Justiça e Crime

Inspetor acusado de crimes em Portugal integra CAC timorense com aval da direção da Judiciária – CNN

todaySetembro 22, 2026 811 4 5

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Díli, 22 de setembro de 2026 (RAFA) – Um inspetor-chefe da Polícia Judiciária portuguesa acusado de falsificação de documentos e coação no âmbito do caso de doping no ciclismo obteve, com autorização da direção nacional da Judiciária, uma licença para assessorar a Comissão Anticorrupção (CAC) de Timor-Leste, avançou hoje a CNN Portugal.

Segundo a investigação da CNN Portugal, o inspetor Paulo Alexandre da Silva Gomes, colocado até 2023 na Diretoria do Norte da Polícia Judiciária (PJ), terá participado num plano montado com o empresário Adriano de Sousa, conhecido como “Quintanilha”, então presidente do clube de ciclismo W52-FC Porto, para evitar que a investigação ao doping na equipa chegasse ao próprio dirigente.

De acordo com o despacho de acusação do Ministério Público (MP) do Porto, datado de 27 de fevereiro de 2025 e citado pela CNN Portugal, os dois arguidos criaram um “Código de Conduta e Políticas de Compliance” com data retroativa, destinado a “atestar” que Sousa e o clube “desconheciam as práticas que estavam em investigação”.

O documento das procuradoras Catarina de Azevedo e Marta Soares, da 1ª Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Porto, acusa ambos de coautoria nos crimes de falsificação de documento e coação, juntamente com o próprio clube.

A CNN noticia que, apesar de a direção nacional da PJ, então liderada por Luís Neves, ter aberto em 2022 um processo disciplinar contra o inspetor, quatro anos depois, não é público o que sucedeu a esse processo.

Entretanto, Gomes foi transferido para a Diretoria da PJ dos Açores em 2023, concluiu em 2024 o curso de formação de inspetores-chefes e viu a promoção publicada em Diário da República a 3 de abril de 2025 – já depois de conhecida a acusação do MP.

Em agosto deste ano, a atual direção da PJ, liderada por Carlos Cabreiro, concedeu-lhe uma licença sem vencimento depois de o inspetor ter vencido um concurso para assessorar a CAC timorense, entidade independente incumbida de prevenir e investigar crimes de corrupção, peculato, abuso de poder e tráfico de influência em Timor-Leste.

A 02 de julho deste ano a CAC publicou na sua página oficial do Facebook que Gomes foi o candidato mais bem classificado de três concorrentes, numa seleção que incluiu análise curricular e entrevista, segundo despacho assinado pelo comissário interino Miguel Acácio Faria.

Questionada pela CNN Portugal sobre a existência do processo disciplinar, a direção nacional da PJ recusou confirmá-lo ou pronunciar-se sobre o caso concreto.

Limitou-se a invocar “o princípio da presunção de inocência”, segundo o qual “a mera existência de uma acusação ou de um processo disciplinar em curso” não pode ser confundida com uma decisão final sobre responsabilidades.

Sobre a promoção e a atribuição do cargo internacional ao inspetor enquanto este aguarda julgamento, a instituição respondeu que a participação de um trabalhador num processo judicial ou disciplinar “não determina, por si só, a sua exclusão automática de procedimentos de promoção ou de outros mecanismos legalmente previstos”.

A direção da PJ assegurou ainda atuar “no estrito cumprimento da lei”, garantindo “o interesse do serviço” e as “garantias processuais” dos seus trabalhadores.

O inspetor Paulo Gomes recusou prestar declarações à CNN Portugal, invocando estar o processo “em curso”.

Referindo-se ao processo em causa, a CNN Portugal relata que a ligação entre o inspetor e o dirigente desportivo foi denunciada em 2022 por um informador que alertou a PJ do Porto para a presença de um alegado “agente infiltrado” a proteger Sousa.

O empresário tê-lo-ia apresentado a colaboradores próximos como “Paulo”, um pretenso mecânico de ciclismo, gerando desconfiança por usar “vários termos técnicos mais adequados a alguém que lidava com leis”. Uma fotografia tirada nas instalações da fábrica da W52, em Felgueiras, permitiu identificar o homem como o inspetor Paulo Gomes.

Ainda segundo o despacho de acusação citado pela reportagem, o inspetor terá sido incumbido de levar o código de conduta ao diretor desportivo Nuno Ribeiro para assinatura, uma vez que este estava sujeito a uma medida de coação que o impedia de contactar diretamente com Sousa.

O documento acabou por ser assinado também por vários ciclistas da equipa, alegadamente sob pressão do dirigente, que terá dito a um dos atletas “que caso não assinasse deixaria de receber o seu salário”.

FIM

Escrito por RafaFM

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