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Jovens timorenses criam soluções tecnológicas para transformar o país e conquistar espaço internacional

todayOutubro 25, 2026 58 1

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Díli, 25 de outubro de 2026 (RAFA) – Jovens timorenses estão a desenvolver soluções tecnológicas para enfrentar alguns dos maiore desafios nacionais, desde a gestão de resíduos e educação à segurança digital, administração pública e preservação das línguas maternas.

Vários destes projetos foram apresentados este fim de semana no Dili Hacktoberfest 2026, realizado no âmbito da celebração global do Hacktoberfest, com o apoio da Major League Hacking (MLH) e da DigitalOcean.

Organizado por Ajito Nelson, Marfilho Fidel, Verónica Baptista e João Nahak, o evento reuniu 30 participantes inscritos, na sua maioria estudantes de engenharia, segundo Verónica Baptista.

A responsável explicou à RAFA que o “Dili Hacktoberfest 2026” se realiza primeira vez em Timor-Leste, com o objetivo é reunir os jovens, partilhar experiências e criar contatos para que se possam ajudar mutuamente, sobretudo numa altura em que a inteligência artificial está a transformar o mundo.

A organizadora destacou ainda a importância de incentivar a participação feminina na tecnologia. Para Verónica Baptista, o evento não deve pertencer apenas aos organizadores: os próprios participantes podem organizar futuras edições e escolher novos temas.

Marfilho Fidel explicou, por seu lado, que o Dili Hackathon junta jovens com iniciativa para aproximar a tecnologia da comunidade.

Na sua visão, “o conhecimento perde parte do seu potencial quando permanece restrito a quem o possui, sem ser partilhado com os outros”.

O objetivo, acrescentou, é reunir jovens talentosos e apaixonados pela tecnologia, permitindo-lhes aprender juntos, desenvolver projetos e contribuir para o bem comum.

Marfilho espera que o evento produza resultados concretos e ajude a projetar o nome de Timor-Leste no panorama internacional.

Para isso, defende a colaboração entre os participantes, em vez da competição baseada na ideia de que alguém sabe sempre mais do que os outros.

Entre os projetos apresentados está o SIGAP Foun, um sistema desenvolvido por cidadãos timorenses na Comissão da Função Pública para recolher dados sobre os funcionários públicos.

Marfilho Fidel afirmou que a plataforma já regista mais de 50 mil funcionários públicos e mais de 120 instituições, sendo que mais de 80% delas têm acesso ao sistema, sendo possível aceder também aos servidores via telemóvel.

O projeto começou a ser desenvolvido pela própria equipa em 2022, depois de Fidel ter integrado a Comissão da Função Pública. Como explicou, anteriormente, quando era necessário adicionar funcionalidades ao sistema desenvolvido por uma empresa, o Estado tinha de suportar custos adicionais.

Assim, a equipa começou a desenvolver a sua própria solução. O sistema também utiliza inteligência artificial para ajudar a identificar certos problemas, mas Marfilho realçou que a tecnologia não deve substituir a tomada de decisões humanas: a IA presta assistência, enquanto a equipa continua responsável pelas decisões.

Hugo Moniz apresentou o Education OS, um sistema operativo gratuito baseado em Debian e desenvolvido em Timor-Leste para apoiar a educação digital e facilitar o acesso a ferramentas informáticas.

O projeto surgiu da preocupação com a falta de computadores nas escolas, o custo das licenças de software e as dificuldades de acesso à internet, incluindo ligações lentas.

Hugo explicou que sonhava com esta iniciativa há muito tempo e que o projeto começa a tornar-se uma realidade à medida que a conectividade melhora.

A plataforma visa disponibilizar recursos de aprendizagem para línguas como o indonésio, o português, o coreano e o japonês, bem como conteúdos sobre Timor-Leste. O lançamento está previsto para novembro de 2026.

Por ser de código aberto, o sistema pode ser descarregado, testado e modificado pelos utilizadores de acordo com as suas necessidades.

O objetivo é permitir que mais pessoas acedam à tecnologia educativa sem depender exclusivamente de soluções comerciais.

Binsar de Jesus, representante da comunidade Wikimedia em Timor-Leste, apresentou um projeto com o objetivo de promover e preservar as línguas nacionais através das plataformas Wikimedia.

O representante explicou que a iniciativa procura salvaguardar e preservar as línguas maternas, incluindo as que estão em risco de desaparecer.

“Se não promovermos a nossa língua, quem o fará?”, questionou Binsar, defendendo a necessidade de valorizar o património linguístico do país.

Nesta fase, o trabalho centra-se no tétum, com o intuito de, posteriormente, desenvolver iniciativas para outras línguas maternas.

Um dos desafios é a existência de diferentes variedades do tétum e a discussão sobre qual a forma de escrita que deve ser considerada correta.

Roberto Nunes partilhou a sua transição da engenharia civil para a cibersegurança, área que começou a estudar de forma autodidata durante a pandemia de COVID-19.

