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Da Voz à Percussão: os artistas partilham trajetórias criativas entre experiência, resistência e identidade

todaySetembro 16, 2026 12 3

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Díli, 16 de setembro de 2026 (RAFA) — A música e a arte podem nascer de lugares muito diferentes: de uma infância marcada pela curiosidade, das experiências familiares, da memória da guerra ou até dos sons encontrados na própria natureza.

Foi a partir destas experiências que Zinha Piedade, Ivo Colimau e Etson Caminha partilharam os seus percursos e processos criativos na sessão “Fahe Esperiénsia Prosesu Kreativa Arte no Muzika” (A Experiência da Arte Criativa na Música), no último dia do Festival Literário de 2026.

A conversa mostrou que, para os três artistas, a criação não surgiu necessariamente de uma formação artística convencional.

Em diferentes momentos dos seus percursos, a prática, a experiência e a necessidade de expressar o que sentiam foram determinantes para o desenvolvimento do seu trabalho.

Zinha Piedade: da descoberta da música à construção de uma Voz

Zinha Piedade contou que começou a interessar-se pela arte desde jovem, apesar de ter crescido num contexto familiar onde uma carreira artística não era vista como uma possibilidade segura para o futuro.

Segundo a artista, os seus pais acreditavam que a arte não garantiria um futuro nem sustentaria uma vida. Ainda assim, Zinha decidiu continuar a aprender e a explorar o campo artístico.

Durante a sua estadia em Bandung, na Indonésia, começou a acompanhar o irmão em atividades musicais. Foi neste contexto que entrou em contacto com a música Metal, género com o qual inicialmente não estava familiarizada.

A partir daí, começou a experimentar técnicas, estilos de canto e referências de vocalistas femininas. O processo, explicou, foi feito através da prática e da procura de referências.

Após regressar a Timor-Leste, encontrou um espaço na comunidade Klan onde pôde continuar a treinar com outros artistas. Em 2014 ou 2015, subiu ao palco pela primeira vez.

Para Zinha, uma das dificuldades residia precisamente em decidir sobre o futuro da arte e da música: seria possível construir uma carreira sustentável através da criação artística?

A resposta veio através da sua própria experiência. Em vez de abandonar a área por dúvidas sobre o futuro, decidiu continuar a aprender, a procurar referências e a desenvolver a sua criatividade como música.

Ivo Colimau: quando a experiência pessoal se transforma em música

Para Ivo Colimau, o contacto com a música começou na escola, no Externato, através da participação num coro.

Foi neste ambiente que começou a aproximar-se da música. Antes disso, interessava-se por poesia e escrevia poemas. Mais tarde, começou a transformar esses textos em letras de canções.

A experiência familiar também influenciou o seu processo criativo. Ivo disse que queria escrever sobre o sofrimento que os seus pais vivenciaram e sobre situações que o fizeram amadurecer precocemente.

Inicialmente, a sua intenção era escrever sobretudo canções de carácter revolucionário. A preocupação prendia-se com a preservação da história da resistência e da identidade timorense.

Para Ivo, havia o receio de que a influência cultural e a aculturação pudessem contribuir para o esquecimento da identidade original. A música tornou-se, portanto, uma forma de expressar estas preocupações.

Depois de estudar em Java, regressou a Timor-Leste e abandonou temporariamente a música, em parte devido à sua situação familiar. Começou a trabalhar, mas as experiências vivenciadas no meio profissional trouxeram-no de volta à criação musical.

Ao ouvir relatos de violência durante períodos de conflito e testemunhos de pessoas que viveram a guerra, sentiu a necessidade de escrever novamente sobre estas experiências.

Foi este contacto com estes testemunhos que o levou a reconsiderar a música como forma de expressão.

Em 2011, iniciou um projeto e gravou música.

O percurso de Ivo revela um processo criativo que não está completamente dissociado da experiência vivida.

