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Megaprojeto do porto de Dawei, em Myanmar, reaviva-se com envolvimento russo, mas dúvidas sobre viabilidade persistem

todayAgosto 27, 2026 12

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Banguecoque, 27 de agosto de 2026 (RAFA) – Myanmar quer reativar o megaprojeto da zona económica especial de Dawei, no sul do país, com o envolvimento da Rússia e renovado interesse da Tailândia, numa iniciativa que poderia oferecer um atalho regional de transporte marítimo através do mar de Andamão.

Concebida há cerca de duas décadas como uma das grandes portas de entrada do Sudeste Asiático, a zona económica especial de Dawei previa a construção de um porto de águas profundas ligado por estrada e ferrovia ao Corredor Económico Oriental da Tailândia.

O projeto permitiria contornar o Estreito de Malaca e encurtar em vários dias o transporte de mercadorias entre o Sudeste Asiático continental e os mercados ocidentais.

Tailândia e Myanmar assinaram um memorando de entendimento em 2008, mas a concessão de desenvolvimento atribuída a um consórcio privado liderado por tailandeses foi rescindida em 2020, após dificuldades de financiamento e desentendimentos.

Naipiedau tenta agora relançar formalmente o projeto, sem ainda ter nomeado publicamente um promotor principal, mas com um parceiro interessado: a Rússia.

Em julho, o Myanmar anunciou estar nas fases finais da definição das fronteiras geográficas do porto, menos de 18 meses depois de Moscovo e Naipiedau assinarem um acordo-quadro de cooperação em investimento que abrange Dawei.

O envolvimento russo alargou-se, entretanto, a propostas para um porto de águas profundas, uma central elétrica de 660 MW, uma refinaria de petróleo e outras indústrias pesadas.

A Tailândia mostra também renovado interesse no projeto, num contexto de aproximação com as autoridades birmanesas sob a liderança do primeiro-ministro Anutin Charnvirakul.

Min Aung Hlaing fez em agosto a sua primeira visita oficial à Tailândia como presidente, tendo os dois países acordado cooperação em ligações rodoviárias, marítimas, portuárias e transfronteiriças, incluindo o corredor de transporte até Dawei, a cerca de 140 quilómetros a oeste da fronteira tailandesa.

Segundo Ian Storey, investigador principal do instituto ISEAS-Yusof Ishak, em Singapura, citado pela CNA, a Rússia tornou-se um aliado útil para o Myanmar desde o golpe de Estado de 2021 e o isolamento internacional que se seguiu, procurando o país como parceiro pela sua localização, recursos e potencial enquanto cliente energético.

Storey afirmou que Dawei daria à Rússia um ponto de apoio no mar de Andamão e acesso ao oceano Índico e ao Estreito de Malaca, sendo particularmente útil como porto de escala para submarinos russos em trânsito entre os oceanos Pacífico e Índico.

Apesar do fornecimento russo de aviões de combate, helicópteros e drones ao Myanmar, segundo uma investigação de um relator especial da ONU, e da promessa de construção de um pequeno reator modular em Naipiedau, Moscovo ainda não concretizou qualquer grande projeto de desenvolvimento no país.

Vários analistas questionam se a Rússia teria capacidade para financiar e coordenar a escala de investimento necessária para tornar viável o projeto mais amplo, nomeadamente Ruth Banomyong, professor da Universidade Thammasat, em Banguecoque, que classificou a dimensão russa como “bastante rebuscada” e alertou que interesse político não deve ser confundido com compromisso de investimento financiável.

A zona costeira birmanesa junto a Dawei mantém-se, entretanto, sob forte conflito armado.

Agências internacionais noticiaram que Myanmar destacou centenas de soldados desde julho para desocupar à força áreas destinadas à zona económica especial, com relatos de queima de aldeias e isolamento de terrenos por parte de combatentes de resistência e um ativista local.

Um relatório da organização ETOs Watch, referente ao final de 2025, encontrou edifícios de escritórios abandonados dentro da zona económica especial e confrontos frequentes entre forças militares e grupos de resistência locais.

O coordenador da ETOs Watch Coalition, Teerachai Sanjaroenkijthaworn, afirmou que a entrada da Rússia no projeto serve sobretudo para reequilibrar as relações externas do Myanmar face à influência económica da China, que respondeu por quase metade dos novos investimentos estrangeiros no país entre 2021 e 2025, segundo o centro de estudos ISP-Myanmar.

Segundo Jared Bissinger, investigador visitante do programa de estudos sobre o Myanmar do ISEAS-Yusof Ishak, o projeto Dawei só é “provavelmente viável para um investidor apoiado pelo Estado”, dado o ambiente de negócios pouco melhorado pelo atual regime militar.

O projeto surge ainda pouco depois de a Tailândia ter suspendido, no final de julho, o megaprojeto rival da “Land Bridge”, uma ligação de 90 quilómetros entre portos no golfo da Tailândia e no mar de Andamão avaliada em 30 mil milhões de dólares, após uma revisão governamental ter questionado a sua viabilidade comercial e alertado para riscos financeiros e ambientais.

Ruth considerou “estranha” a coincidência temporal entre os dois processos, sugerindo que Dawei ofereceu um resultado concreto para anunciar após a visita a Moscovo do ministro dos Negócios Estrangeiros tailandês, Sihasak Phuangketkeow.

Segundo o diretor de Projetos Especiais e Mobilização de Recursos do Instituto Mekong, Madhurjya Dutta, um eventual desenvolvimento de Dawei poderia também beneficiar o Camboja e o Vietname, ao oferecerem-lhes uma via terrestre alternativa de acesso ao oceano Índico através da Tailândia, complementar às rotas marítimas já existentes.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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