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Lodi, Califórnia, 23 setembro 2026 (RAFA) – O consumo mundial de vinho caiu 2,7% em 2025, para 208 milhões de hectolitros, o quarto ano consecutivo de quebra, obrigando produtores nos Estados Unidos e na Europa a arrancar vinhas e a vender uvas com prejuízo.
Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), a área mundial de vinhas encolheu pelo sexto ano consecutivo, para sete milhões de hectares, enquanto as exportações globais caíram 4,7%, para 94,8 milhões de hectolitros.
O valor das vendas globais recuou 6,7%, para 33,8 mil milhões de euros (cerca de 36,7 mil milhões de dólares).
Em França, o segundo maior produtor mundial, o Governo lançou um pacote de 130 milhões de euros para financiar o arranque de vinhas excedentárias, numa tentativa de sustentar um setor que emprega 440 mil pessoas.
Espanha e França perderam, em conjunto, 46 mil dos 56 mil hectares de vinha eliminados a nível mundial.
O impacto sente-se já na colheita deste ano.
O Ministério da Agricultura francês previu, a 7 de setembro, uma produção de 33,9 milhões de hectolitros em 2026, uma quebra de 6% face a 2025 e o nível mais baixo em três décadas, devido a calor extremo e seca.
A produção em Champagne deverá cair quase para metade (-49% em termos anuais), enquanto Bordéus e Languedoc-Roussillon recuperam.
A área de vinha em produção encolheu mais 2,5% este ano, com produtores a arrancar vinhas devido ao excesso de oferta e à fraca procura. O Governo francês anunciou mais de mil milhões de euros (cerca de 1,2 mil milhões de dólares) em ajuda de emergência ao setor agrícola.
Nos Estados Unidos, as vendas de vinho caíram 23% entre 2020 e 2025, de 427 milhões para 329 milhões de caixas, e a despesa total dos consumidores recuou 22%, de 94 mil milhões para 74 mil milhões de dólares, segundo o relatório anual sobre o setor do banco First Citizens, antigo Silicon Valley Bank.
É nesse contexto que muitos produtores da Califórnia – responsável por mais de 80% do vinho produzido nos Estados Unidos – enfrentam esta época de vindimas sem conseguir escoar a uva.
Os agricultores já retiraram ou deixaram de cultivar ativamente cerca de 25% dos quase 243 mil hectares de vinha que o estado chegou a ter no pico da pandemia, segundo Jeff Bitter, presidente da associação Allied Grape Growers, que representa cerca de 500 produtores do estado.
Este ano, cerca de metade da colheita de uva para vinho da Califórnia entrou na época de vindimas sem contrato com compradores, uma quebra acentuada face aos 70% a 80% habituais, segundo Bitter. Os produtores sem contrato só conseguem, na melhor das hipóteses, vender a uva com prejuízo a compradores de xarope concentrado.
“O mercado está tão deprimido que é difícil cultivá-las com lucro. A procura não está a subir. Continua a cair”, afirmou Bitter.
Bill Berryhill, produtor de terceira geração e proprietário da Berryhill Family Vineyards, perto de Lodi, no Vale de San Joaquin, disse não ter comprador para a uva cultivada em 81 dos seus 202 hectares. Vai arrancar 20 hectares de vinha assim que terminar a colheita.
“É simplesmente nauseante”, disse Berryhill, junto a uma vinha de merlot por vender. “Cultivas uma colheita linda, e é mesmo uma boa safra este ano, e depois deitas tudo ao chão. É triste. Todo o teu trabalho vai por água abaixo.”
“Vou perder dinheiro, isso é certo. É só uma questão de quanto”, acrescentou o produtor, de 68 anos. “Já é o terceiro ano seguido que isto dá prejuízo.”
Kyle Collins, gestor de operações da Allied Grape Growers em Lodi, uma das regiões vitivinícolas mais produtivas da Califórnia, confirmou a falta de compradores. “Infelizmente, não temos comprador para estas uvas. É, infelizmente, uma realidade não só para esta vinha, mas para muitas outras aqui à volta”, afirmou, acrescentando que a quebra nas vendas também afeta os trabalhadores agrícolas. “Isso não chega aos bolsos de quem faz o trabalho no campo. Tem um efeito em cadeia na economia.”
A quebra representa uma viragem dramática para a indústria vinícola da Califórnia, que durante décadas cresceu de forma sustentada junto de gerações de consumidores norte-americanos. As vendas de vinho atingiram um pico durante a pandemia, em 2021, quando os restaurantes estavam fechados e os convívios sociais restringidos, levando as pessoas a armazenar vinho e a beber mais em casa. Desde então, as vendas têm caído de forma acentuada, com nova quebra esperada este ano.
Segundo Jeff Bitter, a Califórnia não consegue exportar o excedente porque o consumo de vinho está também a cair a nível global e é mais caro produzir nos Estados Unidos do que em países como a Argentina e a Austrália. Fatores como o envelhecimento da geração baby boomer, a redução do consumo de álcool entre os jovens por motivos de saúde e financeiros, e a concorrência da cerveja artesanal, das bebidas espirituosas, dos cocktails enlatados e da canábis têm contribuído para a quebra da procura. As tarifas alfandegárias reduziram ainda as exportações, nomeadamente para o Canadá, até agora o maior comprador estrangeiro de vinho norte-americano.
“O próximo passo do processo de recuperação não é só equilibrar a oferta e a procura, mas perceber o que os consumidores realmente querem”, afirmou Rob McMillan, estratega-chefe de vinhos do First Citizens Bank.
Apesar dos prejuízos, Berryhill, cujo avô começou a cultivar uvas há quase cem anos, não pondera abandonar o negócio. “Adoro cultivar uvas. Está-me no sangue”, disse. “Porque as amo, consigo aguentar isto e vou lutar até superar.”
FIM
Escrito por RafaFM
Consumo mundial de vinho cai pelo quarto ano consecutivo obrigando produtores a arrancar vinhas na Califórnia e na Europa
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