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Jakarta, 3 de junho de 2026 (RAFA.TL) – A Indonésia enfrenta uma crise crescente de resíduos sólidos que especialistas descrevem como uma “bomba-relógio” prestes a explodir, forçando o Governo a acelerar planos para conversão do lixo.
Com os aterros sanitários a atingir a capacidade máxima, o governo aposta nas centrais de conversão de lixo em energia, mas peritos advertem que a solução exige, acima de tudo, reduzir o lixo na origem.
O país gera anualmente 56,6 milhões de toneladas de resíduos. Dispõe de 550 aterros sanitários, mas estes deverão atingir a capacidade máxima até 2030 caso não sejam tomadas medidas significativas.
Em fevereiro de 2026, a taxa de gestão de resíduos situava-se em apenas 24,95%, o que significa que três quartos do lixo gerado continua sem tratamento adequado, sendo frequentemente despejado em lixeiras a céu aberto, lançado em rios ou queimado.
Citado pela CNA, o especialista em ambiente Mahawan Karuniasa, da Universidade da Indonésia, descreveu o problema como uma “crise estrutural de governação, capacidade e crescimento urbano”, agravada por uma população que cresceu de 258 para 285 milhões de habitantes na última década.
A ilha de Bali apresenta um retrato claro da crise.
A ilha gera cerca de 3.400 toneladas de lixo por dia, mas apenas 29% é tratado. O principal aterro da ilha, o Suwung, em Denpasar, já ultrapassou a capacidade e será encerrado permanentemente a 1 de agosto.
Desde 1 de abril, os resíduos orgânicos – que representam cerca de 65% do lixo da ilha – deixaram de poder ser depositados no aterro.
A decisão de encerrar o Suwung foi adiada repetidas vezes – de dezembro de 2025 para fevereiro de 2026, depois para abril e agora para agosto de 2026.
A medida é considerada acertada pelos especialistas, mas a transição tem sido caótica: registaram-se aumentos de descargas ilegais de lixo nas comunidades e um crescimento notório da queima de resíduos em toda a ilha.
Em setembro passado, Bali sofreu inundações mortais causadas, entre outros fatores, por cursos de água obstruídos por lixo, que vitimaram 17 pessoas.
O governo prevê que a central de conversão de lixo em energia, que deverá substituir o Suwung como solução de longo prazo, só esteja plenamente operacional em 2028, o que levanta preocupações sobre um vazio no sistema de gestão de resíduos durante o período de transição de dois anos.
Na capital Jacarta, a crise ganhou contornos trágicos.
A 8 de março, uma avalanche de lixo no aterro de Bantargebang, em Bekasi, matou sete pessoas – dois condutores de camiões, três catadores de lixo e dois vendedores ambulantes.
O acontecimento foi descrito pelo Ministério do Ambiente como “a ponta do icebergue” da gestão falhada de resíduos em Jacarta.
O aterro de Bantargebang tem um historial trágico, com deslizamentos em 2003 e 2006. Em janeiro de 2026, uma nova rutura arrastou três camiões para um leito de rio, num padrão que um grupo de vigilância ambiental descreveu como pelo menos o quinto acidente em seis meses na região da Grande Jacarta.
O aterro, com 110 hectares, recebe diariamente entre 7.400 e 8.000 toneladas de lixo de Jacarta e opera desde 1989.
O governo exige que deixe de receber resíduos mistos a partir de 1 de agosto.
Além do problema dos aterros, vários grandes aterros em funcionamento muito além da sua capacidade – incluindo Sarimukti (Java Ocidental), Rawa Kucing (Tangerang), Piyungan (Yogyakarta) e Suwung (Bali) – apanharam fogo desde 2023, frequentemente desencadeados pela acumulação de metano e condições meteorológicas extremas.
O Presidente indonésio Prabowo Subianto declarou a gestão de resíduos como prioridade nacional e o governo pretende lançar ainda este mês as obras de cinco centrais de conversão de lixo em energia, em Denpasar, Bekasi, Bogor, Bandung e Yogyakarta.
A longo prazo, estão previstas instalações em 30 regiões distribuídas por 61 municípios, com capacidade para processar mais de 1.000 toneladas por dia cada.
Porém, os especialistas alertam para os limites desta aposta.
O lixo doméstico indonésio é frequentemente húmido e dominado por matéria orgânica, o que torna a incineração menos eficiente sem triagem prévia.
A central de conversão de Solo, inaugurada em 2023, funciona a apenas entre 15 e 20% da sua capacidade de processamento por falta de triagem na origem.
Para o ativista de “zero resíduos” Ibar Akbar, da Greenpeace Indonésia, as centrais de conversão arriscam tornar-se “um atalho caro” que desvia a atenção da redução de resíduos na origem, podendo ainda ameaçar os trabalhadores informais do setor e contradizer a estratégia nacional.
“O grande dinheiro para os projetos de conversão de resíduos em energia pode ser usado em programas de triagem. A triagem não é fácil. E o problema dos resíduos da Indonésia não pode ser resolvido apenas com tecnologia cara e sofisticada”, afirmou.
Os especialistas defendem que a Indonésia deve tratar o lixo como uma questão de política económica e industrial, e não apenas ambiental. Entre as medidas recomendadas contam-se o combate às embalagens de uso único, a separação de orgânicos e recicláveis, a compostagem local, o fortalecimento dos bancos de resíduos e a responsabilização dos produtores pela gestão das embalagens.
Caso as medidas estruturais não sejam adotadas, o país corre o risco de o seu problema de resíduos se tornar, nas palavras de Ibar Akbar, “uma bomba-relógio”.
FIM
Escrito por RafaFM
Aterros quase esgotados transformam lixo em "bomba-relógio" em várias zonas da Indonésia
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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