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Especialistas acusam Woodside de subestimar risco de derrame de petróleo que poderia atingir Timor-Leste

todayAgosto 24, 2026 84

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Díli, 24 de agosto de 2026 (RAFA) – Especialistas, pescadores e ambientalistas acusam a petrolífera Woodside de subestimar o risco de um derrame de petróleo no projeto de gás Browse, na Austrália Ocidental, com impactos que poderiam chegar a Timor-Leste, avança a ABC News.

O projeto, avaliado em 30 mil milhões de dólares, está atualmente a ser avaliado pela Autoridade de Proteção Ambiental da Austrália Ocidental (EPA), depois de a Woodside ter alterado a proposta no ano passado, na sequência de uma rejeição preliminar.

A empresa deslocou um centro de perfuração para longe de zonas críticas de nidificação de tartarugas e reduziu a área total do projeto, numa tentativa de minimizar a probabilidade de um derrame que, segundo o próprio relatório inicial da Woodside à EPA, poderia ser “catastrófico”.

Segundo simulações da própria empresa, citadas pela ABC News, um rebentamento de um poço em Browse poderia libertar quase 900 mil barris de condensado ao longo de 77 dias – cerca de 30 vezes mais do que o derrame de Montara em 2009, um dos piores desastres petrolíferos em águas australianas.

Um cenário deste tipo poderia espalhar-se por oito recifes, nove parques marinhos e três Áreas Protegidas Indígenas, com impactos que a Woodside descreveu como “severos e potencialmente irreversíveis”, capazes de chegar até à Indonésia e a Timor-Leste e de matar corais e animais marinhos, incluindo baleias.

A empresa considera, no entanto, que um cenário catastrófico é “altamente improvável”, defendendo que o mais “credível” seria um derrame de cerca de 5.600 barris de condensado junto ao Recife de Scott, no Mar de Timor, ao longo de 12 horas.

Scott Reef é o maior recife oceânico autónomo da Austrália e um refúgio para milhares de espécies marinhas e aves costeiras.

Para mitigar os efeitos de um eventual derrame, a Woodside afirma dispor de várias estratégias, incluindo um sistema duplo de “shear rams” pirotécnicos – uma tecnologia recente que usa explosivos controlados para cortar e selar quase instantaneamente um poço ou tubo de perfuração comprometido.

Mas essa solução é contestada por especialistas.

O consultor ambiental norte-americano Rick Steiner, que trabalha em grandes operações de limpeza desde o derrame do Exxon Valdez, no Alasca, em 1989, alertou que os métodos de contenção da Woodside não têm garantia de funcionamento, recordando que, no acidental derrame marinho mais grave de sempre, em Deepwater Horizon, um sistema diferente de shear rams falhou.

Segundo Steiner, mesmo com sistemas de reserva redundantes, “absolutamente essenciais”, o sistema pode falhar com relativa facilidade.

As reservas de Steiner são partilhadas por uma das principais concorrentes da Woodside: a Chevron Australia rejeitou o uso de shear rams pirotécnicos num processo relativo a planos de exploração de gás próprios na Austrália Ocidental em 2024, alegando que a tecnologia não pode ser testada em funcionamento porque só pode ser acionada uma vez.

Também os restantes mecanismos previstos pela Woodside para responder a um derrame – capping stacks, usados para tapar um rebentamento, e poços de alívio, que desviam a pressão – foram alvo de críticas.

A professora de direito da energia da Universidade Macquarie, Tina Soliman-Hunter, notou que ambos exigem tempos de mobilização longos, questionando a capacidade de resposta em apenas 12 horas. Uma revisão independente encomendada pela própria Woodside, da autoria de John Wright – um dos responsáveis pela resposta ao desastre de Deepwater Horizon -, identificou vários fatores que podem atrasar a mobilização destes equipamentos além do planeado, ainda que tenha considerado que o projeto cumpre as normas internacionais para a sua fase atual de desenvolvimento.

Um porta-voz da Woodside disse à ABC News que responder a qualquer derrame offshore é “desafiante”, mas que a empresa tem investido substancialmente em prevenção e gestão rápida de incidentes, prevendo reforçar o planeamento para a mobilização de capping stacks e poços de alívio antes de qualquer perfuração futura.

No terreno, o risco é sentido de forma direta por quem vive da pesca na região. O guia de pesca Peter Tucker, ex-presidente da campanha Save the Kimberley, afirmou que um derrame significaria o fim do seu negócio e de muitos outros ao longo da costa do Kimberley.

Documentos obtidos ao abrigo da lei de acesso à informação sugerem que o departamento federal do Ambiente pediu, no ano passado, à Autoridade Nacional de Segurança e Gestão Ambiental do Petróleo Offshore (NOPSEMA) que investigasse a possibilidade de um derrame em Browse.

As organizações ambientalistas Environs Kimberley e Greenpeace Australia Pacific exigem agora a divulgação pública dessas conclusões.

A Woodside procura aprovação junto das autoridades estaduais e federais australianas. Segundo a ABC News, o parecer final do departamento sobre a aprovação do projeto Browse deverá ser entregue ao ministro federal do Ambiente, Murray Watt, ainda antes do final do ano.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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