Destaque

Guiné-Bissau acusa Xanana de “ingerência grosseira” e ameaça abandono definitivo da CPLP

todayJunho 25, 2026 122

Fundo
share close

Bissau, 26 de junho de 2026 (RAFA.TL) – O Conselho Nacional de Transição da Guiné-Bissau lançou um ataque frontal ao Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão, acusando-o de declarações “insultuosas e paternalistas”, questionando abertamente a legitimidade da CPLP.

O comunicado, lido pelo porta-voz Fernando Vaz, foi emitido a 24 de junho em Bissau e representa a mais grave escalada nas tensões entre as autoridades de transição guineenses e a CPLP, da qual a Guiné-Bissau se encontra suspensa na sequência do golpe de Estado de 2022.

O CNT acusou Xanana Gusmão de “uma ingerência grosseira nos assuntos do Estado soberano da Guiné-Bissau”, por “ousar sugerir que o nosso povo é um povo menor, cometer um ataque intolerável à nossa dignidade”.

Uma posição que considerou “vergonhoso” que quem lidera “uma organização meramente cultural a tente instrumentalizar como uma inquisição ou tribunal de tutela colonial, coisa que acabou há muito tempo.”

O porta-voz não poupou na linguagem ao dirigir-se pessoalmente ao líder timorense.

“Xanana Gusmão, o rural, fala comportando-se como um verdadeiro fazendeiro rústico e ignorante. Ninguém consegue compreender esse discurso atrapalhado”, afirmou Fernando Vaz.

Na sua declaração, Fernando Vaz chega mesmo a dizer que Timor-Leste devia agradecer à Guiné-Bissau, sem a qual não teria entrado na ASEAN. Erradamente, porém, inclui o Japão, que não faz parte da organização regional, entre os países junto dos quais teria atuado.

“É espantoso ver a desfaçatez destas figuras lúmpenes e ignóbeis, esquecendo-se de que ainda há bem pouco tempo beneficiaram diretamente da diplomacia guineense para lhes abrir portas na ASEAN, uma organização sub-regional que nem sequer queria ouvir o nome destes rurais e atrasados”, afirmou.

“Nomeadamente Indonésia, Malásia, Singapura e Japão, onde a Guiné-Bissau teve de intervir para lhes dar credibilidade internacional, quando não passavam de agricultores sem qualquer preparação para o poder do Estado”, disse ainda.

O texto questiona ainda a atribuição da presidência da CPLP a Timor-Leste em detrimento da Guiné, afirmando que “a resposta reside na subserviência” e no “controlo” exercido sobre Díli.

“A atual Guiné-Bissau recusa submeter-se a esse clube de atrasados. Não deseja esse regresso a essa organização fantoche e avisa que vai fazer as suas eleições soberanas, financiadas integralmente pelo seu próprio cofre de Estado”, disse.

“Não precisamos de esmolas, tutelas ou lições de moral da CPLP, muito menos de Xananas ou de Ramos-Horta”, disse no comunicado que leu para os jornalistas locais.

O CNT acusa ainda a CPLP de atuar “com o complexo do tempo colonial, de chicote na mão, através de vias anti-estatutárias e ilegais”, contrastando a organização desfavoravelmente com a Francofonia, que “respeitando a soberania de outros povos, nunca adotou suspensões abusivas contra os seus pares”.

“O tempo da vassalagem diplomática acabou. Aqueles que, num claro delírio, ainda insistem em proferir blasfémias contra a nossa República vão encontrar sempre uma resposta firme, implacável e esmagadora.”

Recorde-se que a legitimidade do CNT para falar em nome da Guiné-Bissau é, contudo, ela própria contestada.

Em novembro de 2025, militares guineenses anunciaram ter assumido o “controlo total do país”, detiveram o presidente Umaro Sissoco Embaló e suspenderam o processo eleitoral em curso, encerrando “até novas ordens, todas as instituições da República”.

Foi o mais recente episódio de uma história de instabilidade política crónica: desde a independência em 1974, a Guiné-Bissau registou quatro golpes de Estado bem-sucedidos e mais de 17 tentativas de golpe, sendo um dos países do mundo com maior número de transições de poder violentas.

O país já teve doze presidentes da República para apenas seis eleições presidenciais realizadas, e vinte e oito primeiros-ministros ou governos para sete eleições legislativas.

É precisamente o atual regime de transição militar – que se autoproclama porta-voz da soberania guineense – que a CPLP suspendeu.

Recorde-se que o Índice de Desenvolvimento Humano da Guiné-Bissau era de 0,514 em 2023, face a uma média mundial de 0,744, colocando o país na posição 179 de 193 países – entre os mais baixos do planeta.

Mais de 56,8% dos guineenses vivem em situação de pobreza, o país depende essencialmente de ajuda externa, da economia de subsistência e da exportação de cajú, e o acesso a serviços básicos permanece gravemente limitado, com apenas 33,3% da população com acesso a eletricidade.

FIM

 

 

 

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!