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Autarca português considera situação do Haksolok “uma vergonha” e culpa disputas políticas timorenses

todayMaio 6, 2026 227

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Figueira da Foz, 6 de maio de 2026 (RAFA.TL) – O presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, classificou como “uma vergonha” e “absolutamente inaceitável” a situação do ferry Haksolok, encomendado por Timor-Leste e há quase dez anos imobilizado nos estaleiros navais da cidade, apontando disputas políticas internas timorenses como causa do impasse.

As declarações foram proferidas esta semana por ocasião da visita do ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, e do secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, aos estaleiros navais AtlanticEagle Shipbuilding, na margem do Mondego, a 4 de maio, no âmbito da abertura da safra da sardinha de 2026.

“É absolutamente incompreensível que entre o Estado português e a República de Timor-Leste não se consiga resolver uma situação que se arrasta há anos, que é muito negativa para a economia local e pelo que simboliza. A Figueira não é terra de obras inacabadas. As obras têm que se concluir “, afirmou o autarca.

O presidente da câmara foi mais longe ao invocar o contexto geopolítico global

“Não pode haver razões internas ou secretas da diplomacia que prejudiquem as comunidades e os povos. Se até em situações de guerra aberta há negociações mais ou menos assumidas entre os países que se guerreiam, que sentido faz – e sei das diligências que têm sido feitas ou não – que por teimosia, obstinação ou por lutas que respeitam a outros assuntos que não têm nada a ver connosco, haja este prejuízo absolutamente inaceitável”, disse Santana Lopes

“Está ali um navio parado há quase dez anos. É muito. Até é ofensivo para a estirpe, para a alma, para a capacidade das gentes do mar que todos os dias vão para a sua faina e veem um navio parado. Toda a gente culpa os políticos e com razão. Aqui são os políticos e os corpos diplomáticos que têm que resolver isto. Como não resolveram até hoje de outra maneira, temos que fazer disto uma causa pública”, afirmou.

Recentemente, em declarações à televisão portuguesa, Santana Lopes tinha sido ainda mais direto na identificação das responsabilidades, destacando o assunto como tema da semana.

“Tem a ver com um barco que está no estaleiro da Figueira há cerca de dez anos. 95% da empresa é de Timor-Leste. Isto tem a ver com uma guerra interna de Timor-Leste, entre o senhor Mari Alkatiri e o senhor Xanana Gusmão”, afirmou.

“Tenho muita pena, respeito muito, Timor-Leste é independente. Agora não quero na Figueira da Foz a consequência das guerras que há noutros países. O governo tem sido alertado, feito o que pode. 95% é timorense, está tudo à espera. E como estão zangados uns com os outros não resolvem isto. E têm que resolver e até lá não vou largar o assunto em público. É uma vergonha.”

O ministro José Manuel Fernandes reconheceu a gravidade da situação, elogiando a qualidade dos estaleiros.

“Parabéns pela qualidade destes estaleiros navais do Mondego, pelas instituições que puxam pelo nosso território. Temos que concluir e executar o PRR e há prazos. Peço mais um esforço adicional para que nenhum prazo deixe de ser cumprido, sob pena de sermos penalizados.”

Quanto ao Haksolok, o governante admitiu que a decisão escapa ao executivo português.

“Tudo faremos e estamos a fazer para que questões como as que o senhor presidente da câmara levantou tenham a atenção devida. Ainda que depois a decisão não esteja no governo atual, esteja noutro governo”, afirmou.

“Percebo muito bem a necessidade e o objetivo que temos de solucionar esta questão que já tem tempo a mais. Dez anos é uma brutalidade em termos de tempo. Não é algo que esteja nas mãos do governo português poder decidir. Sei que o governo tudo está a fazer para ajudar a solucionar esta questão”, disse ainda.

O ferry Haksolok – “felicidade” em tétum – foi encomendado em 2014 pelo Estado timorense para fazer a ligação marítima entre Díli, a ilha de Ataúro e o enclave de Oecusse.

A embarcação, de 73 metros de comprimento e capacidade para 377 passageiros e 26 veículos, foi lançada à água em 2017, mas a construção parou em 2018 devido a dificuldades financeiras do estaleiro, agravadas pelos danos do furacão Leslie.

Na sequência de um Processo Especial de Revitalização, Timor-Leste tornou-se detentor de 95% do capital da AtlanticEagle Shipbuilding, injetando 12 dos 20 milhões de euros prometidos antes de cessar qualquer contacto com a gerência, em finais de 2023.

Os trabalhos de construção, retomados em 2022, voltaram a parar em março de 2024, com o navio a 85% concluído.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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