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Sara Seager defende que ensinar ciência é “ensinar a pensar”, não a decorar factos

todayAgosto 25, 2026 37 5

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Díli, 25 de agosto de 2026 (RAFA) – A astrofísica Sara Seager defendeu hoje em Díli que o ensino das ciências deve centrar-se em ensinar os estudantes a pensar e a resolver problemas, e não a memorizar factos, e que Timor-Leste deve permitir que os alunos falhem em experiências como parte essencial da aprendizagem.

“Ensinar ciência e aprender não é sobre factos, é sobre pensar, sobre como pensar. Este é o objetivo da educação científica”, afirmou Seager que falava num painel sobre o ensino da ciência em países em desenvolvimento, um dos debates da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento.

Seager resumiu a sua visão de um “ensino ideal” da ciência em cinco eixos: pensar sobre a ciência não como um conjunto de factos, mas como aprender a pensar e a resolver problemas; experimentar e poder fazer ciência de laboratório; deixar que os alunos falhem nas experiências, algo que considera essencial para a resolução de problemas; integrar a matemática com as restantes disciplinas científicas; e garantir que os temas ensinados são interessantes e relevantes para a realidade do país.

Seager pediu ao público, maioritariamente jovens estudantes, que, por momentos, esquecesse a inteligência artificial – tema recorrente ao longo da cimeira, com sessões dedicadas ao impacto da tecnologia na educação e na ciência – para se concentrar no essencial do processo de aprendizagem.

“Não se trata de factos e questões, mas sim de aprender, fazer perguntas e procurar respostas. A formação adequada ajuda os estudantes a fazer isso, com experiências, em laboratórios. Aprender palavras e factos não vos vai ajudar a pensar e a fazer coisas”, disse.

Para ilustrar o argumento, a astrofísica recordou a sua “experiência de física favorita” na escola, protagonizada por um quadro de madeira com um buraco onde os alunos tinham de acertar disparando uma mola.

“O meu professor na escola tinha um quadro de madeira com um buraco, e nós tínhamos de usar uma mola e fazê-la disparar até entrar no buraco. Tínhamos de fazer a equação, medir a compressão da mola. A Lei de Hooke… tivemos de medir e depois usar a equação certa. Só sabíamos a distância até ao buraco”, contou.

“Fiz a medição e tínhamos de perceber a que ângulo disparávamos a mola para entrar no buraco. E acertei. Uma equação conseguiu prever o que ia acontecer. Isto abriu-me os olhos. Espero que todos os estudantes consigam fazer esta experiência, ou outras”, afirmou.

Seager defendeu que os alunos precisam de ter permissão para falhar em contexto experimental, algo que considera negligenciado nos sistemas educativos.

“Um dos problemas que temos é que não é permitido às pessoas falhar. Mas só se aprende a fazer erros. Não digo falhar tudo, mas sim falhar experiências, porque isso obriga a aprender e a procurar perceber o que falhou. Poder fazer experiências, falhar e ir tentando. Isto constrói resiliência, mas também a capacidade de resolução de problemas, a base do pensamento”, afirmou.

A possibilidade de errar em laboratório – sem consequências académicas graves – é, na sua visão, tão formativa quanto o próprio conteúdo científico ensinado.

A astrofísica defendeu ainda uma abordagem mais integrada entre disciplinas científicas, criticando a separação tradicional entre matemática e as restantes ciências.

“A matemática é normalmente ensinada separadamente, mas temos de integrar a matemática na física, na química e na biologia. Perceber dados matemáticos deve ser ensinado em conjunto”, disse, apelando também a que os problemas usados no ensino da ciência em Timor-Leste sejam adaptados à realidade do país, em vez de seguirem modelos importados sem qualquer ligação ao contexto local.

“Queremos ter problemas relacionados com o ambiente de Timor-Leste. Quando aprendemos física e química, queremos incluir problemas que são relevantes aqui, como a agricultura, e incluir também questões sobre as alterações climáticas”, afirmou.

Seager disse que alunos que estudaram no estrangeiro podem ser bons professores em Timor-Leste, procurando como implementar experiências de forma barata, que possam ser aplicadas nas escolas em Timor-Leste.

“Não se trata só de AI. É importante ter professores, mais professores treinados. Deve investir-se nisso, para serem capaz de estar nas salas de aula a estimular os alunos”, afirmou.

“Precisamos que alguns dos formados, incluindo até PHD, que ensinem, inclusive na escola secundária”, disse ainda.

Todas as crianças, disse, “nascem cientistas, a fazer perguntas, a experimentar” e isso, essa “curiosidade” deve continuar a ser estimulada nas escolas, na sociedade.

O painel decorreu no segundo dia da cimeira, que reúne mais de duas dezenas de laureados com o Nobel e o Turing no Centro de Convenções de Díli, e insere-se num conjunto mais amplo de sessões dedicadas à reforma do ensino superior e da formação científica timorense, incluindo debates sobre estratégia de ensino superior e sobre o papel das universidades na criação de conhecimento aplicado às necessidades do país.

Sara Seager é professora no Massachusetts Institute of Technology (MIT), reconhecida pelo trabalho pioneiro no estudo de exoplanetas e na procura de sinais de vida fora do sistema solar. Em 2024, foi distinguida com o Prémio Kavli de Astrofísica pelos contributos para a caracterização de atmosferas de exoplanetas e para o desenvolvimento de métodos de deteção destes mundos.

A Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026 decorre até ao final do dia de hoje, no Centro de Convenções de Díli (CCD), onde está também aberta ao público a SciTech 2026.

A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.

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Escrito por RafaFM

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