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Joanesburgo, 01 de julho de 2026 (RAFA.TL) – Milhares de manifestantes saíram à rua em várias cidades da África do Sul na terça-feira, para protestar contra a imigração ilegal, nos maiores protestos ligados à questão migratória desde a vaga de violência xenófoba de 2008.
Segundo o Gabinete de Informação de Moçambique (Gabinfo), pelo menos 51 cidadãos moçambicanos tiveram as suas residências incendiadas e perderam todos os bens na região de Mamelodi, em Pretória.
Ataques que ocorreram num contexto de escalada de tensão associada à data de 30 de junho, prazo fixado por grupos anti-imigração para a saída de estrangeiros em situação irregular.
As vítimas encontram-se sob proteção policial, com o processo de repatriamento para Moçambique já em curso.
O mesmo organismo referiu ainda casos de intimidação e agressões contra cidadãos moçambicanos na região de Durban e zonas adjacentes, obrigando muitas famílias a abandonar temporariamente as suas casas.
Segundo o Governo moçambicano, nove cidadãos nacionais morreram e 738 foram já repatriados devido aos ataques xenófobos no país vizinho.
As manifestações, que decorreram em Joanesburgo, Pretória, Durban e nas províncias do Cabo Ocidental, North West e KwaZulu-Natal, foram descritas pelas autoridades como maioritariamente pacíficas, mas registaram-se incidentes isolados de saques e tentativas de saque.
A polícia sul-africana confirmou várias detenções, sem precisar o número.
Em conferência de imprensa, a ministra da Justiça, Mmamoloko Kubayi, elogiou o carácter pacífico da generalidade dos protestos, mas avisou que quem cometesse atos de violência ou outros crimes seria julgado com “todo o rigor da lei”.
O antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano aconselhou os seus concidadãos a legalizarem a documentação como condição para viver ou trabalhar na África do Sul, garantindo a disponibilidade do Estado moçambicano para apoiar esse processo, incluindo em matéria de passaportes e negociações com Pretória.
Chissano criticou a violência dos manifestantes, ainda que tenha reconhecido alguma legitimidade nas exigências levantadas.
Os protestos surgiram depois de vários grupos anti-imigração, entre os quais March and March, Operation Dudula e Progressive Forces, terem fixado o dia 30 de junho como prazo para a saída de todos os migrantes em situação irregular no país.
Estes grupos responsabilizam os migrantes pelo desemprego entre sul-africanos, alegando que aceitam salários mais baixos, e por outros problemas sociais, incluindo a criminalidade.
O Governo sul-africano rejeitou o ultimato, sublinhando que só as autoridades competentes podem fazer cumprir a legislação migratória.
O Presidente Cyril Ramaphosa, que já tinha contestado a tese de que os migrantes são responsáveis pelos problemas sociais e económicos do país, reuniu-se na segunda-feira à noite com líderes de alguns destes movimentos, apelando à realização de manifestações pacíficas.
A organização Amnistia Internacional África do Sul considerou que migrantes, refugiados e requerentes de asilo estão a ser injustamente responsabilizados pelo desemprego, pela desigualdade e pelas falhas nos serviços públicos do país, defendendo que estes problemas resultam antes do legado do apartheid, de desigualdades persistentes e de falhas no sistema de asilo.
A diretora executiva da organização, Shenilla Mohamed, alertou que a estigmatização de cidadãos estrangeiros desvia a atenção da responsabilidade do Governo e que a desinformação e a xenofobia podem alimentar mais violência contra migrantes.
Os protestos têm provocado uma vaga de saída de estrangeiros do país, sobretudo do Zimbabué e do Malaui, com milhares de pessoas a dirigirem-se às respetivas embaixadas e consulados para pedir transporte de regresso.
Registou-se um aumento do tráfego no posto fronteiriço de Beitbridge, na fronteira com o Zimbabué, e milhares de cidadãos malawianos regressaram ao país a partir de um centro de repatriamento temporário em Durban.
A Nigéria repatriou já três grupos de migrantes este mês, incluindo 271 pessoas que chegaram a Lagos na terça-feira. Segundo as autoridades nigerianas, 632 dos mais de mil nigerianos inscritos no processo de repatriamento voluntário já regressaram ao país, prevendo-se mais voos nos próximos dias.
Segundo a ministra da Justiça sul-africana, o país repatriou até ao momento 4.286 pessoas e deportou mais 419 nos últimos dias.
A tensão xenófoba é um problema recorrente na África do Sul.
O episódio mais grave dos últimos anos ocorreu no final de 2019, quando 18 estrangeiros morreram em ataques semelhantes, segundo dados da Human Rights Watch. Moçambique tem cerca de 300 mil cidadãos a residir na África do Sul.
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Escrito por RafaFM
África do Sul: protestos anti-imigração degeneram em ataques a casas de moçambicanos milhares de migrantes repatriados
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