Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere”, sob curadoria do brasileiro Adriano Pedrosa.

Madeira descreveu então o momento como “um pequeno passo para mim, mas um grande salto para o discurso da arte contemporânea de Timor-Leste”.

A obra fundiu tais, terra vermelha e testemunho pessoal sobre o trauma da ocupação, num espaço que foi amplamente elogiado pela crítica internacional.

Na sequência do sucesso dessa apresentação inaugural, o comissário Jorge Soares Cristovão nomeou Loredana Pazzini Paracciani para conduzir a segunda presença timorense em Veneza, salientando que a curadora “traz uma vasta experiência em exposições de arte contemporânea de nível mundial e um compromisso permanente com a voz e o ponto de vista dos artistas asiáticos”. Pazzini Paracciani afirmou estar “honrada em construir sobre as conquistas de Timor-Leste na Bienal de Veneza de 2024 e em continuar a criar consciência sobre o rico legado criativo do país”.

O pavilhão de Timor-Leste na 61.ª Bienal de Arte de Veneza abre ao público a 7 de maio de 2026, com sessão de vernissage às 11h00.

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Escrito por RafaFM

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