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Díli, 03 de julho de 2026 (RAFA.TL) – João Felgueiras apagou as velas dos seus 105 anos, no passado dia 09 de junho, e hoje deu o último suspiro depois de uma vida longa de dedicação a Timor-Leste, onde chegou em 1971 e de onde nunca mais partiu.
João Felgueiras, foi internado na quarta-feira com insuficiência respiratória, numa clínica em Díli, e a sua situação de saúde não melhorou.
Faleceu hoje, cerca das 17:30, rodeado por alguns amigos, a maioria do Centro Juvenil Padre António Vieira, a instituição que ajudou a construir, onde viveu desde que a obra nasceu, ali perto do seu outro sonho concretizado em 2017: a Escola Amigos de Jesus, um dos seus muitos legados.
Decano dos jesuítas, João Vasconcelos Baptista Felgueira, nasceu em Caldas das Taipas, Guimarães e ingressou na Companhia de Jesus e foi ordenado aos 29 anos.
Em janeiro de 1971, rumou a Timor-Leste para assumir o cargo de vice-reitor do seminário de Díli, uma missão educativa interrompida pelo terror da invasão indonésia, longos anos de trevas durante os quais permaneceu junto da população, acolhendo ativistas, ensinando português às escondidas.
Era o mais novo de uma família de nove irmãos, três dos quais optaram também pela vida religiosa. Entrou para a Companhia de Jesus aos 21 anos, no antigo noviciado da Costa, e foi ordenado padre a 30 de julho de 1950. Celebrou a sua primeira missa na sua terra natal, poucas semanas depois.
Passou duas décadas em casas jesuítas em Lisboa, Cernache, Braga e Santo Tirso antes de, em 21 de janeiro de 1971, desembarcar em Timor para ocupar o cargo de vice-reitor do seminário de Díli. Tinha 49 anos e não imaginava que aquela ilha do sudeste asiático se tornaria a sua segunda pátria pelos 55 anos seguintes.
“Sinto-me português e timorense. Vim para aqui como missionário para trabalhar, enquanto a Companhia de Jesus quisesse e assim foi até agora. Todos contribuímos. O passado foi vivido, e estou contente de ter vivido em paz, não fiz nada contra ninguém, nada de mal contra o povo e estou contente poder ter contribuído alguma coisa”, explicou numa entrevista em 2022.
A vida do padre Felgueiras mudou de forma radical com a invasão indonésia de 1975.
Ao contrário de muitos religiosos estrangeiros, recusou abandonar o território, permanecendo ao lado da população timorense durante os anos mais duros da ocupação.
Continuou a ensinar português no Externato de São José, a única escola onde a língua ainda era permitida pelas autoridades indonésias, até ao encerramento forçado em 1992.
Nos períodos em que ensinar português era motivo de perseguição, fê-lo na clandestinidade, escondendo estudantes, prestando assistência espiritual a ativistas independentistas e acompanhando famílias na fuga para as montanhas.
Testemunhou de perto o massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, um dos episódios mais sangrentos da ocupação, e viveu com angústia os anos de repressão que se seguiram. Chegou a passar um ano em Jacarta, para onde as autoridades indonésias o enviaram na tentativa de o impedir de regressar a Timor – sem sucesso.
O referendo de 1999 e a independência, formalizada em 2002, trouxeram-lhe finalmente algum sossego, embora nunca tenha deixado de trabalhar pela educação dos mais jovens.
É dele o sonho da Escola Amigos de Jesus, nascida de um punhado de árvores em Lahane onde ensinava às escondidas, e que se tornou, com a inauguração da ampliação em 4 de fevereiro de 2017, um dos projetos mais queridos da sua vida.
O contributo do padre Felgueiras para a preservação da língua e da identidade timorense foi reconhecido tanto por Portugal como por Timor-Leste.
Em 2002, o então Presidente português Jorge Sampaio distinguiu-o como Grande Oficial da Ordem da Liberdade.
Em 2016, o chefe de Estado timorense Taur Matan Ruak atribuiu-lhe a Insígnia da Ordem de Timor-Leste, saudando-o como educador incansável de sucessivas gerações.
Em maio de 2022, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Camões, na própria Escola Amigos de Jesus, em Díli.
Em setembro de 2024, já com 103 anos, foi o primeiro a ser saudado pelo Papa Francisco durante o encontro do pontífice com os jesuítas em Díli, na Nunciatura Apostólica.
O gesto, recordado depois pelo jornal do Vaticano, foi descrito como uma homenagem pública a um religioso que nunca abandonou o seu povo, nem nos momentos mais difíceis.
Era um dos jesuítas mais idosos do mundo, e vivia no Centro Juvenil Padre António Vieira, nos arredores de Díli, rodeado de jovens timorenses a quem continua a dedicar atenção e afeto. Da terra que o viu nascer, em Guimarães, à terra que escolheu para viver e, um dia, morrer, o padre João Felgueiras tornou-se, para várias gerações de timorenses, mais do que um missionário: um pai, um professor e uma testemunha viva da história do país.
“Nunca pensei que ia ficar aqui estes anos todos”, disse em 2022.
Mas ficou. No país que era seu, pelo qual lutou e a que hoje disse adeus.
Jornalista: António Sampaio
Escrito por RafaFM
do padre que desafiou a ocupação indonésia ao decano dos jesuítas Padre João Felgueiras: mais de meio século de entrega a Timor-Leste
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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