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todayMarço 24, 2026 29 1 5
DÍLI, 24 de março de 2026 (RAFA.tl) – A fraude financeira custou à economia global 442 mil milhões de dólares em 2025, com o sudeste asiático no centro da “industrialização” do crime que é já um dos cinco maiores do mundo, segundo o mais recente relatório da Interpol.
“Impulsionada pela inteligência artificial, por ferramentas digitais de baixo custo e por uma colaboração criminal global crescente, estamos a assistir à industrialização da fraude”, declarou o Secretário-Geral da INTERPOL, Valdecy Urquiza, durante a apresentação recente do relatório em Viena.
Os autores do relatório – “Avaliação Global da Ameaça de Fraude Financeira” – admitem que o impacto total do ‘scamming’ deve ser significativamente maior já que muitas das vítimas não informam sobre os crimes de que foram alvo, tornando impossível calcular com exatidão a escala real do problema.
Motivo pelo qual a Interpol considera que a fraude deixou de ser um crime periférico para se tornar um dos cinco maiores crimes transnacionais do mundo, a par do tráfico de cocaína, do tráfico de drogas sintéticas, do branqueamento de capitais e do tráfico de heroína.
“É vital recordar que o custo do crime financeiro não é apenas monetário – são as poupanças de uma vida, a dignidade das pessoas e, nos piores casos, a própria vida”, disse na apresentação do relatório que coincidiu com a Cimeira Global contra a Fraude, organizada conjuntamente com o Gabinete das Nações Unidas para a Droga e o Crime (UNODC) e que reuniu mais de 1.300 participantes de mais de 100 países.
O relatório coloca o fator tecnológico como tema central do problema, referindo que a expansão da Inteligência Artificial (IA) permite desenvolver sistemas capazes de planear e executar autonomamente campanhas de fraude completas, desde o reconhecimento das vítimas até à formulação de exigências de resgate.
Trata-se, considera a Interpol, de uma rutura qualitativa face a todas as ameaças anteriores.
A organização estima que os esquemas de fraude potenciados por IA são 4,5 vezes mais lucrativos do que os métodos tradicionais.
Os mercados da dark web disponibilizam “kits de identidade sintética” completos – com avatares de vídeo gerados por IA, clones de voz e dados biométricos – a preços acessíveis, permitindo criar clones digitais convincentes a partir de apenas dez segundos de áudio retirado de publicações nas redes sociais.
O relatório documenta ainda a proliferação de plataformas de “fraude como serviço” (fraud-as-a-service) que oferecem a grupos criminosos de menor dimensão toda a infraestrutura necessária: ferramentas de phishing, plataformas de negociação falsas, chatbots com IA para seduzir vítimas e canais de comunicação encriptados.
A informação disponível aponta para transações criminosas transregionais que envolvem redes a operar na Europa de Leste a vender kits de phishing a grupos criminosos que gerem centros de burla no Sudeste Asiático e que, subsequentemente, recorrem a redes na Ásia do Sul para branquear os proveitos ilícitos.
O Sudeste Asiático ocupa um lugar central no relatório, tanto como berço do modelo criminoso dominante como palco das operações mais preocupantes.
Os centros de scamming, que inicialmente emergiram como um fenómeno regional concentrado no Sudeste Asiático e que recrutavam vítimas maioritariamente de língua chinesa e oriundas de países asiáticos, expandiram-se desde 2022 de forma consistente.
Vítimas foram traficadas para o Sudeste Asiático provenientes de regiões tão distantes como a América do Sul, a Europa Ocidental e a África Oriental.
No final de 2025, as vítimas de tráfico para estes centros eram de quase 80 nacionalidades, face a 66 no primeiro trimestre do mesmo ano.
Um relatório de fevereiro de 2026 do Gabinete do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, intitulado A Wicked Problem, estima que pelo menos 300.000 pessoas estão a ser forçadas a trabalhar em centros de scamming no Sudeste Asiático, em instalações que cobrem áreas amplas, a funcionarem quase como “cidades autónomas” cercadas de arame farpado e guardas armados, onde os passaportes são confiscados e o incumprimento das quotas de burla é punido com tortura.
A romance baiting – a combinação de romance e fraude de criptomoeda que inicialmente estava principalmente ligada a sindicatos de crime organizado da Ásia Oriental, emergiu no Sudeste Asiático e desde então espalhou-se globalmente para África, América Latina e Europa.
O mesmo relatório documenta a integração crescente da sextorção nestes esquemas: quando uma abordagem de fraude de investimento falha, os operadores dos centros instruem os seus “trabalhadores” escravizados a obter imagens explícitas das vítimas e a usá-las para extorsão.
A INTERPOL confirma que esta evolução tática já foi observada nos centros de burla do Sudeste Asiático e está agora a ser replicada em centros a operar em África.
Face à dimensão da ameaça regional, a INTERPOL lançou dois mecanismos específicos para o Sudeste Asiático.
O primeiro é a Operação Shadow Storm, uma nova força-tarefa internacional financiada pelo Ministério do Interior britânico, que terá o Sudeste Asiático como primeiro alvo e que, pela primeira vez, visa simultaneamente a fraude financeira, o tráfico humano, o cibercrime e o branqueamento de capitais que convergem nos centros de burla – em vez de atacar cada vertente separadamente, como nas operações anteriores.
A Operação HAECHI VI, conduzida no âmbito da cooperação regional, resultou em 32.835 detenções, no bloqueio de 68.000 contas bancárias e na recuperação de 439 milhões de dólares, incluindo 342 milhões em moedas com respaldo governamental e 97 milhões em ativos físicos e virtuais.
O segundo mecanismo é o Projecto SynthWave, liderado pelo Centro de Inovação da INTERPOL, que aborda especificamente as ameaças decorrentes dos meios de comunicação sintéticos gerados por IA no Sudeste Asiático, reunindo forças policiais, especialistas e académicos do Cambodja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Timor-Leste e Vietname, com apoio financeiro do Governo do Japão.
Na região Ásia-Pacífico, a Força Policial de Singapura destacou que, apesar de uma descida face a 2024, a fraude financeira continuou a ser uma preocupação de segurança major, com perdas estimadas em aproximadamente 721 milhões de dólares em 2025.
O relatório identificou o Business Email Compromise (BEC) – a burla em que os criminosos se fazem passar por executivos empresariais para manipular funcionários a transferir fundos – como o tipo de fraude mais frequentemente reportado à INTERPOL, com a maioria dos relatórios a ser proveniente exatamente da região Ásia-Pacífico e da Europa.
A INTERPOL registou um aumento de 47% nas Notificações e Difusões relacionadas com fraude na região Ásia-Pacífico entre 2024 e 2025, o segundo maior crescimento regional a nível global, apenas abaixo da Europa (69%).
FIM
Escrito por RafaFM
Fraude financeira/scamming custou 442 mil milhões de dólares em 2025 – Interpol
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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