A poesia, as memórias familiares, os testemunhos sobre a guerra e as preocupações com a identidade alimentaram, em última análise, a sua produção musical.

Etson Caminha: Em busca do seu próprio som

O percurso de Etson Caminha iniciou-se em Lospalos, entre 2000 e 2001, num contexto de recursos limitados para a prática musical.

Segundo o mesmo, na altura a comunidade ainda estava a recuperar da guerra e praticamente não havia instrumentos musicais disponíveis.

Um padre chamado Aderito conseguiu um viola, que acabou por desempenhar um papel importante no início deste percurso.

Mais tarde, através de atividades na igreja, Etson envolveu-se com um oratório e, em 2003, este processo levou-o a Díli.

O Galaxy foi fundado por Osme Gonçalves. O grupo chegou a participar num festival, onde conquistou o segundo lugar.

A viagem, no entanto, não foi fácil. Para poder ensaiar num estúdio em Díli, o próprio grupo teve de encontrar formas de suportar os custos. Etson recordou que Osme Gonçalves chegou a vender os seus sapatos e calças por 150 mil rupias para pagar o estúdio para ensaios.

O grupo deslocava-se a pé de Palapaso até Vila Verde para ensaiar.

Mais tarde, através da ligação de Osme Gonçalves com a Arte Moris, encontraram um espaço onde puderam desenvolver melhor o seu trabalho.

Entre 2004 e 2005, participaram em atividades teatrais com a BIBI BULAK, deslocando-se a Ataúro e outros municípios para partilhar informação sobre violência doméstica e outros temas.

Em 2006, os Galaxy tiveram ainda a oportunidade de participar num espetáculo em Darwin, experiência que, segundo Etson, foi uma importante motivação para continuar.

A trajetória de Etson não se limitou aos instrumentos modernos.

Após experimentar diferentes formas de fazer música, começou a reconectar-se com instrumentos e elementos tradicionais.

Para ele, a própria natureza oferece elementos que podem servir de base para a criação musical. A experiência adquirida através da prática diária levou-o a procurar compreender a origem e as fontes da música.

Foi neste percurso que desenvolveu o projeto “Noise Timor”, baseado na utilização de elementos naturais como parte do processo musical.

A utilização destes elementos pode surpreender algumas pessoas, especialmente quando comparado com métodos mais convencionais de produção musical. Mas, para Etson, esta escolha representa precisamente a procura da sua própria linguagem.

A mensagem que deixou durante a sessão foi também sobre autenticidade: não tentar tornar-se outra pessoa, mas encontrar o próprio caminho para criar e se expressar.

Para o artista, experimentar e expressar livremente o que se deseja é essencial para seguir em frente. Sem a tentativa de criar e encontrar a sua própria voz, acredita que não é possível progredir.

Três caminhos, uma questão em comum

Embora tenham começado em contextos diferentes, os três artistas apresentaram um ponto em comum: a criação artística foi construída através da experiência.

Zinha encontrou na prática e nas referências musicais o caminho para desenvolver a sua voz.

Ivo transformou poemas, experiências familiares e testemunhos relacionados com a guerra em matéria para a criação musical.

Etson começou num contexto de recursos limitados, passou por diferentes experiências musicais e acabou por encontrar a sua própria linguagem em elementos naturais.

As suas histórias mostram também que o processo criativo nem sempre é linear. Há momentos de aprendizagem, interrupções, dúvidas, dificuldades materiais e mudanças de rumo.

No último dia do Festival Literário de 2026, a partilha destas experiências posicionou a criação artística não apenas como um resultado, uma canção, uma performance ou uma obra, mas como um processo construído através da prática, da memória, da experimentação e da procura de uma identidade única.

E, para estes artistas, a criação continua precisamente quando ainda existe o desejo de experimentar, aprender e encontrar novas formas de expressar o que querem dizer.

Jornalista: Miguel Caldas

 

 

Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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