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Díli, 15 de setembro de 2026 (RAFA) – Em Timor-Leste, publicar um livro é apenas parte do desafio. A outra parte é encontrar leitores dispostos a comprá-lo.
Para a Tio Publishing, editora fundada por timorenses em 2025, o desenvolvimento do mercado editorial depende de uma pergunta simples, mas difícil de responder: será que os timorenses estão dispostos e têm condições para gastar dinheiro em livros?
A empresa iniciou as suas publicações em 2025 com cinco livros, quatro de autores timorenses e um traduzido do inglês.
Em 2026, publicou três obras, duas de autores timorenses e uma tradução para tétum de “Why Nations Fail,” um livro que, embora ainda não esteja disponível para distribuição geral, já gerou procura entre os leitores.
Segundo Joelcio Guterres, gerente da Tio Publishing, a procura pelo livro aumentou nas últimas duas semanas, mas a distribuição ainda aguarda algumas verificações e revisões.
Para o lançamento, a editora preparou inicialmente apenas 50 exemplares.
“Já existe bastante interesse na compra de Why Nations Fail. Temos tido uma procura considerável nas últimas duas semanas, mas o processo ainda está atrasado porque há algumas coisas que precisam de ser verificadas novamente,” disse à Rafa.
A experiência com este livro mostra à editora que existe interesse por determinadas obras.
Mas transformar este interesse em procura regular é outro desafio.
Joelcio explica que a empresa monitoriza esta realidade através da sua livraria, que funciona há cerca de cinco anos, procurando perceber como pode aproximar mais pessoas dos livros.
“A questão de saber se os timorenses gastam dinheiro para comprar livros é um grande desafio. Também observamos isso na nossa livraria e tentamos perceber como podemos incentivar as pessoas a ler.”
Um dos fatores que influencia diretamente esta decisão é o preço.
Grande parte dos livros importados vendidos pela editora são em inglês ou indonésio, e os custos associados à importação podem aumentar os preços entre 30% e 50%.
Assim sendo, a Tio Publishing procura selecionar obras que possam ser adquiridas por pessoas com diferentes condições financeiras.
A questão da língua levanta um segundo ponto.
Para Joelcio, a oferta de literatura em tétum é ainda limitada, e será necessário tempo para perceber até que ponto os leitores estão dispostos a comprar regularmente livros produzidos ou traduzidos para esta língua.
“A literatura em tétum ainda é muito limitada. Precisamos de dois ou três anos para começar a compreender melhor o interesse das pessoas e a sua disponibilidade para gastar dinheiro em livros.”
A experiência da editora mostra também que o tipo de livro importa. Entre as obras já publicadas, a ficção e os romances são as que suscitam maior interesse.
A Editora Tio chegou a experimentar uma versão mais académica, mas as vendas foram inferiores às de uma obra de ficção em tétum com uma linguagem mais acessível.
Daí outra preocupação: não basta publicar em tétum; é necessário encontrar uma linguagem que os leitores possam compreender e assimilar facilmente.
“Tentamos encontrar uma linguagem em tétum que todos possam compreender, para que alguém que não goste particularmente de ler, ao pegar no livro, possa compreendê-lo facilmente, aceitá-lo e interessar-se por ele.”
Mesmo num mercado que a própria editora considera ainda distante da sua meta, os resultados começam a mostrar alguma procura. A Tio Publishing imprime normalmente cerca de 200 exemplares por título.
Alguns livros já atingiram cerca de 70% das vendas, enquanto outros rondam os 50%. Nas publicações de 2026, a empresa afirma ter ultrapassado os 50% de exemplares vendidos.
A editora procura também servir outro mercado: o dos timorenses que vivem fora do país. Segundo Joelcio, existe procura por parte desta comunidade, o que levou a Tio Publishing a estudar a possibilidade de disponibilizar os livros em formato digital, com a intenção de avançar nesse sentido no próximo ano.
Mas publicar traduções de obras internacionais também tem um custo. Para 2027, a empresa pretende procurar livros internacionais com potencial de mercado, mas terá de ter em conta as taxas cobradas pelos direitos de autor.
“Alguns autores têm taxas de direitos de autor muito caras. Vamos procurar livros que estejam dentro do nosso orçamento e depois avançaremos com o processo.”
Para já, a editora ainda não definiu exatamente qual será o próximo título, embora garanta que vai continuar a publicar.
A estratégia é encontrar um equilíbrio entre o que os leitores querem, o que podem pagar e o que a empresa consegue produzir dentro do seu orçamento.
Os livros da Tio Publishing podem atualmente ser encontrados em alguns pontos de venda, incluindo o Black Box Café, no Farol, o Café Tempos e um quiosque da Timor Plaza.
A empresa também pretende voltar a ter uma livraria própria, depois de a anterior ter sido afetada pelo projeto de alargamento da estrada.
Entre o preço que limita a compra, a língua que procura conquistar leitores e uma procura que ainda está a crescer lentamente, a Tio Publishing vê o mercado editorial timorense como um projeto de longo prazo.
A pergunta, no fundo, continua aberta: há leitores suficientes dispostos a transformar o interesse pelos livros num hábito de compra?
Para a editora, a resposta ainda está a ser construída, livro após livro.
Jornalista: Miguel Caldas
Escrito por RafaFM
Entre o preço e a língua: O desafio de vender Livros em Timor-Leste
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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