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Díli, 7 de setembro de 2026 (RAFA) – O Programa de Monitorização do Sistema Judicial (JSMP) apontou o que considera ser falta de transparência no concurso a juízes do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal de Recurso, por não prever a publicação da classificação final.
A posição da JSMP é detalhada numa carta, datada de 4 de setembro, dirigida ao presidente da Comissão de Recrutamento e Seleção, Avelino Maria Coelho da Silva “Shalar Kossi FF”, e aos restantes membros da comissão, Carmelita Caetano Moniz e José Pedro Mariano Neves Camões.
No documento, o JSMP reconhece “esforço institucional” no aviso de abertura do concurso, mas manifesta “preocupação séria” com a falta de transparência mínima no processo de recrutamento e seleção de juízes para os dois tribunais superiores.
É dado conhecimento da carta ao Presidente da República, José Ramos-Horta, à Presidente do Parlamento Nacional, Maria Fernanda Lay, ao presidente da Comissão A do Parlamento, Natalino do Nascimento, ao Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, Virgílio da Silva Guterres “Lamukan”, e à coordenadora do Grupo de Trabalho da Reforma do Setor da Justiça, Lúcia Lobato.
A organização começa por elogiar vários aspetos do aviso de abertura, nomeadamente “a definição clara e transparente dos critérios de avaliação e da sua ponderação, a fixação de prazos certos para cada fase, a correção anónima nas provas escritas e a previsão de mecanismos de reclamação em momentos claros e não coincidentes no procedimento”.
Segundo o JSMP, “estes elementos traduzem esforço institucional que merece reconhecimento e apreciação pública”, não existindo “dúvida alguma quanto à idoneidade e competência dos membros do Júri Internacional e da Comissão, e à sua integridade”.
Contudo, o JSMP identifica um problema central: segundo os pontos 63 a 66 do aviso de abertura, “a lista de graduação final não é publicada pelo Júri”, sendo apenas remetida diretamente à Comissão.
A comissão comunica a lista através de relatório escrito ao Presidente da República e ao Parlamento Nacional, encaminhando-a ainda ao Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) – mas nunca é publicado o resultado final do processo de recrutamento e seleção.
O único elemento tornado público, considera a JSMP, é a deliberação de nomeação do CSMJ, e não o resultado do concurso que, por lei, deve servir de base a essa nomeação.
Segundo a carta, na fase final do procedimento “não existirá qualquer documento público que permita comparar a graduação ou classificação que o Júri determina com a nomeação que o CSMJ faz”, nem será possível verificar “se a decisão do CSMJ reflete efetivamente o resultado do processo baseado no mérito realizado pelo júri internacional”.
A correspondência entre uma decisão e outra “só será conhecida pelos próprios órgãos que participam no procedimento” – o Júri, a Comissão e o CSMJ.
O JSMP nota ainda que o aviso “determina com clareza que cada candidato só tem acesso à lista de graduação ou classificação completa depois de apresentar reclamação sobre o seu resultado individual”.
Como a classificação, “pela sua natureza, é um resultado relacional” – o candidato é posicionado com base no resultado entre todos, havendo um número limitado de vagas.
Ao receber apenas o seu resultado isolado, sustenta, “o candidato pode confirmar a soma das componentes, mas não pode verificar se a ordenação face aos valores de terceiros está correta, nem saber se há empates ou valores iguais, nem controlar se os critérios de desempate foram aplicados corretamente”.
Segundo a organização, isto esvazia o direito de reclamação previsto no próprio aviso: “faltarão elementos que a tornem efetiva”.
A carta assinala ainda que o primeiro critério de desempate é o resultado da prova escrita – “uma componente cujo valor numérico específico não é comunicado a ninguém”, recebendo os candidatos apenas um intervalo qualitativo e o público apenas a indicação de apto ou não apto.
O JSMP avalia que, por os candidatos virem “geralmente da mesma formação, que o Centro de Formação Jurídica e Judiciária fornece, e terem antiguidade semelhante”, existe “grande possibilidade de que as notas da prova escrita dos candidatos sejam próximas e que a classificação se decida por diferenças mínimas”.
Assim, “o elemento com maior probabilidade de ser decisivo é o elemento mantido em maior sigilo, tanto perante o público como perante os próprios candidatos”, considera.
A organização sublinha que reconhece que os candidatos são magistrados que continuarão a exercer funções judiciais no futuro, pelo que “não solicita a publicação da nota individual dos candidatos”, já que a divulgação pública dessa nota poderia afetar a confiança dos cidadãos no sistema de justiça e implicar dúvidas sobre o mérito e a autoridade das decisões que esses magistrados venham a tomar no futuro.
Por isso, defende antes “uma solução intermédia” que assegure simultaneamente a necessidade de preservar o sigilo individual da nota de cada candidato e de promover transparência mínima no processo.
Com base nestas preocupações, o JSMP dirige à Comissão de Recrutamento e Seleção cinco recomendações: que o Júri Internacional publique, pelos meios já usados nas fases anteriores, a lista de classificação nominal final, sem nota específica por candidato, “à semelhança da prática seguida em processos idênticos em Portugal”.
Pede ainda que o Júri comunique a todos os candidatos a lista de classificação completa, com os valores das três componentes e a classificação final de todos, sob dever de confidencialidade, ou, em alternativa, com identificação dos candidatos através de código.
Defende ainda que, depois de decididas todas as reclamações, o Júri partilhe com todos os candidatos a lista de classificação revista, e não apenas a decisão individual aos que reclamaram, já que a decisão de uma reclamação pode alterar a posição de outros candidatos.
Finalmente argumenta que a Comissão deve publicar a lista que transmite ao CSMJ, para que seja possível verificar que o documento que fundamenta a nomeação corresponde ao resultado determinado pelo Júri e que a Comissão altere o aviso de abertura, publicando essa alteração no Jornal da República, para integrar as medidas recomendadas.
O JSMP sublinha que todas as medidas recomendadas ocorrem depois da realização e correção das provas, pelo que nenhuma delas afeta a igualdade entre candidatos nem o anonimato da correção das provas.
A organização apresenta as recomendações “com espírito de colaboração institucional”, reconhecendo o trabalho já feito no âmbito deste processo, que, segundo a diretora executiva do JSMP, Ana Paula Marçal, “será precedente que orientará todos os concursos futuros”.
O concurso para o preenchimento de 15 vagas de juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça e do novo Tribunal de Recurso foi aberto em 1 de julho, sendo conduzido pela Comissão de Recrutamento e Seleção com apoio de um júri internacional composto por magistrados portugueses aposentados, indicados pelo Conselho Superior da Magistratura de Portugal.
FIM
Escrito por RafaFM
JSMP aponta “falta de transparência” no concurso de juízes ao Supremo Tribunal de Justiça
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