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Aldeões do Bornéu enfrentam falta de água com El Niño a agravar incêndios em turfeiras

todayOutubro 2, 2026 14

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Penyeladi, Indonésia, 2 de outubro de 2026 (RAFA) – Habitantes de zonas do Bornéu, na Indonésia, enfrentam falta de água após três meses sem chuva, numa crise agravada pelo El Niño e pela degradação das turfeiras, que alimenta incêndios de grande dimensão.

Sriwati, comerciante e mãe de três filhos que vive na aldeia de Penyeladi, na ilha tropical do Bornéu, já não consegue depender do rio para as suas necessidades.

O Kapuas, o rio mais longo da Indonésia, de que dependem mais de três milhões de pessoas, recuou de forma extrema junto à sua casa e resta apenas um curso raso de água lamacenta, impróprio para beber ou para lavar o arroz que cozinha para os filhos. Passou a ter de comprar água, o que aumenta as despesas mensais da família.

“A falta de água afeta-nos, sobretudo no que toca à água potável”, disse Sriwati, que, como muitos indonésios, usa apenas um nome, ao relatar a situação a partir da sua pequena casa de betão.

Segundo especialistas, as comunidades como a dela enfrentam uma grave crise hídrica, provocada pela combinação do “super El Niño” deste ano com décadas de degradação das turfeiras da ilha, zonas húmidas ancestrais fundamentais para o armazenamento de carbono, a regulação da água e o controlo da poluição.

Juntou-se a este cenário o efeito das alterações climáticas de origem humana.

O El Niño faz parte de um ciclo climático natural de aquecimento das temperaturas oceânicas, mas o deste ano deverá atingir novos extremos de seca, ondas de calor, inundações e outras perturbações climáticas em todo o mundo.

Os meteorologistas admitem que possa superar o fenómeno recorde iniciado em 1997, que contribuiu para milhares de milhões de dólares em prejuízos causados por ondas de calor, inundações, secas, tornados e incêndios florestais.

No Bornéu, a destruição de vastas áreas de turfeiras para outros usos do solo faz com que os efeitos do El Niño já se sintam com mais intensidade.

“Em Kalimantan, cerca de 60% das áreas de turfeira foram drenadas para dar lugar a plantações de palma e a concessões de celulose e papel”, afirmou Amanda Hurowitz, diretora sénior da organização ambientalista internacional Mighty Earth, que usou o nome indonésio para a parte do Bornéu controlada pela Indonésia.

“Isso significa que a água não está onde deveria estar. Há todos estes canais e, como estão bloqueados, o lençol freático desce”, explicou. “Como está tudo tão seco, a água simplesmente desapareceu.”

Num comunicado enviado à Associated Press, o Ministério das Florestas da Indonésia reconheceu o impacto negativo da drenagem das turfeiras, mas insistiu que as causas e responsabilidades concretas devem ser determinadas com base em provas, e não atribuídas automaticamente ao El Niño ou à presença de empresas.

O Governo diz pretender evitar uma maior degradação das turfeiras através da restauração dos ecossistemas e de uma fiscalização rigorosa das obrigações dos concessionários.

“A agenda de longo prazo do Governo centra-se na preservação e restauro das funções hidrológicas das turfeiras, na melhoria da gestão da paisagem e da água, no reforço da prevenção de incêndios e em garantir que todas as partes que gerem terrenos cumprem as suas responsabilidades”, afirmou o ministério.

Os especialistas indicam que o calor e a secura provocados pelo El Niño, aliados à degradação das turfeiras, contribuíram para os enormes incêndios que se propagam pelo Bornéu. A turfa seca é altamente inflamável, o que permite que o fogo se espalhe com facilidade nas zonas drenadas. Como os incêndios se propagam muitas vezes no subsolo, são difíceis de extinguir e podem reacender-se, segundo a Borneo Nature Foundation.

A escassez de água na região atrasou o combate às chamas, e o Japão enviou apoio de combate a incêndios para a ilha. Uma espessa neblina tóxica cobre o céu e o fumo chegou às Filipinas, a mais de 800 quilómetros de distância, tendo ultrapassado o limiar de emergência da Malásia para a poluição do ar. As autoridades malaias declararam na semana passada o estado de emergência numa localidade do estado de Sarawak, também no Bornéu.

O Ministério das Florestas registou mais de 202.000 hectares de terra queimada entre janeiro e julho, quase três vezes a área de Singapura. Em comunicado, o ministério afirmou que o Governo está a orientar a política de incêndios florestais para a prevenção, com maior coordenação intersectorial, aplicação da lei contra a limpeza de terrenos por queimadas, mais patrulhas e sistemas de deteção precoce, monitorização baseada no risco e restauro das turfeiras, exigindo que titulares de licenças e comunidades assumam responsabilidade pelo controlo do fogo.

“Em última análise, o controlo dos incêndios florestais e de terrenos não é tarefa de um único ministério ou instituição”, afirmou. “A prevenção exige um esforço colaborativo.”

Na aldeia de Sungai Malaya, em Kalimantan Ocidental, os incêndios arderam durante mais de um mês e os habitantes vivem em tensão permanente, dia e noite, já que o fogo piora por vezes de forma súbita durante a noite. As chamas destruíram os terrenos baldios onde Rumsiyeh, de 45 anos e mãe de cinco filhos, e o marido colhiam fetos para vender no mercado. “Perdeu-se tudo. Já não conseguimos ganhar a vida”, disse.

Barqueiros, pescadores e outras pessoas que dependem do rio viram os seus meios de subsistência afetados, já que o nível extremamente baixo da água impede a pesca e a navegação no Kapuas. Onde há água suficiente para os barcos operarem, a neblina densa reduz a visibilidade e torna a navegação perigosa, disse o pescador Abiansah, de 39 anos.

O impacto na economia nacional continua por medir. Grandes barcaças metálicas que habitualmente transportam caroços de palma para processamento rio abaixo estão encalhadas na areia, enquanto crianças se baloiçam nas cordas de amarração soltas.

Houve algum alívio com donativos de água de entidades privadas e do Governo, mas os habitantes temem o futuro. “Estou preocupada com esta seca prolongada. Chegámos ao ponto em que até as atividades diárias, ir seja para onde for, se tornaram difíceis. Também enfrentamos falta de água”, afirmou Sriwati. “Não tenho palavras para descrever.”

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Escrito por RafaFM

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