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Estudo inédito revela resistência crescente a antibióticos em bactérias hospitalares em Timor-Leste

todayAgosto 25, 2026 49 2

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Díli, 25 de agosto de 2026 (RAFA) – Um estudo publicado na revista científica The Lancet revela níveis elevados de resistência a antibióticos em bactérias hospitalares timorenses, incluindo o primeiro registo de resistência crescente a carbapenemas em Escherichia coli no país.

O estudo analisou retrospetivamente 4.169 isolados bacterianos recolhidos entre junho de 2020 e janeiro de 2025, provenientes do HNGV, de cinco hospitais de referência municipais e de centros de saúde comunitários em todo o país.

A maioria dos isolados (58%) foi recolhida em doentes internados, sendo o sangue a amostra mais comum (37%), seguido de feridas e pus (27%) e urina (14%).

O estudo foi coordenado por investigadores da Menzies School of Health Research (Austrália) em parceria com o Laboratório da Saúde do Instituto Nacional de Saúde Pública de Timor-Leste (INSP-TL) e o Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV),

A bactéria mais frequentemente isolada foi o Staphylococcus aureus (23% do total), seguido de Escherichia coli (15%), Pseudomonas aeruginosa (13%) e Klebsiella pneumoniae (13%).

Os resultados mostram uma baixa suscetibilidade a antibióticos de terceira geração entre bactérias da família Enterobacterales, particularmente preocupante em K. pneumoniae, que registou apenas 25% de suscetibilidade à ceftriaxona, e em E. coli, com 65%.

A suscetibilidade à combinação amoxicilina-ácido clavulânico foi ainda mais baixa em ambas as bactérias (25% e 22%, respetivamente).

Foi ainda detetada resistência a carbapenemas em 235 isolados, dos quais 29% eram Acinetobacter baumannii multirresistente e 23% eram E. coli.

Uma das descobertas mais significativos do estudo foi a deteção de uma tendência estatisticamente significativa de aumento da resistência aos carbapenemas em E. coli: a suscetibilidade ao meropenem, um dos antibióticos de última linha, caiu de 100% em 2020 para 87% em 2024.

Segundo os autores, tratou-se do primeiro relato de resistência a carbapenemas em Enterobacterales em Timor-Leste, um desenvolvimento que classificam como “um desafio clínico urgente”, uma vez que a resistência a esta classe de fármacos estava até agora confinada ao Acinetobacter baumannii, cujo primeiro isolado produtor da enzima NDM-1 foi identificado no país em 2020.

Os autores notam ainda que a repetida identificação de A. baumannii resistente ao meropenem ao longo do período do estudo sugere que este organismo poderá já ser endémico no HNGV.

O estudo identificou também que a resistência era consistentemente mais elevada entre doentes internados e em unidades de cuidados intensivos do que entre doentes tratados em ambulatório, um padrão que os autores associam a uma maior pressão de seleção hospitalar.

A suscetibilidade à ceftriaxona em E. coli e K. pneumoniae diminuiu progressivamente do ambulatório para as urgências, internamento geral e cuidados intensivos – de 77% para 31% em E. coli, e de 39% para 18% em K. pneumoniae.

Já a suscetibilidade ao meropenem em A. baumannii caiu de 100% em ambulatório para 30% em cuidados intensivos.

Um agrupamento de casos de K. pneumoniae resistente a carbapenemas foi identificado em janeiro de 2025, associado a um surto numa unidade de cuidados intensivos pediátricos, com 16 isolados resistentes detetados num único mês – um valor que os investigadores tratam separadamente na análise, por poder distorcer as tendências gerais caso fosse incluído nos dados anuais.

Por outro lado, o estudo aponta para uma evolução mais favorável na Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), cuja prevalência desceu de 20,5% em 2020 para 13,2% em 2024, mantendo-se a bactéria predominantemente sensível à meticilina (83% dos casos) e totalmente sensível à vancomicina.

Os investigadores associam parte dos resultados a fatores demográficos e clínicos: a suscetibilidade à ceftriaxona e ao meropenem em E. coli foi significativamente mais baixa em doentes do sexo masculino do que em mulheres, mesmo quando restrita a isolados urinários, um padrão que os autores admitem não conseguir explicar de forma definitiva na ausência de dados clínicos mais detalhados, mas que pode refletir maior exposição prévia a cuidados de saúde ou uso de antibióticos entre homens.

Já a resistência à ceftriaxona em K. pneumoniae foi mais elevada entre crianças e recém-nascidos do que entre adultos, provavelmente associada a surtos em unidades de cuidados intensivos neonatais e pediátricos.

Em contraste, a resistência à meticilina em S. aureus foi mais comum em adultos do que em crianças ou recém-nascidos, um padrão mais associado a fatores de risco típicos da população adulta, como hospitalizações prévias, feridas crónicas ou uso repetido de antibióticos.

O estudo identificou ainda um resultado inesperado relativo ao Haemophilus influenzae, com apenas 62% de suscetibilidade à amoxicilina-ácido clavulânico – um valor invulgarmente baixo, uma vez que estirpes produtoras de beta-lactamase costumam ser sensíveis a esta combinação. Os autores admitem não conseguir excluir por completo fatores laboratoriais para explicar este resultado, recomendando testes adicionais de beta-lactamase e vigilância continuada desta bactéria no país.

Segundo o artigo, Timor-Leste “fez progressos consideráveis” no reforço da capacidade laboratorial de diagnóstico desde 2020, com a introdução de tecnologia de identificação bacteriana por espectrometria de massa (MALDI-ToF), sistemas automatizados de testes de suscetibilidade e um sistema informático de gestão laboratorial, permitindo que o país contribuísse pela primeira vez, em 2020, para o sistema global de vigilância de resistência antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (GLASS).

As submissões de amostras ao laboratório de referência em Díli mais do que duplicaram no período do estudo, de uma média de 330 por mês em 2021 para 810 por mês em 2024.

Os autores alertam, no entanto, para desafios sistémicos que persistem no país, incluindo a ausência de mecanismos formais para regular o acesso a antibióticos de reserva, o que tem contribuído para o uso alargado de carbapenemas e cefalosporinas de terceira geração “muitas vezes sem supervisão formal de prescrição”.

Referem que um Comité de Gestão de Antibióticos está agora a ser criado no HNGV, mas que a monitorização coordenada do uso de antimicrobianos ainda estava em desenvolvimento durante o período estudado.

Defendem investimento sustentado na prevenção e controlo de infeções, na gestão responsável de antibióticos e no reforço contínuo da capacidade laboratorial, sublinhando que o acesso a antibióticos mais recentes para tratar organismos resistentes a carbapenemas “pode tornar-se cada vez mais importante”, desde que acompanhado de quadros regulatórios que evitem uma maior amplificação da resistência.

Os investigadores reconhecem várias limitações ao estudo, nomeadamente o facto de a maioria dos isolados provir de um único centro hospitalar de referência, o que pode não representar a realidade de outras unidades de saúde do país, e a ausência de dados clínicos sobre tratamentos, comorbilidades ou desfechos dos doentes, o que limita a interpretação do impacto clínico dos padrões de resistência identificados.

O estudo foi financiado pelo Fleming Fund do Reino Unido, um programa de ajuda britânico dedicado ao combate à resistência antimicrobiana em até 25 países de África e da Ásia.

FIM

Escrito por RafaFM

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