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Arcebispo de Évora apela a Timor-Leste para que preserve as suas raízes históricas com o regresso de três prelados

todayAgosto 18, 2026 8 1

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Díli, 18 de agosto de 2026 (RAFA) — O Arcebispo de Évora, D. Francisco Coelho, apelou ao povo timorense para que preserve a memória e as raízes históricas de Timor-Leste, considerando o regresso dos restos mortais de três antigos prelados ligados à Diocese de Díli como um momento de reconhecimento da história do país e do contributo da Igreja Católica para a sua formação.

O apelo foi feito na noite de 18 de agosto, durante a Missa de Ação de Graças celebrada na Igreja do Espírito Santo em Évora, no âmbito do processo de repatriamento dos restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes para Timor-Leste.

Para o Arcebispo Francisco, o regresso dos três prelados representa não só a transferência dos seus restos mortais para a terra onde exerceram a sua missão pastoral, mas também o regresso de uma parte da memória histórica de Timor-Leste.

“Cuidar das nossas raízes, cuidar da nossa história.”

O Arcebispo de Évora defendeu que a identidade de um povo está diretamente ligada às suas raízes, comparando a história a uma árvore que só pode crescer e dar frutos se tiver raízes fortes e profundas.

“Uma árvore pode viver e dar belas flores na primavera e dar frutos que trazem progresso, desenvolvimento e justiça. Mas uma árvore só pode fazer isso se tiver raízes fortes e profundas”.

Segundo o Arcebispo Francisco, Timor-Leste tem uma longa história, marcada pela sua cultura, pela sua relação com a Igreja, pelo período colonial, pela invasão e ocupação indonésia, pela resistência e pela luta pela liberdade e independência.

Neste contexto, considerou que preservar esta memória é uma responsabilidade das novas gerações.

“Quem é responsável por cuidar das nossas raízes, da nossa história? Agora, levamos as raízes e o tronco destes três para Timor, para serem o alicerce da nossa pátria e da nossa história.”

Três prelados, uma missão ligada a Timor-Leste

O Bispo Francisco destacou o percurso das três figuras religiosas que, apesar das suas diferentes origens e dos diferentes períodos em que serviram, estiveram ligadas à história da Igreja e do povo timorense.

O Bispo Jaime Garcia Goulart, natural dos Açores, foi o primeiro Bispo da Diocese de Díli e desempenhou um papel importante na consolidação inicial da Igreja local, incluindo a evangelização, a educação, a alfabetização, a saúde, a formação profissional e o desenvolvimento comunitário.

O seu sucessor, o Bispo José Joaquim Ribeiro, deu continuidade à missão pastoral e destacou-se também na formação do clero timorense. Durante a sua liderança, jovens de Timor-Leste foram enviados para Portugal, incluindo Évora e Braga, para formação no seminário.

O Arcebispo de Évora destacou ainda a ligação de D. José à população timorense durante um dos períodos mais difíceis da história recente do território.

Segundo D. Francisco, durante a invasão e ocupação indonésia, D. José manteve-se próximo do povo e da Igreja, acompanhando as comunidades afetadas pela violência e organizando funerais para as vítimas do conflito.

“Ele não abandonou o seu povo num momento de sofrimento. Durante um período em que as pessoas morriam por causa dos tiros e da violência, em que muitas famílias estavam feridas e em sofrimento, ele organizou funerais para as vítimas e continuou ao lado do seu povo”.

Martinho da Costa Lopes assumiu importantes responsabilidades na Igreja de Timor-Leste durante o período de ocupação indonésia, como Administrador Apostólico da Diocese de Díli.

Natural de Laleia, no município de Manatuto, D. Martinho é recordado pela sua proximidade com os timorenses e pelo seu papel na defesa e apoio às comunidades durante um período marcado por conflitos e sofrimento.

O Regresso Representa Memória e Continuidade

Para o Arcebispo Francisco, os três prelados podem ser considerados figuras-chave na história da Igreja em Timor-Leste, ou, nas suas palavras, “heróis missionários”, por terem dedicado grande parte das suas vidas ao serviço do povo timorense.

“Temos aqui o testemunho de três missionários: dois portugueses, de origem açoriana, e um com uma dimensão cultural oriental e timorense. Todos juntos numa só missão: amor e serviço a Timor-Leste.”

O Arcebispo considera, por isso, que o regresso dos restos mortais constitui um gesto de ligação entre a memória, a história e a identidade nacional.

“Os três dedicaram as suas vidas à missão e, no fim, morreram em Portugal, depois de terem feito tudo pela Igreja e pelo povo.”

Os restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart e de Monsenhor Martinho da Costa Lopes foram previamente transladados de Carnaxide, Lisboa, para a Igreja do Espírito Santo em Évora, onde foram colocados junto dos restos mortais de D. José Joaquim Ribeiro, que já ali se encontravam.

A cerimónia de 17 de agosto incluiu a Liturgia da Palavra, presidida por D. Francisco, acompanhado por sacerdotes timorenses.

No dia seguinte, 18 de agosto, realizou-se uma Missa de Ação de Graças antes do início da etapa final da transferência para Timor-Leste.

Évora e Timor-Leste mantêm uma ligação histórica

A cerimónia em Évora destacou ainda os laços históricos entre a Igreja Católica Portuguesa e a Igreja em Timor-Leste.

A cidade desempenhou um papel significativo na formação de figuras religiosas timorenses, entre as quais figuras como Dom Basílio do Nascimento e o atual Bispo de Baucau, Dom Leandro Maria Alves.

Atualmente, estão em formação seis seminaristas timorenses em Évora, mantendo uma ligação que, segundo o Arcebispo Francisco, demonstra a continuidade das relações entre as duas Igrejas.

Para o Arcebispo, o regresso dos restos mortais dos três prelados deve, por isso, ser entendido como algo mais do que uma simples cerimónia religiosa.

A urna com os restos mortais dos três prelados seguirá para Timor-Leste, onde serão integrados na Catedral Metropolitana de Díli, juntamente com os de D. Alberto Ricardo da Silva, antigo Bispo de Díli.

No caso de D. Martinho da Costa Lopes, está também prevista uma visita a Laleia, em Manatuto, a sua terra natal, antes da conclusão do programa em Díli.

Jornalista: Miguel Caldas

Escrito por RafaFM

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