O seu interesse por hackers também surgiu dos filmes que costumava ver. Roberto explicou que nem todos os hackers agem de forma criminosa: existem profissionais que identificam vulnerabilidades para testar e melhorar a segurança dos sistemas, desde que trabalhem com autorização.

A sua trajetória inclui atividades de recompensa por bugs, nas quais os participantes identificam falhas de segurança em programas autorizados.

Para Roberto, a cibersegurança necessita de uma maior atenção em Timor-Leste, incluindo através de testes de intrusão e auditorias de segurança que permitam a deteção precoce de problemas.

Em relação à inteligência artificial, deixou uma mensagem clara: “A IA é copiloto, não piloto”. Na sua perspetiva, a tecnologia deve ajudar as pessoas a realizar o seu trabalho, sem substituir o seu papel.

Roberto atribui o seu percurso à consistência, à vontade de aprender e à prática contínua. O que começou por ser um interesse pessoal tornou-se também uma área com potencial profissional.

Ajito Nelson apresentou o EcoLafaek, um sistema baseado em inteligência artificial que procura resolver os desafios da gestão de resíduos em Timor-Leste.

A plataforma permite que os cidadãos comuniquem problemas relacionados com resíduos através de uma aplicação móvel.

Os dados são depois organizados num painel analítico, auxiliando as autoridades na identificação de problemas e no apoio às decisões sobre a gestão de resíduos.

Ajito afirmou que o projeto lhe permitiu vencer uma competição internacional de inteligência artificial que reuniu 9.500 participantes.

Segundo o próprio, o objetivo inicial não era vencer, mas sim participar e aprender.

A experiência demonstra como uma iniciativa local pode utilizar ferramentas de inteligência artificial para procurar soluções para um problema que afeta as comunidades.

João Nahak, responsável pela área de Internet das Coisas (Internet of Things, ou IoT) na Similie, apresentou a experiência de desenvolvimento e instalação de equipamentos para monitorização ambiental.

De acordo com informações fornecidas, foram instaladas mais de 60 estações em oito municípios de Timor-Leste, fornecendo dados em tempo real que podem ajudar a proteger as comunidades vulneráveis ​​contra inundações e secas.

Apesar do progresso, o João identificou vários obstáculos. Alguns equipamentos foram danificados após a instalação, mesmo após campanhas de sensibilização nas comunidades. Noutros locais, a falta de cobertura de rede dificulta o funcionamento dos dispositivos.

O responsável explicou que o equipamento já foi testado nas redes da Telemor e da Telkomcel, com resultados positivos, mas a manutenção continua a ser um desafio.

Quando surge um problema, a equipa precisa de encontrar a solução por conta própria, uma vez que se trata de tecnologia desenvolvida localmente e nem sempre há tutoriais ou documentação disponíveis.

O projeto já foi apresentado no Camboja e na Nova Zelândia, e a equipa mantém colaborações com universidades estrangeiras.

Apesar da falta de recursos, João defendeu que a vontade de aprender e o esforço são fundamentais para o desenvolvimento de competências tecnológicas no país.

Através da Academia Similie, o trabalho procura também fortalecer as competências digitais dos jovens timorenses e contribuir para uma geração de inovadores locais.

Para além de apresentações técnicas, Verónica Baptista partilhou a sua experiência na criação de conteúdos educativos em inglês.

Contou que dedicou três anos à aprendizagem da língua e decidiu criar um podcast para ajudar outros timorenses a aprender através de conversas e entrevistas.

Apesar das dúvidas de algumas pessoas sobre o interesse do público pelos conteúdos educativos, afirmou que continuou a trabalhar no projeto com o objetivo de inspirar os jovens.

Segundo Verónica Baptista, o podcast “Becoming with Verónica Baptista” alcançou 31.984 visualizações e mais de 2.000 subscritores nos dois primeiros meses.

O canal já está monetizado e entrevistou várias personalidades e líderes do país, entre os quais o ex-primeiro-ministro Rui Maria de Araújo.

A apresentadora está também a escrever um livro.

Na sua experiência, a autoconfiança e as competências de comunicação são fundamentais.

Defende que é necessário acreditar nas próprias capacidades, ouvir diferentes opiniões para melhorar e não deixar que o julgamento dos outros impeça a concretização de ideias.

Os projetos apresentados no Dili Hacktoberfest 2026 demonstram diferentes formas de utilizar a tecnologia para satisfazer as necessidades nacionais.

No entanto, os responsáveis ​​reconhecem desafios como a falta de recursos, as limitações de conectividade, a manutenção dos equipamentos e a necessidade de formação.

Mais do que simplesmente aprender a utilizar ferramentas desenvolvidas no estrangeiro, estes jovens procuram criar soluções baseadas na realidade timorense.

A experiência mostra que a inovação nacional depende não só da tecnologia disponível, mas também da partilha de conhecimento, da colaboração e da vontade de transformar ideias em soluções concretas para a sociedade.

Jornalista: Miguel Caldas

 

 

Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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