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Díli, 9 de junho de 2026 (RAFA.TL) – A Organização Meteorológica Mundial (OMM) emitiu um alerta formal sobre o desenvolvimento de condições de El Niño no Oceano Pacífico tropical, pedindo aos governos, agências humanitárias e setores vulneráveis para se preparem adequadamente.
Timor-Leste, classificado pelas Nações Unidas como um dos países da região mais vulneráveis ao fenómeno, enfrenta um risco mais elevado de seca prolongada, perda de colheitas e insegurança alimentar.
Setores como a agricultura, a saúde, a energia e a gestão da água devem, segundo a OMM, preparar-se para o evento, que poderá ser moderado a forte e que afetará os padrões de temperatura e precipitação em todo o mundo nos próximos meses.
A mais recente atualização El Niño/La Niña da OMM indica uma probabilidade de 80% de ocorrência de um evento de El Niño durante o período de junho a agosto de 2026, com probabilidades de continuação pelo menos até novembro a rondar ou a superar os 90%.
A maioria dos modelos de previsão aponta para que o evento seja pelo menos moderado, podendo vir a ser forte.
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, reagiu ao alerta com linguagem inequívoca.
“A ciência é clara: o El Niño está a chegar à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza. O mundo deve tratá-lo como o urgente aviso climático que é. As condições de El Niño vão deitar combustível no fogo de um mundo em aquecimento. Os impactos serão mais duros, viajarão mais longe e cruzarão fronteiras a velocidade devastadora”, disse.
A Secretária-Geral da OMM, Celeste Saulo, advertiu que é preciso preparar-se para um evento potencialmente forte, que poderá agravar a seca e as chuvas intensas e aumentar o risco de vagas de calor tanto em terra como no oceano.
“O El Niño mais recente, em 2023-24, foi um dos cinco mais fortes de que há registo e contribuiu para as temperaturas globais recordes que se registaram em 2024”, afirmou.
O Índice do Niño 3.4 – parâmetro de referência para monitorização do fenómeno – aqueceu cerca de 0,2 graus Celsius nas últimas duas semanas e 1,3 graus desde o início de março.
Todos os modelos climáticos, incluindo os do Serviço de Meteorologia australiano (BOM), preveem que o Pacífico tropical continue a aquecer nos próximos meses, com as temperaturas da superfície do mar a atingirem provavelmente os limiares de El Niño durante o início do inverno austral.
Estes aumentos são alimentados por condições subsuperficiais anormalmente quentes em todo o Pacífico tropical, com temperaturas a exceder seis graus Celsius acima da média.
O BOM confirmou no início de junho que a Austrália está oficialmente à beira de um evento de El Niño, com probabilidade de desenvolvimento neste inverno austral, acarretando um risco agravado de seca, ondas de calor extremas e fogos florestais severos.
O alerta da OMM tem implicações diretas e graves para Timor-Leste.
A Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico (ESCAP) identificou expressamente a Indonésia, a Malásia, as Filipinas e Timor-Leste como países onde fortes eventos de El Niño têm repetidamente provocado seca, fogos florestais, perdas agrícolas e escassez de água, com estes padrões a verificarem-se mesmo durante o mais fraco El Niño de 2018-2019.
O evento de El Niño de 2015-2016, o mais forte do século, serve de referência para o risco atual, dado o padrão semelhante de aquecimento inicial. Durante esse evento, mais de 70% da superfície terrestre do Sudeste Asiático sofreu seca, expondo mais de 200 milhões de pessoas a seca severa no seu pico.
O historial timorense com o fenómeno é particularmente preocupante.
Durante o El Niño de 2015-2016, Timor-Leste foi afetado por uma seca que levou a escassez de água e de alimentos em todo o país, causou falha de colheitas, reduziu os rendimentos das famílias e provocou a morte de milhares de cabeças de gado.
No episódio de El Niño de 2023-2024, o Governo de Timor-Leste, em colaboração com o Programa Alimentar Mundial (PAM) e a FAO, emitiu um Alerta de Segurança Alimentar urgente, mapeando os riscos crescentes de escassez de alimentos.
Na altura, 22% da população timorense já enfrentava insegurança alimentar, afetando cerca de 300 000 pessoas, e 12 dos 14 municípios apresentavam sinais claros de seca.
Face a esse episódio, a Austrália investiu cinco milhões de dólares australianos para apoiar Timor-Leste e o Pacífico, incluindo pré-posicionamento de bens não alimentares, conservação e armazenamento de água e apoio à segurança alimentar, enquanto o Fundo Central de Resposta a Emergências das Nações Unidas libertou dois milhões de dólares americanos para responder à seca em Timor-Leste induzida pelo El Niño.
A vizinha Indonésia, cuja influência climática sobre Timor-Leste é direta, já ativou os seus próprios mecanismos de alerta.
A Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica da Indonésia (BMKG) confirmou que o El Niño está a reduzir drasticamente a precipitação em grande parte do arquipélago desde o início de junho, com o seu diretor a advertir que a estação seca de 2026 será mais seca e mais longa do que o habitual.
As previsões globais para o período de junho a agosto projetam uma dominância quase universal de temperaturas acima da média em praticamente todas as partes do globo, aumentando os riscos de stress térmico e acelerando o desenvolvimento de condições de seca onde a precipitação diminuir.
O Fórum de Perspetivas Climáticas do Grande Corno de África e o Fórum Climático da Ásia do Sul preveem precipitação abaixo da normal durante as suas estações chuvosas críticas. A América Central espera condições mais secas e quentes.
A ESCAP sublinha que esperar pela certeza pode aumentar a exposição a perdas evitáveis.
“As evidências históricas e os sinais atuais já fornecem uma base suficiente para uma ação precoce e sem arrependimentos”, concluiu o relatório conjunto com a ASEAN. A OMM acrescenta que as previsões sazonais avançadas disponíveis permitem tomar decisões informadas com antecedência suficiente para proteger vidas e meios de subsistência, e que a janela de preparação está aberta agora.
A OMM é a voz autorizada das Nações Unidas em matéria de meteorologia, clima e água. O BOM australiano é um dos centros globais de produção que contribuem para as atualizações ENSO da OMM.
FIM
Escrito por RafaFM
El Niño está a desenvolver-se com 90% de probabilidade e Timor-Leste pode ser afetado
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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