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Díli, 28 de agosto de 2026 (RAFA) – A missão científica da OceanX em Timor-Leste identificou ao largo da costa norte do país novos géneros e espécies de coral, além de um recife de águas profundas nunca antes documentado, uma das coordenadoras científicas.
Francesca Benzoni, coordenadora científica da vertente de biodiversidade coralina da expedição, é professora associada de ciências marinhas na Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (KAUST), na Arábia Saudita, e especialista em corais.
“Durante a exploração da biodiversidade bentónica dominada por corais em Timor-Leste, encontrámos uma riqueza e uma estrutura surpreendentes, construídas por estes organismos que estruturam, de facto, o ecossistema de recife em profundidade”, afirmou Benzoni, sublinhando que o aspeto único da exploração de águas profundas em Timor-Leste é nunca ter sido feita antes com tecnologia moderna. Segundo a cientista, os recifes de coral profundos do país tinham sido historicamente explorados por dragagem, sem possibilidade de observação em tempo real, e a missão da OceanX, com autorização do Governo timorense, permitiu pela primeira vez explorar, observar e recolher amostras destas comunidades de águas profundas.
A cientista falava em declarações prestadas em vídeo, durante a sessão sobre biodiversidade e descoberta de ecossistemas do “Timor-Leste OceanX Symposium: Science for a Blue Future”, que decorre hoje no Centro de Convenções de Díli.
A cientista destacou dois locais de mergulho que considera terem sido os mais marcantes da expedição: um junto à ilha de Ataúro e outro ao largo da costa norte, dois ambientes “completamente diferentes” entre si.
Junto a Ataúro, caracterizado por águas de grande transparência, a equipa encontrou novos géneros de coral e conseguiu fotografar outros invertebrados nunca antes amostrados na região.
Já na costa norte, num ambiente de água turva por efeito dos sedimentos transportados pelos rios, os cientistas não esperavam encontrar uma comunidade de recife com elevada cobertura entre os 200 e os 300 metros de profundidade.
Segundo Benzoni, foi a primeira vez que a equipa conseguiu observar e fotografar visualmente corais até então conhecidos apenas por um ou dois espécimes de outras zonas do Triângulo de Coral, desta vez em grande densidade e abundância, formando um recife de coral de águas profundas totalmente independente da luz solar, ao contrário dos recifes de águas rasas.
Segundo a cientista, embora quase um ano tenha passado desde a expedição, já é possível confirmar a existência de várias novidades ao nível de género e de espécie entre os corais recolhidos em Timor-Leste, bem como entre organismos associados aos corais, incluindo crustáceos e vermes – “todas espécies novas”, disse.
Benzoni explicou que uma expedição de exploração que permite a recolha de amostras, como a que decorreu em Timor-Leste, é apenas o primeiro passo de um processo longo, que exige grande especialização e meios técnicos para revelar e descrever a diversidade da vida marinha.
O processo começa no terreno, com observação e registo de imagem, e prossegue com a catalogação e preservação dos espécimes recolhidos.
Seguem-se análises fora do terreno – observação microscópica, preparação de tecidos e extração de ADN – que, em conjunto com os dados morfológicos, permitem compreender a singularidade do material recolhido e identificar as espécies, incluindo aquelas nunca antes descritas para a ciência.
A cientista sublinhou que a biodiversidade marinha de Timor-Leste é relativamente bem conhecida em águas rasas, ainda que o esforço de exploração “nunca seja suficiente” dada a grande diversidade existente.
Já em profundidade, à medida que a luz diminui nas zonas mesofóticas e depois nas águas profundas, grande parte da diversidade permanece desconhecida.
Segundo Benzoni, compreender essa biodiversidade profunda é importante por duas razões: perceber onde ela se encontra e que papel desempenha no ecossistema oceânico mais alargado, e conseguir protegê-la de forma adequada, identificando zonas de elevada biodiversidade que possam estar ligadas a “hospitais” de biodiversidade em águas rasas.
A cientista defendeu que este conhecimento não está desligado do planeamento do espaço marítimo e das áreas marinhas protegidas, nem dos planos de desenvolvimento do país, e defendeu que os esforços de exploração devem continuar a novos locais e zonas em torno do território e das ilhas de Timor-Leste.
Segundo Benzoni, as principais questões que continuam em aberto dizem respeito não só à origem desta diversidade, mas também à conectividade das populações – ou seja, de que forma as populações e as pescas de Timor-Leste se ligam ao resto do Triângulo de Coral e ao Indo-Pacífico mais alargado.
Além da fase de exploração, disse, surgem ainda questões sobre a função dos ecossistemas e a interação entre ambientes profundos e rasos, no que descreveu como “apenas o primeiro passo de um conjunto muito mais amplo de questões” sobre evolução, ecologia e conservação.
A cientista manifestou esperança de que, para além dos resultados científicos que serão divulgados junto da comunidade científica internacional, a população e as autoridades de Timor-Leste desenvolvam uma compreensão crescente dos recursos que o país tem em profundidade.
Permite ainda ver a forma como esses recursos são não só economicamente importantes, mas também merecedores de investimento no reforço de capacidades para a nação timorense – através de novos programas de investigação, novas disciplinas universitárias e ações de divulgação que deem a conhecer e valorizem este recurso.
Benzoni descreveu a expedição a Timor-Leste como um dos pontos altos da sua carreira como cientista marinha e exploradora oceânica, agradecendo ao povo e às autoridades timorenses o acesso a este recurso.
A cientista recordou a sensação de ver pela primeira vez organismos até então desconhecidos da ciência, ou organismos vivos até então apenas conhecidos por esqueletos ou desenhos com um século de idade.
Destacou ainda como um dos momentos mais emocionantes da missão ter podido partilhar essas descobertas com os seus colegas timorenses a bordo, ao verem, pela primeira vez, as imagens captadas pelos veículos operados remotamente (ROV).
“Isso fez-me sentir que estávamos verdadeiramente a contribuir para algo maior do que apenas descrever uma nova espécie”, concluiu Francesca Benzoni.
FIM
Escrito por RafaFM
incluindo novos géneros de coral Missão da OceanX descobriu em Timor-Leste recifes de coral em águas profundas nunca antes documentados
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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