Destaques

Armazenamento solar transforma agricultura africana e reduz perdas alimentares pós-colheita

todayJunho 16, 2026 14

Fundo
share close

Nairobi, 16 de junho de 2026 (RAFA.TL) – A expansão de sistemas de armazenamento a frio movidos a energia solar está a transformar a cadeia de valor agrícola em várias regiões de África, reduzindo drasticamente as perdas pós-colheita.

A estratégia está a reduzir perdas que, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), afetam até 40% da produção alimentar do continente antes de chegar ao mercado.

A mudança representa uma das respostas mais concretas a um problema que durante décadas custou aos agricultores africanos milhares de milhões de dólares em receitas perdidas e agravou a insegurança alimentar em regiões já vulneráveis.

A agricultora queniana Yvonne Anyonyi Mumiah, que cultiva alecrim, manjericão e outras ervas aromáticas destinadas a supermercados europeus, é um exemplo emblemático da transformação em curso.

Utilizadora do serviço da empresa SoKo Fresh – que cobra por quilograma armazenado, num modelo de pagamento por utilização que elimina o obstáculo do investimento inicial -, Mumiah deixou de estar sujeita à pressão de vender imediatamente após a colheita para evitar a deterioração dos produtos.

“Pode fazer tudo corretamente na quinta, mas se a produção não for armazenada devidamente, perde o produto e o rendimento”, afirmou.

“Já não somos forçados a vender de imediato porque tememos que a produção estrague. Podemos aguardar pela recolha e manter a qualidade.”

O custo de uma unidade própria de armazenamento solar – cerca de 30.000 dólares – está fora do alcance da grande maioria dos pequenos agricultores africanos, o que torna os modelos de acesso partilhado e pagamento por utilização, decisivos para a democratização da tecnologia.

A SoKo Fresh afirma ter reduzido as taxas de desperdício dos seus clientes de até 50% para menos de 2%, permitindo simultaneamente que os agricultores obtenham até 50% mais de rendimento por quilograma comercializado – uma diferença que, em contextos de subsistência, pode determinar a viabilidade económica de uma exploração agrícola familiar.

O modelo está a ganhar expressão em vários países do continente.

Na Nigéria, a empresa ColdHubs instalou câmaras frigoríficas solares em mercados agrícolas de grande dimensão, permitindo a agricultores e comerciantes arrendar espaço diariamente, sem necessidade de imobilizar capital em equipamento próprio.

No Ruanda, a refrigeração solar apoia cooperativas leiteiras e melhora os circuitos de recolha de leite, um produto particularmente sensível às variações de temperatura.

Na Etiópia, o investimento em cadeias de frio está a expandir-se para apoiar as exportações hortícolas, um dos sectores de crescimento mais rápido da economia etíope.

No Kenya, na África do Sul e em vários outros países da região subsariana, iniciativas similares avançam com apoio misto de investimento privado, doadores internacionais e governos nacionais.

“O armazenamento a frio continua a ser um dos elos em falta nas cadeias de valor agrícola de África”, afirmou Emmanuel Aziebor, director regional para África da CLASP, organização sem fins lucrativos que apoia a implementação de tecnologias energeticamente eficientes.

“Quando os agricultores conseguem guardar a produção por mais tempo, acedem a melhores mercados, reduzem o desperdício e aumentam os rendimentos”, acrescentou.

O desafio é estrutural e está a ser agravado pelas alterações climáticas.

O aumento das temperaturas acelera a deterioração de vegetais, frutas, lacticínios e peixe, tornando a refrigeração ainda mais crítica num continente onde as redes elétricas convencionais são caras e frequentemente instáveis em vastas zonas rurais.

Em contraste, países como a Índia, a China, o Japão, os Países Baixos e os Estados Unidos dispõem de redes de frio sofisticadas que permitem manter os produtos frescos e comercializáveis durante semanas após a colheita, conferindo aos seus agricultores uma vantagem competitiva estrutural nos mercados internacionais.

Os sistemas solares autónomos apresentam vantagens múltiplas face às alternativas convencionais.

Os sistemas tradicionais de armazenamento a frio dependem frequentemente de geradores a gasóleo em zonas sem acesso fiável à rede, com custos operacionais elevados e emissões de carbono significativas.

As alternativas solares reduzem o consumo de combustível e os custos de operação, enquanto diminuem as emissões – um argumento crescentemente relevante num contexto em que os mercados europeus e norte-americanos exigem rastreabilidade ambiental aos fornecedores agrícolas.

Os especialistas sublinham, contudo, que o impacto económico destas tecnologias ultrapassa em muito a simples conservação alimentar, tocando numa questão mais vasta sobre o modelo de desenvolvimento do continente.

“Temos negligenciado a conversa sobre como as pessoas podem transformar eletricidade em oportunidade”, advertiu Aziebor. “Continuamos a expandir a infraestrutura elétrica, mas a menos que as pessoas possam utilizar essa energia de forma produtiva, os benefícios económicos nunca se materializam plenamente.”

O armazenamento a frio é apenas uma das aplicações produtivas da energia solar que estão a mudar a equação agrícola no continente.

Sistemas de irrigação solar permitem a cultivo ao longo de todo o ano, independentemente das chuvas sazonais.

Moinhos e equipamentos de processamento movidos a energia solar ajudam as comunidades rurais a acrescentar valor aos produtos agrícolas no local de produção, em vez de os venderem em bruto a intermediários que capturam a maior parte da margem.

O financiamento continua, porém, a ser o principal obstáculo à expansão do sector à escala necessária.

Denis Karema, presidente executivo da SoKo Fresh, identificou o problema com precisão: “Estes investidores vêem as tecnologias emergentes como de alto risco porque nos faltam modelos de negócio suficientemente testados com retornos fiáveis. Isso torna o financiamento para os nossos projetos dispendioso.”

Subsídios, empréstimos a baixo juro e apoio de doadores internacionais ajudam a cobrir os custos iniciais de instalação, mas especialistas do sector alertam que o financiamento comercial em escala suficiente continua a escapar a um sector dominado por pequenos produtores dispersos em mercados fragmentados.

A questão coloca-se com particular acuidade num momento em que a pressão das alterações climáticas sobre a produção alimentar africana se intensifica e em que a janela para construir infraestruturas resilientes antes que os impactos se agravem se estreita progressivamente.

FIM

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!