Destaques

Guterres visita Haiti em plena crise humanitária: 1,5 milhões de deslocados e violência de gangs sem trégua

todayJunho 17, 2026 3

Fundo
share close

Porto-Príncipe, 17 de junho de 2025 (RAFA.TL) – O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, visitou o Haiti na terça-feira, país onde a violência crescente de gangs deixou mais de um em cada dez habitantes sem casa.

Novos dados divulgados pela ONU revelam que 2.300 pessoas foram mortas no Haiti desde o início do ano, outras 100 foram sequestradas e 1,5 milhões encontram-se deslocadas.

Entre os raptados figura James Boyard, diretor de gabinete do Ministério da Defesa, sequestrado na semana passada numa das poucas zonas relativamente seguras da capital.

A visita de um dia a Porto-Príncipe surge depois de mais de 30 pessoas terem morrido, ficado feridas ou desaparecido no último fim-de-semana em Cité Soleil, um bairro degradado junto ao mar, segundo a organização de direitos humanos Cooperative for Peace and Development.

A coluna do secretário-geral percorreu um bairro outrora dominado por gangs, marcado por concessionárias automóveis destruídas, habitações abandonadas e dezenas de edifícios de betão crivados de buracos de bala.

Numa parede de betão em ruínas, uma inscrição proclamava: “Abaixo a Viv Ansanm, longa vida à polícia.”

A federação de gangs Viv Ansanm – designada organização terrorista estrangeira pelo governo norte-americano – estima-se que controle 70% de Porto-Príncipe.

Mais de 300.000 pessoas foram deslocadas pela violência de gangs na capital, um número recorde, incluindo mais de 18.000 que fugiram de Cité Soleil em maio, segundo a Organização Internacional para as Migrações da ONU.

“A crise de deslocação no Haiti está a entrar numa fase ainda mais alarmante”, afirmou Gregoire Goodstein, chefe de missão da OIM no Haiti.

Guterres visitou a sede da nova força de supressão de gangs, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU em setembro, que substitui uma missão liderada pela polícia do Quénia.

Até ao momento, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala implantaram tropas que totalizam menos de mil efetivos, com o início de operações previsto para as próximas semanas.

Em reunião com o primeiro-ministro Alix Didier-Fils-Aimé, Guterres discutiu a situação do país de quase 12 milhões de habitantes, sem presidente desde o assassínio de Jovenel Moïse em julho de 2021.

“Tivemos uma conversa franca sobre o que está a acontecer no Haiti e a visão que o governo tem para o futuro”, afirmou Fils-Aimé à AP após o encontro, acrescentando que a segurança é uma prioridade para que o governo de transição possa realizar eleições e “regressar ao regime republicano”.

O primeiro-ministro apelou ainda a Guterres para que os países que apoiam a força de supressão de gangs “cumpram os seus compromissos”.

O secretário-geral visitou também um abrigo improvisado numa antiga escola, onde mais de 1.200 pessoas dormem lado a lado, com apenas uma refeição diária garantida.

Alguns dos deslocados vivem ali há quatro anos, depois de as suas comunidades terem sido atacadas e incendiadas por gangs.

“Solino ainda não está pronta”, afirmou Clifford Lala, 31 anos, referindo-se à sua comunidade, um dos últimos redutos da capital antes de ser tomada pelos gangs.

Wendy Cejour, 26 anos, que vive na antiga escola há um ano e meio com a família, apelou ao regresso ao bairro.

“Enquanto estivermos vivos temos esperança, mas as coisas são difíceis”, disse à AP. “Pedimos para regressar ao nosso bairro para viver melhor, porque aqui não temos vida.”

Dentro da escola, um grupo de mulheres reuniu-se em privado com Guterres e denunciou a falta de privacidade no abrigo, mesmo para tomar banho ou usar a casa de banho, manifestando preocupação com os filhos mais novos.

“É pele com pele e boca com boca”, descreveu uma das mulheres. Guterres respondeu: “Faremos o nosso melhor.”

À saída, um homem começou a bater nas chapas metálicas do edifício, gritando: “Queremos regressar a casa!”

“O que vi não me vai abandonar”, afirmou Guterres. “Cada dia é uma luta para sobreviver. As mulheres e as crianças pagam o preço mais alto.”

Um dia antes da visita, a Human Rights Watch publicou uma carta apelando a Guterres que protegesse a população e combatesse as causas profundas da violência e das violações dos direitos humanos.

FIM

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!