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Estudo identifica um “indonésio timorense” próprio entre alunos de escola de Díli, moldado pela influência do tétum

todaySetembro 3, 2026 203 5

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Díli, 03 de setembro de 2026 (RAFA) – Um estudo académico identifica um indonésio com padrões fonéticos e morfológicos próprios entre alunos de uma escola secundária de Díli, marcado por influências sistemáticas do tétum.

O estudo, publicado este mês, nota que apesar do uso e conhecimentos do indonésio, os jovens da escola da capital continuam fiéis ao código-misto tétum-português no seu dia a dia.

O estudo, intitulado “The Dynamics of Indonesian Language Use Among Students of Ensino Secundario São Pedro School, Dili, Timor-Leste”, foi conduzido por investigadores da Universidade Warmadewa, em Bali, Indonésia, em colaboração com um docente do Instituto Superior Cristal, em Díli, e publicado na edição de setembro do Journal of Language Teaching and Research.

A investigação baseou-se em questionários, entrevistas e observação direta junto de 30 alunos do Ensino Secundário São Pedro.

Segundo os autores, a produção do indonésio pelos alunos timorenses revela um sistema linguístico próprio e consistente, moldado pela interferência fonológica do tétum e do português. Entre os padrões identificados está a substituição do som nasal “n” pelo som “ng” no final das palavras – por exemplo, “mendapatkang” em vez de “mendapatkan” (“conseguir”) ou “bangung” em vez de “bangun” (“acordar”).

Notam ainda a supressão de sons finais, como o “h”, que faz de “rumah” (casa) “ruma” ou de “sudah” (já) “suda”.

Os investigadores identificam ainda a substituição da semivogal “y” pelo som “i”, como em “iang” em vez de “yang” (“que”), e variações na conjugação de verbos com prefixos e sufixos indonésios, como “belajarin” em vez de “mengajari” (“ensinar”).

Os autores sublinham que estas variações não devem ser lidas como erros, mas como uma “interlíngua” sistemática e comunicativamente eficaz, resultante do contacto intenso entre várias línguas na sociedade timorense.

Os alunos recorrem ainda com frequência à mistura de vocábulos de português e inglês dentro de frases em indonésio, como “financas”, “militar”, “business woman” ou “mobile legend”, associados sobretudo a profissões, tecnologia e entretenimento.

Apesar destas marcas de contacto linguístico, o estudo conclui que o código-misto tétum-português continua a dominar praticamente todos os domínios de comunicação dos jovens inquiridos.

Este padrão de código-misto foi registado em 100% das interações com o pai, 86,67% com a mãe e 90% com irmãos, e atinge também 100% nas interações com professores de disciplinas gerais e com colegas de escola.

Segundo os autores, esta dominância sugere que o português mantém um estatuto de prestígio, autoridade e herança colonial fortemente enraizado nas práticas comunicativas da geração mais jovem, sendo o seu uso em casa frequentemente imposto pelos próprios pais como forma de reforçar a identidade nacional dos filhos.

O indonésio surge, em contraste, associado a contextos muito específicos: 100% dos alunos afirmam usá-lo ao comunicar com indonésios recém-chegados a Timor-Leste, 66,67% com comerciantes indonésios, e 53,33% durante as aulas da disciplina de língua indonésia.

Já nas interações com indonésios residentes há mais tempo no país, o padrão dispersa-se entre português-tétum (46,67%), tétum-indonésio (26,67%) e indonésio (10%), o que os investigadores associam à duração do contacto social como fator de estabilização da escolha linguística.

O estudo constata ainda uma desconexão entre a atitude positiva dos jovens face ao indonésio e o seu uso reduzido no quotidiano.

Os inquiridos manifestam-se, de forma consistente, positivos em relação à língua: 80% discordam totalmente ou discordam de que o indonésio seja difícil de dominar, 76,67% rejeitam a ideia de que os falantes de indonésio pareçam arrogantes, e a totalidade dos alunos afirma gostar de entretenimento ou música em indonésio.

Ainda assim, essa recetividade não se traduz em uso efetivo da língua fora dos contextos formais ou de contacto direto com falantes indonésios.

Os autores enquadram este achado no contexto da política linguística de Timor-Leste, que desde a independência, em 2002, consagra o tétum e o português como línguas oficiais, e o inglês e o indonésio como línguas de trabalho.

Segundo o estudo, mais de duas décadas depois do fim da ocupação indonésia (1975-1999), os jovens de Díli – filhos de uma geração educada em indonésio durante a ocupação – tratam hoje essa língua sobretudo como um recurso instrumental, útil para estudos ou emprego futuro na Indonésia, sem que funcione como marcador de identidade.

Os investigadores concluem que a identidade etnolinguística continua a ser o fator dominante na escolha da língua entre os jovens timorenses, com o indonésio a posicionar-se como um recurso linguístico adicional, de orientação essencialmente pragmática.

Jornalista: António Sampaio

 

Escrito por RafaFM

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