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Jornal aponta alegadas ligações entre projeto de resort em Timor-Leste e rede de fraude no sudeste asiático

todayAbril 7, 2026 491 1

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SYDNEY, 07 de Abril de 2026 (RAFA.tl) – Uma investigação do jornal The Guardian Australia e do Projeto de Jornalismo sobre Crime Organizado e Corrupção (OCCRP) alega que a rede de blockchain AB tentou desenvolver um resort temático em Timor-Leste com a participação de três pessoas que mais tarde seriam sancionadas pelos Estados Unidos.

Segundo a investigação, o empreendimento previa um complexo de 300 mil metros quadrados junto ao mar, perto de Díli, apresentado como futuro polo internacional para encontros de luxo ligados ao universo cripto.

O projeto foi promovido online como um dos principais ativos da AB, mas acabou por ser cancelado em novembro, segundo uma explicação posteriormente publicada pelo próprio ecossistema AB, já depois da investigação dos jornalistas ter começado.

Recorde-se que a AB chegou a promover uma parceria com a World Liberty Financial – empresa de criptomoedas codetida pela família do Presidente norte-americano Donald Trump.

A investigação revela detalhes sobre a empresa timorense criada para desenvolver o resort, a AB Digital Technology Resort Lda.

Registos societários citados mostram que entre os seus acionistas e colaboradores surgiam Yang Jian, Yang Yanming e Shih Ting-yu, nomes que viriam a ser sancionados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos no âmbito de uma grande operação contra o Prince Group, descrito por Washington como uma organização criminosa transnacional ligada a burlas online, branqueamento de capitais e redes de exploração laboral forçada no Sudeste Asiático.

As autoridades norte-americanas anunciaram sanções contra 146 alvos ligados ao Prince Group e, em paralelo, a Justiça dos EUA acusou o seu líder, Chen Zhi, de conspiração para fraude eletrónica e branqueamento de capitais, alegando que o grupo dirigia complexos de fraude com recurso a trabalho forçado no Camboja.

O Departamento de Justiça avançou ainda com uma ação de confisco de cerca de 127.271 bitcoins, avaliadas em aproximadamente 15 mil milhões de dólares, descrita como a maior da sua história.

Apesar disso, a própria investigação sublinha que não há provas de uma ligação direta entre a AB e o Prince Group, nem de que fundos ilícitos tenham sido canalizados para o projeto em Timor-Leste. Também não há indicação de que a World Liberty Financial, o antigo Presidente sérvio Boris Tadić ou outras figuras políticas associadas ao universo AB tivessem conhecimento do envolvimento prévio destas pessoas sancionadas.

Os indivíduos visados não foram acusados criminalmente neste dossiê específico do resort timorense e, segundo os documentos analisados, foram afastados do projeto pouco depois de as sanções terem sido anunciadas.

A investigação identifica ainda dois empresários chineses como figuras centrais por detrás da arquitetura do ecossistema AB: Sui Chenggang, que se apresentou aos repórteres como iniciador da rede e beneficiário efetivo da sua estrutura financeira registada nas Ilhas Caimão, e Lin Xiaofan, empresário nascido em Guangdong, descrito como peça-chave nas ligações políticas e institucionais do projeto em Timor-Leste.

Lin confirmou ter tido um papel de liderança no resort, mas rejeitou qualquer ligação ao Prince Group, afirmando “desprezar” quem opera centros de burla online.

Citado nos artigos, o Presidente timorense, José Ramos-Horta, reconheceu aos jornalistas que conheceu Lin, aceitou integrar um conselho consultivo ligado à fundação sem fins lucrativos associada à AB e chegou a recomendar que o empresário recebesse passaporte diplomático timorense e o título de conselheiro especial para os assuntos económicos e comerciais.

A investigação alega que a AB doou 500 mil dólares a uma instituição de caridade gerida pelo Presidente, com apoio em espécie incluindo computadores e material alimentar distribuído em Timor-Leste.

Ramos-Horta afirmou não ter obtido qualquer benefício pessoal e justificou a decisão com o objetivo de atrair investimento limpo e tecnológico para o país.

A World Liberty Financial, por seu lado, disse através de advogados que está comprometida com práticas responsáveis e com a conformidade regulatória, acrescentando que realizou diligências sobre a AB e que não foi informada nem sobre o projeto de Timor-Leste nem sobre os nomes associados ao mesmo. A empresa afirmou que as tentativas de a ligar a indivíduos sancionados são “infundadas e falsas”.

A possibilidade de construção de um resort ligado ao setor das criptomoedas já tinha sido discutida no passado em Timor-Leste, com um projeto para o desenvolvimento dessa infraestrutura em Ataúro a ser apresentado em 2022.

Esse projeto foi na altura identificado como o “Invech Group Casino Resort Development” e previa a transformação de Timor-Leste numa “Blockchain Smart City”, criando a “Invech Exchange” em Timor-Leste.

FIM

Escrito por RafaFM

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